Machado de Assis - Tradução



Oliver Twist



Texto-fonte:

Oliver Twist, Charles Dickens,

Tradução de Machado de Assis e Ricardo Lísias,

1ª. Ed., São Paulo Hedra, 2002.


Publicado originalmente em Jornal da Tarde, Rio de Janeiro, de 23/04/1870 a 23/08/1870.


ÍNDICE


CAPÍTULO PRIMEIRO

CAPÍTULO II

CAPÍTULO III

CAPÍTULO IV

CAPÍTULO V

CAPÍTULO VI

CAPÍTULO VII

CAPÍTULO VIII

CAPÍTULO IX

CAPÍTULO X

CAPÍTULO XI

CAPÍTULO XII

CAPÍTULO XIII

CAPÍTULO XIV

CAPÍTULO XV

CAPÍTULO XVI

CAPÍTULO XVII

CAPÍTULO XVIII

CAPÍTULO XIX

CAPÍTULO XX

CAPÍTULO XXI

CAPÍTULO XXII

CAPÍTULO XXIII

CAPÍTULO XXIV

CAPÍTULO XXV

CAPÍTULO XXVI

CAPÍTULO XXVII

CAPÍTULO XXVIII




CAPÍTULO PRIMEIRO


DO LUGAR EM QUE OLIVER TWIST NASCEU E DAS CIRCUNSTÂNCIAS QUE OCORRERAM NESSA OCASIÃO.


Dentre os vários monumentos públicos que enobrecem uma cidade de Inglaterra, cujo nome tenho a prudência de não dizer, e à qual não quero dar um nome imaginário, um existe comum à maior parte das cidades grandes ou pequenas: é o asilo da mendicidade.

Lá em certo dia, cuja data não é necessário indicar, tanto mais que nenhuma importância tem, nasceu o pequeno mortal que dá nome a este livro.

Muito tempo depois de ter o cirurgião dos pobres da paróquia introduzido o pequeno Oliver neste vale de lágrimas, ainda se duvidava se a pobre criança viveria ou não; se sucumbisse, é mais que provável que estas memórias nunca aparecessem, ou então ocupariam poucas páginas, e deste modo teriam o inapreciável mérito de ser o modelo de biografia mais curioso e exato que nenhum país em nenhuma época jamais produziu.

Ainda que eu não esteja disposto a sustentar que seja extraordinário favor da fortuna nascer a gente num asilo de mendigos, posso afirmar que, nas circunstâncias atuais, era

o melhor que podia acontecer a Oliver Twist.

A razão é esta. Houve imensa dificuldade em fazer com que Oliver desempenhasse as funções respiratórias, exercício fatigante, mas necessário à nossa existência. Durante algum tempo ficou o pecurrucho deitado no colchão de lã grosseira, fazendo esforços para respirar, oscilando entre a vida e a morte e inclinando-se mais para esta. Se durante esse tempo Oliver estivesse rodeado de avós solicitados, tias assustadas, amas experientes e médicos profundamente sábios, morreria infalivelmente. Mas como não havia ninguém, exceto uma pobre velha que havia bebido um trago demais e um médico pago por ano para esse trabalho, Oliver e a natureza ficaram sozinhos em face um do outro.

O resultado foi que, após alguns esforços, Oliver respirou, espirrou e deu notícia aos habitantes do asilo da nova carga que ia pesar à paróquia, soltando um grito tão agudo quanto se podia esperar de um varão que só desde três minutos e meio possuía este utilíssimo presente que se chama voz.

No momento em que Oliver dava essa primeira prova da força e da liberdade de seus pulmões, agitou-se a pequena coberta remendada da cama de ferro. Levantou-se com dificuldade o rosto pálido de uma moça, e uma voz fraca articulou estas palavras:

— Quero ver meu filho antes de morrer!

O médico estava assentado diante da lareira, aquecendo-se e esfregando as mãos. Ouvindo a voz da moça levantou-se e, aproximando-se da cama, disse com mais doçura do que se podia esperar do seu ofício:

— Oh! Não fale de morrer!

Deus proteja a pobre mulher! — disse a enfermeira, metendo na algibeira uma garrafa cujo conteúdo provava nesse momento com evidente satisfação; quando ela tiver vivido tanto como eu e tiver tido treze filhos e perdido onze, visto que só me restam dois aqui no asilo, então há de pensar de outra maneira. — Ora, vamos, pense na felicidade de ser mãe deste pequeno.

E provável que essa perspectiva consoladora da ventura maternal não produzisse grande efeito. A enferma sacudiu tristemente a cabeça e estendeu as mãos para o filho.

O médico passou-lhe a criança aos braços; ela aplicou com ternura, na testa do pequeno, os lábios pálidos e frios; depois passou as mãos pelo próprio rosto, caiu na cama e morreu.

Esfregaram-lhe o peito, as mãos, as fontes; mas o sangue estava gelado para sempre; falavam-lhe de esperança e de amparo; mas ela estava tanto tempo privada disso que achou melhor expirar.

— Está acabado, Sra. Haingummy — disse o médico.

— Ah! Pobre moça, é verdade disse a enfermeira apanhando a rolha da garrafa verde, que havia caído na cama, enquanto ela se abaixara para segurar o pequeno.

— É inútil mandar-me chamar se a criança berrar — disse o médico com resolução. É provável que não fique sossegado. Nesse caso dê-lhe um pouco de mingau.

O médico pôs o chapéu na cabeça e, dirigindo-se para a porta, parou junto da cama e disse:

— Era bonita! De onde veio ela?

— Trouxeram-na ontem à noite — respondeu a velha — por ordem do inspetor; foi achada na rua; fizera um longo trajeto, porque os sapatos estavam em frangalhos; mas de onde vinha e para onde ia? Ninguém sabe dizer.

O médico inclinou-se para o corpo e, levantando a mão esquerda da defunta, disse abanando a cabeça:

— Sempre a mesma história; não tem anel de aliança... Não era casada... Boa noite!

O doutor foi jantar, e a enfermeira, depois de levar à boca a garrafa, assentou-se numa cadeira junto à lareira e entrou a vestir o pequeno.

Que exemplo da influência da roupa ofereceu então o pequeno Oliver Twist! Envolvido na coberta que até então fora sua única roupa, podia ser filho de um fidalgo ou mendigo; era impossível ao estranho mais presumido dizer qual era a sua classe na sociedade; mas quando o meteram num vestidinho velho de morim, amarelecido nesse uso, achou logo seu lugar; filho da paróquia, órfão do asilo de mendigos, vítima da fome, destinado aos maus-tratos, ao desprezo de todos, à piedade de ninguém.

Oliver berrava com quantas forças tinha. Se ele soubesse que era órfão, abandonado à terna compaixão dos bedéis e dos inspetores, talvez berrasse mais alto.

CAPÍTULO II

COMO OLIVER TWIST CRESCEU E FOI EDUCADO.

Durante os oito ou dez meses que se seguiram, Oliver Twist foi vítima de um sistema contínuo de trapaças e decepções.

Foi criado com mamadeira.

As autoridades da paróquia perguntaram com dignidade às autoridades do asilo se não havia alguma mulher, residente no estabelecimento, que pudesse dar a Oliver Twist a consolação e o alimento de que ele carecia. As autoridades do asilo responderam humildemente que não havia; à vista do quê, as autoridades da paróquia tiveram a humanidade e a magnanimidade de ordenar que Oliver fosse mandado para uma casa dependente do asilo, situada a três milhas de distância, onde uns vinte ou trinta infratores da lei dos pobres passavam o dia a rolar pelo chão sem medo de comer muito nem andar agasalhados demais. Tratava deles uma velha que recebia os delinqüentes à razão de três tostões por semana e por cabeça.

Três tostões fazem uma boa soma para sustentar um pequeno; pode comprar-se muita coisa com três tostões; quanto baste para abarrotar o estômago de uma criança e alterar-lhe a saúde.

A velha era prudente; sabia o que convinha aos pequenos e o que lhe convinha a ela; em conseqüência disto, gastava consigo a maior parte do auxílio hebdomadário e reduziu a pequena geração da paróquia a um regime mais escasso do que aquele que se dava na casa onde Oliver nasceu. A boa senhora esticava cada vez mais os limites conhecidos da economia e mostrava ter consumada filosofia na prática da vida.

Todos conhecem a história daquele outro filósofo experimental, que imaginara uma bela teoria para fazer com que um cavalo vivesse sem comer e que a aplicou tão bem que chegou a dar ao cavalo a ração de fio de palha. Indubitavelmente, ficaria aquele animal ágil e ligeiro, se não tivesse morrido vinte e quatro horas antes de receber pela primeira vez uma forte ração de ar puro.

No que respeita à velha, a cujo cuidado Oliver foi confiado, esse resultado era quase sempre a conseqüência natural do seu sistema. Justamente na ocasião em que uma criança conseguia existir com uma escassíssima porção de alimento, acontecia, oito vezes em dez casos, que a infame criança tinha a maldade de cair doente de frio e de fome ou deixar-se cair no fogo por descuido; então partia a desgraçada criaturinha para o outro mundo, onde ia encontrar os pais que não conhecera neste.

Fazia-se às vezes uma devassa do caso mais interessante que de costume, a respeito de uma criança abafada debaixo de um colchão ou achada numa bacia de água a ferver em dia de varela, posto que este último acidente fosse raro, porque na casa da velha quase nunca se lavava roupa. Nessas ocasiões o júri fazia algumas perguntas de atrapalhar, ou então os habitantes da paróquia tinham a audácia de assinar uma reclamação; mas estas impertinências eram logo reprimidas pelo relatório do médico ou pelo testemunho do bedel. O médico declarava que abrira o corpo e nada achara dentro, o que era muito provável; e o bedel jurava sempre no sentido das autoridades da paróquia — o que revelava admirável dedicação.

Demais, a comissão administrativa fazia excursões periódicas a esses estabelecimentos secundários, tendo o cuidado de mandar o bedel adiante para anunciar a visita; as crianças estavam lavadas e assediadas quando esses senhores chegavam.

Tal sistema de educação não daria às crianças muita força nem grossas banhas. No dia em que completou nove anos, Oliver Twist era um pirralho, amarelo como um defunto e singularmente magro.

Oliver devia à natureza ou a seus pais um espírito vivo e reto, que não teve dificuldade em se desenvolver, apesar das privações do estabelecimento, e foi talvez a isso que ele deveu ter chegado ao seu nono aniversário natalício.

Fosse como fosse, completava ele nove anos e estava nesse dia no depósito de carvão com dois companheiros, que receberam com ele uma dose de bofetões e foram metidos no dito depósito, por terem tido a audácia de dizer que estavam com fome. De repente a Sra. Mann, a excelente diretora da casa, foi surpreendida com a aparição imprevista do bedel, o Sr. Bumble, que procurava abrir a porta do jardim.

— Santo Deus! É o Sr. Bumble — disse a Sra. Mann, pondo a cabeça na janela e simulando uma grande alegria. — Suzana, mande cá para cima Oliver e os outros dois peraltas e lave-os depressa. Que prazer, que prazer tenho eu em vê-lo, Sr. Bumble.

O Sr. Bumble era gordo e irritadiço; em vez de responder polidamente a este cumprimento afetuoso, entrou a sacudir com toda a força a porta, dando-lhe depois um pontapé, mas um verdadeiro pontapé de bedel.

— Será possível? — disse a Sra. Mann correndo a abrir a porta, enquanto se punham as crianças em liberdade. Esquecia-me que a porta estava fechada! Aqueles queridos pequenos fazem-me esquecer tudo. — Queira entrar, Sr. Bumble, queira entrar.

Posto que este convite fosse feito com uma cortesia que abrandaria o coração mais duro, não comoveu o Sr. Bumble.

— Acha decoroso, Sra. Mann — perguntou ele agitando a bengala —, acha bonito fazer esperar os funcionários da paróquia à porta de seu jardim, quando eles vêm desempenhar as suas funções paroquiais e visitar as crianças da paróquia? Esquece acaso que a senhora é delegada da paróquia e estipendida por ela?

— Oh! Não, Sr. Bumble — respondeu a Sra. Mann humildemente. —Mas eu ia dizer a um ou dois destes queridinhos meninos que gostam tanto do senhor a honra que iam ter com a sua visita, Sr. Bumble.

Sr. Bumble tinha uma alta idéia do seu talento oratório e de sua importância; tinha-os ostentado e defendido; acalmou-se.

— Está bom, está bom — respondeu ele. — É possível; entremos, Sra. Mann; venho tratar de negócios.

A Sra. Mann introduziu o bedel em uma pequena sala, cujo chão era de tijolos, apresentou-lhe uma cadeira e apressou-se em tirar-lhe das mãos a bengala e o chapéu de três bicos, colocando-os sobre a mesa. O Sr. Bumble enxugou a testa coberta de suor,lançou um olhar complacente ao chapéu de três bicos e sorriu. É verdade, sorriu.

— Não se zangue com o que lhe vou dizer — observou a Sra. Mann com sedutora meiguice. — O senhor vem cansado; se não fosse isso não lhe falaria em semelhante coisa; quer tomar uma gota de alguma coisa?

— Nada, absolutamente nada — disse o Sr. Bumble recusando com dignidade, mas com brandura.

— Não me há de recusar — disse a Sra. Mann, que observara o tom do bedel —, não me há de recusar uma pingazinha, com água e açúcar.

O Sr. Bumble tossiu.

— Um quase nada — disse a Sra. Mann.

— Que me quer a senhora oferecer? — perguntou o Sr. Bumble.

— Naturalmente hei de ter em casa alguma coisa, para pôr no caldo dos meninos quando eles estão doentes — respondeu a Sra. Mann abrindo um bufê, donde tirou uma garrafa e um copo. — É genebra.

— A senhora dá caldo aos meninos? — perguntou o Sr. Bumble acompanhando com o olhar a operação da mistura.

— Decerto que lhes dou caldo — disse ela —, posto que custa caro; mas eu não posso ver sofrer; custa-me muito vê-los doentes.

— Muito bem — disse o Sr. Bumble —, muito bem; a senhora é uma boa alma. (Ela pôs o copo na mesa.) Aproveitarei a primeira ocasião para dizer isso ao conselho paroquial. (Aqui o Sr. Bumble puxou o copo para si.) Essas crianças têm na senhora uma verdadeira mãe. (Agitou a aguardente e a água.) Bebo à sua saúde, Sra. Mann. (Bebeu metade.) Agora falemos de negócios — continuou o bedel tirando da algibeira uma carteira de couro. — A criança que foi mandada com o nome de Oliver Twist faz hoje nove anos...

— Queridinho! — disse a Sra. Mann esfregando o olho esquerdo com a ponta do avental.

— E apesar da oferta de uma recompensa de dez libras esterlinas, sucessivamente elevada até doze libras; apesar dos esforços incríveis e se ouso assim falar, sobrenaturais, da parte da paróquia — disse o Sr. Bumble —, até hoje foi impossível descobrir quem é o pai, nem o nome e a condição da mãe.

A Sra. Mann levantou as mãos em sinal de espanto; depois disse:

— Mas como é que ele tem um nome de família? O bedel empertigou-se com certo orgulho.

— Fui eu que lho inventei — disse ele.

— O senhor?

— Eu mesmo; nós damos os nomes aos enjeitados por ordem alfabética: o último era da letra S; chamei-lhe Swubble; este era da letra T; chamei-lhe Twist; o seguinte será Unwin, o outro Volkent; tenho nomes prontos de uma ponta a outra do alfabeto; e em chegando ao Z, volto ao A.

— O senhor é um grande letrado, Sr. Bumble — disse a Sra. Mann.

— É possível, é possível — disse o bedel, evidentemente satisfeito com o cumprimento. Bebeu o resto da genebra e continuou:

— Como Oliver já não está em idade de cá ficar, o conselho paroquial resolveu mandá-lo buscar para o asilo, e eu vim cumprir essa missão. Mande-o vir.

— Vou mandá-lo buscar — disse a Sra. Mann saindo da sala.

Oliver, que durante esse tempo foi lavado o melhor que pôde ser, apareceu daí a pouco conduzido pela sua benévola protetora.

— Oliver, cumprimenta este senhor — disse a Sra. Mann.

Oliver cumprimentou a um tempo o bedel, que estava assentado, e o chapéu de três bicos que estava na mesa.

— Quer vir comigo, Oliver? — perguntou o Sr. Bumble com majestade.

Oliver estava a ponto de dizer que não desejava outra coisa, quando deu com os olhos na Sra. Mann, que ficara por trás da cadeira do bedel e lhe mostrara a mão em atitude de soco; compreendeu logo o que aquilo queria dizer, porque o pulso da boa velha tantas vezes lhe fora aplicado às costas que era impossível deixar de o ter em lembrança.

— A Sra. Mann vai comigo? — perguntou o pobre Oliver.

— Não, é impossível — respondeu o Sr. Bumble —, mas há de ir vê-lo de vez em quando.

Não era isto consolador para a criança; mas, apesar da sua tenra idade, tinha ele já bastante sagacidade, para fingir um grande pesar de se ir embora; não lhe era difícil derramar lágrimas; fome e pancada fresca são muito úteis quando a gente precisa chorar; Oliver chorou naturalmente.

A Sra. Mann deu-lhe mil beijos e, o que valia mais, uma fatia de pão com manteiga, a fim de que ele não tivesse ar de esfaimado quando chegasse ao asilo. Com um pedaço de pão na mão e um boné de pano escuro, foi Oliver levado pelo Sr. Bumble para fora daquela humilde casa, onde um olhar ou uma palavra de afeição jamais lhe suavizou os seus tristes anos de infância. E contudo rebentaram-lhe os soluços quando a porta se fechou; por mais miseráveis que fossem os seus companheiros de infortúnio, eram esses os únicos amigos que ele conhecera, e pela primeira vez sentiu ele em seu coração de criança a solidão em que se achava neste vasto universo.

O Sr. Bumble caminhava apressadamente, e o pequeno Oliver, apertando nas mãos a roupa do bedel, caminhava ao lado dele e perguntava a cada instante se estavam perto da casa. O Sr. Bumble respondia por modo breve e duro: já não sentia a influência benéfica que exerce a genebra em certos corações.

Chegaram.

Mas não havia um quarto de hora que Oliver transpusera a soleira do asilo da mendicidade e fizera desaparecer o segundo pedaço de pão quando o Sr. Bumble, que o confiara aos cuidados de uma velha, veio dizer-lhe que era dia de conselho e que o conselho o mandara chamar.

Oliver teve medo de ver tantos homens e não deu resposta. Ficou muito espantado com a notícia, não sabendo se devia rir ou chorar; mas não teve tempo de longas reflexões, porque o Sr. Bumble teve a idéia de lhe aplicar uma bengalada na cabeça para que ficasse atento, outra nas costas para que ficasse esperto, ordenou-lhe que o acompanhasse e o levou para uma grande sala caiada, onde oito ou dez sujeitos gordos estavam à roda de uma mesa, a cuja cabeceira ficava um sujeito de bela corpulência, carão redondo e vermelho, assentado em cadeira mais alta que as outras.

— Cumprimente o conselho — disse o Sr. Bumble.

Oliver enxugou duas outras lágrimas que lhe rolavam nos olhos e cumprimentou a mesa do conselho.

— Como se chama você? — perguntou o presidente.

Oliver teve medo de ver tantos homens e não deu resposta. O bedel aplicou-lhe nova bengalada que o fez chorar; Oliver respondeu baixinho e com voz trêmula; vendo isso, um sujeito de colete branco disse que ele era idiota, meio excelente de tranqüilizar e animar o pequeno.

— Ouça — disse o presidente —, você sabe que é órfão?

— Que é ser órfão? — perguntou o pobre Oliver.

— Este pequeno é idiota — disse peremptoriamente o sujeito do colete branco.

— Silêncio! — disse o presidente. — Você sabe que não tem pai nem mãe e que é educado à custa da paróquia?

— Sei, sim, senhor — respondeu Oliver chorando amargamente.

— Por que chora você? — perguntou o sujeito do colete branco.

Era realmente extraordinário; por que razão choraria Oliver?

— Creio que você não deixa de rezar todas as noites — disse outro sujeito —, e rezar como bom cristão, por aqueles que lhe dão de comer e de vestir...

— Sim, senhor — balbuciou a criança.

Tinha razão o sujeito que acabava de falar. Efetivamente era preciso que Oliver fosse bom cristão, e até um cristão modelo, para rezar por aqueles que lhe davam de comer e de vestir; mas a verdade é que não rezava, porque lho não haviam ensinado.

— Está bem — disse o presidente de cara rubicunda. — Você está aqui para ser educado e aprender um ofício útil.

— Amanhã às seis horas da manhã começará a desfiar estopa — disse o sujeito do colete branco.

Mandar que Oliver desfiasse estopa era combinar de um modo simples os dois benefícios que lhe prometiam; ele os reconheceu ambos com uma profunda cortesia por instigação do bedel, depois foi levado para uma grande sala do asilo onde, em cama dura, adormeceu soluçando; prova evidente da brandura das leis do nosso venturoso país que não impedem o sono aos pobres.

Pobre Oliver! Adormeceu na feliz ignorância do que se passava em roda dele, nem pensava que nesse mesmo dia o conselho adotara uma resolução que devia exercer em seus destinos uma influência irresistível. Mas a decisão estava assentada.

Vejamos qual ela era.

Os membros do conselho da administração eram homens profundamente filósofos. Examinaram o asilo da mendicidade e descobriram repentinamente aquilo que os espíritos vulgares nunca chegaram a descobrir; isto é, que os pobres nadavam em prazer naquele estabelecimento. As classes pobres, no pensar daqueles senhores, tinham ali uma casa de recreio, uma taverna em que não se pagava nada, almoço, jantar, chá e ceia — em suma um verdadeiro paraíso de tijolos onde se gozava de tudo sem trabalhar.

— Olé — disse o conselho consigo —, vamos pôr estas coisas em seus lugares; vamos acabar com isto.

Imediatamente estabeleceram como princípio que os pobres pudessem escolher (não se forçava ninguém) uma destas coisas: ou morrer de fome lentamente se ficassem no asilo, ou morrer de repente se saíssem para a rua. Para este fim contratou o conselho com a administração das águas uma quantidade ilimitada delas e com um mercador de trigo a remessa de um pouco de farinha de aveia em períodos determinados; concederam três pequenas rações de mingau por dia, uma cebola duas vezes por semana e a metade de um pão nos domingos.

A respeito das mulheres aprovaram outras resoluções sábias e humanas, que é inútil mencionar; por simples bondade d'alma, resolveram separar por uma espécie de divórcio os pobres casados, o que lhes poupava a despesa enorme de um processo na câmara eclesiástica; e em vez de obrigar o marido a sustentar a família com o seu trabalho, tiravam-lhe a família e o punham outra vez celibatário. Não se pode dizer bem quantas pessoas em todas as classes da sociedade desejariam aproveitar este benefício; mas os administradores eram homens previdentes e obviaram essa dificuldade; para gozar das vantagens do divórcio era preciso morar no asilo e viver de mingau; isto intimidava os outros.

Seis meses depois da chegada de Oliver Twist, o novo sistema estava em pleno vigor. A princípio foi um pouco dispendioso o tal sistema; era preciso pagar mais a empresa funerária e apertar a roupa dos pobres que emagreciam descomunalmente depois de uma semana ou duas de mingau; mas o número dos habitantes do asilo de mendicidade diminuiu muito e os administradores estavam no sétimo céu.

O lugar onde as crianças comiam era uma grande sala, com chão de tijolo, tendo ao fundo uma grande caldeira onde o cozinheiro do asilo, de avental à cintura e ajudado por duas mulheres, tirava o mingau nas horas de refeição.

Cada criança recebia uma tigelinha cheia e nada mais, exceto nos dias de festa, em que se lhes dava mais duas onças e um quarto de pão. As tigelas nunca precisavam ser lavadas; os pequenos, com as suas colheres, deixavam-nas completamente limpas e lustrosas; e quando acabavam esta operação, que não durava muito, porque as colheres eram quase do tamanho das tigelas, ficavam contemplando a caldeira com olhos tão ávidos que pareciam devorá-la e lambiam os dedos para não perderem algum resto do mingau que lhes ficasse.

Geralmente a criança tem excelente apetite. Oliver Twist e seus companheiros sofriam durante meses as torturas de uma lenta consumpção, e a fome acabava por lhe transviar

o espírito a ponto que um menino, alto demais para a idade que tinha e pouco acostumado a semelhante existência (seu pai tivera uma casa de pasto), insinuou um dia aos seus companheiros que, se não tivesse maior porção de mingau por dia, receava devorar de noite o pequeno que dormia com ele, o qual era mais criança e débil; falando assim, tinha ele o olhar desvairado e faminto e os outros acreditavam que ele faria realizar a ameaça.

Deliberaram entre si que um deles fosse nessa mesma noite pedir ao cozinheiro segunda porção de mingau.

A sorte designou Oliver.

De noite, as crianças ocuparam os seus lugares; o cozinheiro do asilo estava ao pé da caldeira; foi servido o mingau; proferiu-se o benedicite.

O mingau desapareceu; as crianças cochichavam, faziam sinais a Oliver, que era acotovelado pelos que lhe ficavam mais perto. A fome exasperava o pobre Oliver, e o excesso de miséria tinha-lhe tirado os cuidados; deixou o lugar e, caminhando com a tigela e a colher na mão, disse com voz trêmula e assustada:

— Eu queria mais um bocado de mingau.

O cozinheiro, homem gordo e bojudo, ficou pálido como um defunto; pôs as mãos na caldeira para não cair; as velhas que o acompanhavam ficaram geladas de espanto e as crianças, de terror.

— Que diz? — perguntou o cozinheiro com voz alterada.

— Eu queria mais um bocadinho — respondeu Oliver.

O cozinheiro deu com a colher de pau na cabeça de Oliver, apertou-o nos braços e chamou o bedel em altos gritos.

O conselho estava em sessão solene quando o Sr. Bumble, fora de si, entrou na sala e, dirigindo-se ao presidente, disse:

— Sr. Limbkins, peço-lhe perdão; Oliver Twist pediu mais.

O pasmo foi geral; pintara-se o horror em todos os semblantes.

— Pediu mais? — disse o Sr. Limbkins. — Acalme-se Sr. Bumble e responda calmamente:

— Que será, o senhor disse que ele pediu mais comida depois de ter recebido a ceia marcada pelo regulamento?

— Sim, senhor — respondeu Bumble.

— Esse pequeno acaba infalivelmente na forca — disse o sujeito do colete branco.

Ninguém se opôs a esta profecia. Rompeu logo vivíssima discussão; Oliver foi preso, e no dia seguinte pregou-se uma carta na porta do asilo oferecendo cinco libras esterlinas a quem quisesse livrar a paróquia de Oliver Twist; por outros termos, dava-se cinco libras esterlinas a Oliver Twist, a quem quer que precisasse de um aprendiz para qualquer ofício ou negócio.

— Nunca tive mais profunda certeza — dizia o sujeito do colete branco lendo no dia seguinte o cartaz — do que nesta ocasião: aquele rapaz há de acabar na forca!

Como eu me proponho a mostrar, pela obra adiante, se o sujeito do colete branco tinha ou não razão, prejudicaria agora esta narração se fizesse pressentir desde já o desenlace dela.

Caminhemos devagar.

CAPÍTULO III

DE COMO OLIVER TWIST ESCAPOU DE UM EMPREGO QUE NÃO ERA SINECURA.

Depois de haver cometido o crime imperdoável de pedir mais uma dose de mingau, Oliver esteve durante oito dias estreitamente encerrado no cárcere, a que o mandara a misericórdia do Conselho de administração.

À primeira vista, podia supor-se que, se houvesse recebido com respeito a profecia do sujeito do colete branco, Oliver tinha nas mãos o meio de plantar a reputação profética daquele sábio administrador, atando uma ponta do seu lenço num prego e pendurando-se na outra ponta. Só havia um obstáculo para a execução deste ato: é que, por ordem expressa do conselho, assinalada, rubricada e selada por todos os membros, foram proibidos os lenços no asilo por serem objetos de luxo. O segundo obstáculo era a tenra idade de Oliver.

Oliver chorou amargamente durante dias inteiros; e, quando vinham as longas e tristes horas da noite, punha as mãozinhas diante dos olhos para não ver a escuridão. Acocorava-se em um canto para dormir. Às vezes acordava assustado e trêmulo, nessas ocasiões encostava-se à parede, como se em tocar essa superfície dura e fria achasse prevenção contra as trevas e solidão que o rodeavam.

Não imaginem os inimigos do sistema da lei dos pobres que, durante a sua prisão, Oliver fosse privado do exercício, da sociedade e das consolações religiosas.

Quanto ao exercício, como o tempo era frio, tinha ele licença para se lavar todas as manhãs num tanque, em presença do Sr. Bumble. Podia resultar-lhe daqui algum defluxo; mas o Sr. Bumble removia esse inconveniente ativando a circulação do sangue do pequeno mediante algumas bengaladas. Quanto à sociedade, levavam-no de dois em dois dias ao refeitório das crianças e aí pregavam-lhe um sermão, para exemplo e edificação dos outros.

Longe de lhe recusarem as consolações religiosas, era ele conduzido a pontapés, todas as noites, à sala de reza, onde, para maior gosto de sua alma, os outros pequenos repetiam uma oração correta e aumentada pelo conselho. Nessa oração, os meninos pediam ao céu que os fizesse bons, virtuosos, contentes e obedientes e que os preservasse dos crimes, vícios de Oliver Twist, protegido e guiado por Satanás, amostra direta dos produtos do cão tinhoso.

Ora, aconteceu que um dia de manhã o Sr. Gamfield, limpador de chaminés, ia descendo a rua e pensando na maneira de pagar uma porção de aluguéis atrasados. Quanto mais pensava e calculava, tanto menos chegava à soma de cinco libras esterlinas de que precisava. No seu desespero de não poder perfazer aquela soma, batia na besta e no burro, quando deu com os olhos no cartaz que estava pregado na porta do asilo.

— Ah! Ah! — disse o Sr. Gamfield ao burro.

O burro estava nesse momento inteiramente distraído; provavelmente cogitava no almoço e perguntava a si mesmo se não teria um ou dois talos de couve para comer quando o aliviassem dos dois sacos de fuligem que levava no carrinho. Não deu atenção à ordem do amo e continuou a andar.

O Sr. Gamfield dirigiu ao burro uma horrível praga, correu atrás dele, desfechou-lhe à cabeça uma tremenda pancada que despedaçaria qualquer outro crânio que não fosse o de um burro. Segurou-lhe na rédea e sacudiu-lhe a queixada para lhe recordar seus deveres de obediência; deu volta com ele, repetiu a pancada e trepou a uma pedra para ler o cartaz.

O sujeito do colete branco estava de pé à porta, com as mãos nas costas, depois de ter opinado profundamente na sala do conselho; tinha assistido à discussão entre o Sr. Gamfield e o burro; sorriu com satisfação vendo o Sr. Gamfield aproximar-se do cartaz, porque viu que era ele o amo que convinha a Oliver.

O Sr. Gamfield sorriu também, lendo o cartaz, porque eram justamente as cinco libras de que ele precisava; e quanto à criança, como conhecia o regime do asilo, suspeitou que devia ser assaz magra para subir a uma chaminé. Releu o cartaz e, descobrindo respeitosamente a cabeça, aproximou-se do sujeito do colete branco.

— Há aqui um menino que a paróquia deseja fazer aprendiz de alguma coisa? — disse ele.

— Sim — respondeu o sujeito do colete branco com um benévolo sorriso. — Que me quer?

— Se a paróquia quiser que ele aprenda um ofício agradável como o de limpador de chaminés, por exemplo — disse o Sr. Gamfield —, preciso de um aprendiz e estou disposto a encarregar-me dele.

— Entre — disse o sujeito do colete branco.

Quando o Sr. Gamfield expôs ao conselho o que queria, disse o Sr. Limbkins, presidente:

— O ofício de limpador de chaminé é bem porco.

— Tem-se visto morrerem as crianças nas chaminés — disse outro sujeito.

O Sr. Gamfield dissipou esta dúvida, alegrando muito ao sujeito do colete branco, que aliás ficou sério depois de um olhar do presidente. O conselho entrou a deliberar durante alguns minutos, mas em voz tão baixa que só se ouviam estas palavras: “Diminuição de despesa; sejamos econômicos; pode-se fazer um bom relatório”. Estas mesmas palavras

só se ouviam porque eram energicamente repetidas. Falou enfim o presidente:

— Examinamos o seu pedido e não podemos dar-lhe o que deseja.

— Repelimo-lo completamente — disse o sujeito do colete branco.

— Sem hesitação — acrescentaram outros membros do conselho.

O Sr. Gamfield tinha sobre si a acusação frívola de ter morto três ou quatro crianças a cacete; lembrou-se de que o conselho, por um capricho singular, teria em vista esta circunstância de segunda ordem. Não quis aludir a ela e tratou de retirar-se.

— Não querem dar-me o pequeno? — disse ele na soleira da porta.

— Não — disse o presidente —, salvo se diminuirmos a recompensa.

Depois de alguma discussão ficou assentado que só se dariam três libras e dez shillings. Mandaram buscar Oliver que estava na prisão. Vestiram-lhe uma camisola lavada e deram-lhe uma tigela de mingau acompanhada de duas onças de pão, como nos dias de festa.

O Sr. Bumble avisou o pequeno de que o conselho ia dá-lo a uma pessoa que lhe ensinaria um ofício e conduziu-o à sala onde trabalhava o magistrado que devia lavrar o contrato. Era uma grande sala com uma grande janela. Estavam a uma secretária dois sujeitos velhos, um lendo um jornal, outro examinando um pergaminho com o auxílio de óculos de tartaruga. Em frente da secretária estava o Sr. Limbkins acompanhado do Sr. Gamfield. Havia mais umas três ou quatro pessoas.

O sujeito dos óculos adormeceu a pouco e pouco, e houve um curto silêncio, depois da entrada de Oliver.

— Aqui está o menino — disse o Sr. Bumble.

— Gostará ele do ofício de limpar chaminés?

— Morre por isso — responde Bumble beliscando o menino.

— Quer ser limpador de chaminés?

— Não pede outra coisa — tornou Bumble.

O magistrado dos óculos que havia feito estas perguntas, tendo acordado ao aviso do Sr. Bumble, disse:

— Bem, façamos os contratos. Pôs os óculos no nariz e procurou o tinteiro. Era o momento critico do destino de Oliver. Se o tinteiro estivesse no lugar onde o juiz o

procurava, o contrato ficaria lavrado e Oliver seria entregue ao limpa-chaminés. Mas quis

o acaso que o tinteiro estivesse justamente debaixo do nariz do sujeito, de maneira que ele correu os olhos por toda a parte sem o achar. Durante essa pesquisa, deu ele com os olhos na cara de Oliver Twist, cuja expressão de medo e horror era tão visível que não podia escapa ao juiz, apesar de míope como era.

Daqui resultou que o juiz perguntou brandamente a Oliver se queria ser limpa-chaminés e este ajoelhou-se dizendo que preferia morrer de fome. O contrato não foi lavrado. O Sr. Bumble quis intervir.

— Cale-se — disse o juiz.

O Sr. Bumble ficou assombrado.

— Recusamos — disse o juiz — a nossa sanção a este contrato.

— Espero — disse o Sr. Limbkins — que o testemunho sem valor de uma criança não porá em dúvida o procedimento das autoridades.

— Não temos nada com essa parte — disse em tom seco o magistrado.

— Levem esse pequeno para o asilo e tratem-no bem.

Na mesma noite, o sujeito do colete branco afirmou formalmente que Oliver não só seria enforcado, mas até esquartejado. O Sr. Bumble abanou a cabeça com ar sombrio e misterioso e disse que desejava que tal não acontecesse; a isto respondeu o Sr. Gamfield que estimaria bem ter ficado com o pequeno.

No dia seguinte, o público foi informado de que Oliver continuava em almoeda e que a pessoa que se encarregasse dele receberia cinco libras esterlinas.

CAPÍTULO IV

OLIVER ACHA UM EMPREGO E FAZ A SUA ENTRADA NO MUNDO.

Nas grandes famílias, quando um rapaz se adianta em anos e não se pode arranjar para ele um bom lugar por compra, sucessão ou reversibilidade, costuma-se metê-lo a bordo. O conselho da administração, para seguir tão prudente exemplo salutar deliberou acerca da oportunidade de embarcar Oliver Twist a bordo de algum navio mercante com destino a algum porto insalubre.

Pareceu-lhe que isto era o melhor. Era provável que o mesmo capitão do navio desse cabo do canastro ao terrível Oliver.

Quanto mais pensavam nisto, melhor lhes parecia a coisa. A conclusão foi que o único meio de assegurar o futuro de Oliver era embarcá-lo.

O Sr. Bumble foi mandado em comissão a ver se achava algum capitão que precisasse de um grumete por quem pessoa alguma se interessava. Voltava ao asilo para dar conta da sua missão, quando encontrou à porta o empresário de enterros da paróquia, o Sr. Sowerberry em pessoa.

O Sr. Sowerberry, alto e magro, trajando casaca preta, meias da mesma cor remendadas e sapatos primos-irmãos das meias. A natureza não lhe dera à fisionomia uma expressão risonha; mas como ele achava em seu ofício ampla matéria para rir, tinha o andar por assim dizer elástico e a cara alegre. O empresário de enterros apertou cordialmente a mão do Sr. Bumble.

— Venho — disse ele — tomar a medida de duas mulheres que morreram a noite passada.

— O senhor há de enriquecer — disse o bedel introduzindo o polegar e o índice na boceta que apresentava o empresário dos enterros, boceta que tinha a forma de um pequeno caixão fúnebre privilegiado sem garantia do Governo. — Digo-lhe que há de enriquecer — repetiu o Sr. Bumble batendo-lhe amigavelmente no ombro com a bengala.

— E os seus caixões também — respondeu o bedel com um ar que se aproximava da pilhéria, tanto quanto convinha a um funcionário importante.

O Sr. Sowerberry ficou admirado, como convinha, da finura deste dito e soltou uma gargalhada.

— É verdade, Sr. Bumble — disse ele. — Cumpre confessar que desde a adoção de novo sistema de alimentação do asilo os caixões são um pouco mais estreitos e menos profundos que antigamente; mas é preciso que a gente ganhe alguma coisa, a madeira custa caro e o ferro vem de Birmingham pelo canal.

— Cada ofício tem suas vantagens e desvantagens — disse o Sr. Bumble —, e um bom lucro vale alguma coisa.

— Dir-lhe-ei contudo — continuou o Sr. Sowerberry — que eu tenho contra mim uma grande desvantagem; é que as pessoas robustas morrem primeiro. Quero dizer que as pessoas que vivem bem durante muito tempo são as primeiras que espicham a canela quando entram no asilo; e olhe que três ou quatro polegadas mais do que o cálculo primitivo de um caixão fazem um grande furo nos lucros, principalmente a quem sustenta uma família como eu.

— Parece-lhe? — disse o Sr. Sowerberry com um tom de quem não dizia sim nem não. — Os preços da administração são muito pequenos.

O Sr. Sowerberry dizia isto com o tom indignado de um homem que tem direito de se queixar; o Sr. Bumble compreendeu que isto podia produzir algumas reflexões desfavoráveis aos interesses da paróquia e mudou de conversa.

Oliver Twist foi o novo assunto.

— Conhecerá o senhor por acaso — disse o Sr. Bumble — algum que precise de um aprendiz? É um menino do asilo que lá temos como uma carga às costas da paróquia. Paga-se bem, Sr. Sowerberry, paga-se bem!

E falando assim, o Sr. Bumble levantava a bengala e apontava para o cartaz, batendo três pancadinhas nas palavras cinco libras esterlinas que estavam impressas em letras grandes.

— Homem! — disse o empresário de enterros segurando na aba da casaca do Sr. Bumble. — É justamente o que eu precisava... Que lindo botão é esse seu; não tinha reparado nele.

— Sim, não é feio — disse o bedel, olhando com orgulho para os grandes botões de cobre que ornavam a sua casaca. — A gravura é igual ao selo paroquial: o bom samaritano tratando do viajante ferido. Foi um presente de festas que me fez o conselho. A primeira vez que usei da casaca foi para assistir à devassa relativa àquele mercador sem recursos que morreu de noite debaixo da porta.

— Lembra-me — disse o empresário. — O júri declarou que o homem morreu de fome e frio, não?

O Sr. Bumble fez com a cabeça um sinal afirmativo.

— E a sentença acrescentava, creio eu, por modo especial, que se o oficial dos socorros...

— Tolices! Tolices! — disse o bedel. — Se o conselho desse atenção a quantas coisas dizem os três jurados ignorantes, teria muito que fazer.

— É verdade — disse o empresário. — Mas deixemos lá os jurados.

O Sr. Bumble tinha-se encolerizado. Tirou o chapéu, e do chapéu um lenço, com o qual enxugou o suor que lhe escorria da testa, pôs outra vez o chapéu; e, voltando-se para o empresário, disse em tom calmo:

— E o pequeno? Quer o pequeno?

— O senhor sabe — respondeu o fabricante de caixões de defunto que eu pago um avultado imposto para os pobres.

— E então? — disse o Sr. Bumble.

— Então, é que se eu pago muito para os pobres, tenho o direito de os explorar também como posso; assim... Creio que esse pequeno pode ficar comigo.

O Sr. Bumble segurou no braço do fabricante de caixões de defunto e fê-lo entrar no asilo. O Sr. Sowerberry conferenciou com os administradores durante cinco minutos e ficou assentado que Oliver iria nesse mesmo dia para casa dele e que, se no cabo de certo tempo, Oliver produzisse mais com o seu trabalho do que gastava com a comida, ficaria com o fabricante durante certo número de anos, com o direito de o empregar à sua vontade.

O pequeno Oliver foi levado nessa mesma noite aos administradores e informado de que ia entrar imediatamente, como aprendiz, na casa de um fabricante de caixões de defunto, e que, se se queixasse de sua posição, se volvesse ao asilo, seria embarcado para ser morto no mar ou a cacete. Oliver não manifestou nenhuma comoção. Os administradores declararam que ele era um peralta sem alma e deram ordem ao Sr. Bumble para levá-lo imediatamente.

Oliver não deixava de ter sensibilidade, mas os maus-tratos é que o tinham embrutecido tanto. Ouviu a notícia sem dizer palavra, pôs a bagagem debaixo do braço, e não era pesada, porque não passou de um pequeno embrulho, enterrou o boné nos olhos e, agarrando-se outra vez à aba da casaca do Sr. Bumble, foi levado por esse funcionário à casa do fabricante de caixões de defunto.

Durante algum tempo o Sr. Bumble arrastou Oliver após si sem lhe prestar atenção. Ventava; o pequeno Oliver ia completamente escondido pela casaca do bedel, que se abria, deixando ver o colete de rebuço. No momento de chegar, o Sr. Bumble julgou conveniente ver se o pequeno estava capaz de aparecer e o fez com aquele ar próprio de um protetor benévolo.

— Oliver — disse ele.

— Senhor? — respondeu a criança com voz fraca e trêmula.

— Não enterra assim o boné; levanta a cabeça.

Oliver obedeceu, passando a mão pelos olhos; mas uma lágrima lhe tremia nos olhos quando ele os levantou para o Sr. Bumble e correu pela face abaixo; atrás dessa veio outra, e outra e outra e outra. A criança não as pôde reter, os seus esforços foram vãos; largou a aba do bedel, pôs as mãos na cara e uma torrente de lágrimas correu por entre os seus dedos emagrecidos.

— Bom! — disse o Sr. Bumble, parando e lançando um olhar feroz ao seu protegido. — De todas as crianças mais ingratas, mais viciosas que tenho visto, você é...

— Não, não senhor — disse Oliver soluçando e agarrando-se à mão que empunhava a famosa bengala. — Não, não senhor; eu quero ser bom; sim eu hei de ter juízo... eu sou criança.., eu sou... tão... tão...

— Tão o quê? — perguntou o Sr. Bumble admirado.

— Tão infeliz! — disse a criança. — Todos me detestam. Oh! senhor, eu lhe peço, não se

zangue comigo! A criança batia no peito, soluçava e olhava para o bedel com angústia e terror.

Durante alguns instantes, o Sr. Bumble contemplou pasmado a cara assustada e triste de Oliver; tossiu três ou quatro vezes, como um homem endefluxado, e disse a Oliver que enxugasse os olhos e tivesse juízo. Depois segurou-lhe na mão e penetrou na casa do fabricante de caixões de defunto.

Estava este a preparar-se para lançar algumas entradas no livro das contas, à luz de uma ruim vela, quando o Sr. Bumble entrou.

— Ah! — disse ele, erguendo os olhos e parando de escrever. — É o senhor?

— Em pessoa — respondeu o bedel. — Cá lhe trago o pequeno.

Oliver cumprimentou o Sr. Sowerberry.

— Ah! — O pequeno de que falamos — disse o empresário de enterros levantando a velapara ver Oliver. — Ó minha dona, venha cá fora.

A Sra. Sowerberry saiu de uma salinha que ficava por trás da loja; era uma mulher pequena, magra, arrebatada, uma verdadeira Megera.

— Minha dona — disse o Sr. Sowerberry com deferência —, aqui está a criança de quem lhe falei.

Oliver fez outro cumprimento.

— Meu Deus! — disse ela. — Como está magrinho!

— Sim, não é forte — disse o Sr. Bumble olhando severamente para Oliver como se a culpa fosse dele —, mas há de desenvolver-se.

— Sim — disse ela —, há de desenvolver-se com a nova comida. Que ganhamos nós com esses filhos da paróquia? Custam mais do que valem. Vamos, desce, esqueleto.

Dizendo isto, abriu uma porta e empurrou Oliver para uma escada íngreme que conduzia a uma espécie de adega, sombria e úmida, ao pé da fogueira, que se chamava cozinha, onde estava uma rapariga suja, com sapatos rotos e grossas meias azuis e rasgadas.

— Carlota — disse a Sra. Sowerberry, que acompanhara Oliver —, dê a esse pequeno os restos que se puseram de lado para dar ao cão; ele não voltou hoje à casa, passará sem comer. E espero que não torças o nariz, meu pecurrucho.

Oliver, cujos olhos faiscavam com a idéia de comer carne e morria de vontade de a devorar respondeu que não, e os restos do jantar foram postos diante dele.

Eu quisera que algum filósofo de estômago cheio, em quem a boa comida não gera bílis, algum desses filantropos sem sangue nem alma, visse Oliver Twist atirar-se àqueles restos que nem o cão quis comer e contemplasse a avidez com que ele partia e engolia os pedaços. Só há uma coisa que eu preferia a isso; era ver o filósofo comer a mesma com igual prazer.

— Então — disse a mulher, quando Oliver acabou a ceia, que ela assistiu com um horror silencioso, tremendo pelo futuro apetite do pequeno —, acabaste?

— Anda comigo — disse ela.

Como não havia mais nada, Oliver respondeu que sim.

Travou de uma candeia suja e fumegante e o levou ao alto da escada.

Tua cama é debaixo do balcão. Não tens medo de dormir entre caixões de defunto? E que importa que tenhas medo? Não dormirás em outra parte. Ainda. Não me faças estar à tua espera.

Oliver, sem perder tempo, acompanhou docilmente a sua nova ama.

CAPÍTULO V

OLIVER TRAVA NOVOS CONHECIMENTOS; ASSISTE A UM ENTERRO E FICA COM UMA MÁ IDÉIA DO OFÍCIO.

Apenas ficou só na loja, Oliver pôs a candeia num banco e deitou um olhar tímido à roda de si, com um sentimento de terror que muita gente de maior idade podia facilmente compreender.

Havia no meio da loja um caixão por acabar, e tinha uma aparência tão lúgubre que Oliver estremecia sempre que olhava para ele. Esperava ver surgir dali a cabeça de um espectro horrível cujo aspecto o faria morrer de medo.

Ao longo da parede estava uma longa enfiada de tábuas de pinho cortadas uniformemente, que pareciam outros tantos espectros de largas espáduas, com as mãos nas algibeiras: placas de metal, argolas, pregos, pedaços de pano preto juncavam o assoalho.

Por trás do balcão, na parede, à guisa de adorno, havia dois urubus engravatados e um carro conduzindo um féretro. A loja estava fechada e quente; a atmosfera parecia toda impregnada de um cheiro a defunto; o vão do balcão onde foi posta a cama de Oliver tinha ares de cova.

Oliver acordou de manhã, ouvindo um grande pontapé na porta da loja, pontapé que foi repetido vinte e cinco vezes, com cólera, enquanto ele se vestia às pressas. Quando ele começou a puxar os ferrolhos, cessaram os pontapés e ouviu-se uma voz dizer:

— Abre ou não?

— Sim, senhor, o quanto antes — disse Oliver dando volta à chave.

— Tu és o novo aprendiz? — disse a voz pelo buraco da fechadura.

— Sim, senhor.

— Quantos anos tem?

— Dez anos.

— Bem, vou sacudir-te a preguiça — disse a voz. — Vais ver, bastardo!

Depois desta graciosa promessa, a voz entrou a assobiar.

Oliver puxou tremulamente o ferrolho e abriu a porta.

Olhou para um lado e outro, pensando que o indivíduo que lhe falava dera alguns passos para se aquecer; a única pessoa que viu foi um rapazola assentado em uma grande pedra em frente da casa, ocupado em comer uma fatia de pão com manteiga, que ia cortando em pedaços do tamanho da boca e engolia com avidez.

— Perdão — disse Oliver, não vendo ninguém. — Seria o senhor que bateu aqui?

— Dei pontapés — respondeu o outro.

— Precisa de algum caixão? — perguntou ingenuamente Oliver.

O rapazinho pareceu furioso com isto e disse a Oliver que ele é que precisaria dentro de pouco tempo de um caixão, se tomasse a liberdade de tais gracejos com os seus superiores.

— Naturalmente não sabes quem eu sou? — disse ele descendo do frade de pedra com uma edificante gravidade.

— Não, senhor, — respondeu Oliver.

— Eu sou o Sr. Noé Claypole — disse o outro —, e tu és meu subordinado. Anda lá, tira as trancas das portas, peralta!

O Sr. Claypole acompanhou estas palavras com um pontapé e entrou na loja com um ar de dignidade, que lhe deu muita importância, posto que seja difícil a um rapaz, de cabeça grande, olhos miúdos e fisionomia estúpida, parecer majestoso em qualquer situação que seja; muito mais quando, além de tudo isto, tem um nariz de pimentão.

Oliver tirou as trancas da porta e, quando quis levar uma delas para o pátio que estava ao pé da casa, e onde elas ficavam, escorregou e quebrou um vidro; Noé foi graciosamente ajudá-lo, consolou-o dizendo que havia de pagar, e dignou-se apertar-lhe a mão. O Sr. Sowerberry desceu logo, e quase imediatamente apareceu a Sra. Sowerberry; Oliver pagou o vidro, segundo a predição de Noé, e foi com este para a cozinha a fim de almoçar.

— Ande cá para perto do fogo, Noé — disse Carlota. — Eu tirei do almoço do amo um pedaço de toucinho para você. Oliver, fecha a porta; tira aqueles pedaços de pão; aqui está o teu chá; vai comer lá a um canto e não te demores, porque é preciso ir tomar conta da loja.

— Ouves, enjeitado? — disse Noé Claypole.

— Que traquinas é você! — disse Carlota. — Deixe aquele pequeno sossegado.

—Deixá-lo sossegado! — disse Noé. — Creio que é o que todos fazem. Não tem pai nem mãe que o incomodem; todos os seus parentes deixam que ele faça o que quer... Que diz você, Carlota?

— Você tem coisas, Noé! — disse Carlota rindo às gargalhadas.

Noé fez o mesmo; depois deitaram um olhar desdenhoso para o pobre Oliver Twist, que tiritava assentado em uma caixa no fundo da cozinha e comia os restos de pão duro que se lhe reservara especialmente.

Noé era pobre, mas não do asilo da mendicidade; não era enjeitado, porque podia remontar a sua genealogia até o pai e a mãe, que moravam perto dali; a mãe era lavadeira; o pai era ex-soldado e bêbado, tinha uma perna de pau e uma pensão de dois pence e meio por dia. Os caixeiros da vizinhança tiveram por muito tempo o costume de chamar a Noé os nomes mais injuriosos, e ele os sofreu sem dizer uma palavra. Mas agora que a sorte lhe pusera no caminho um pobre órfão sem nome, a quem o ente mais vil podia apontar com desprezo, vingava-se com usura. Belo assunto de reflexão é este. Vemos assim com que lindo aspecto se mostra às vezes a natureza humana e com que semelhança as mesmas qualidades amáveis se desenvolvem no mais puro fidalgo e mais baixo pobretão.

Havia três semanas ou um mês que Oliver morava em casa do empresário de enterros; este com a mulher, estando às portas fechadas, ceavam na salinha do fundo, quando o Sr. Sowerberry, depois de ter contemplado a mulher com o ar mais respeitoso, começou a conversa.

— Minha cara amiga... — Ia continuar, mas a Sra. Sowerberry levantou os olhos com tão má catadura que ele estacou.

— Que tens? — disse ela zangada.

— Nada, minha dona, nada — disse o Sr. Sowerberry.

— És um asno — disse a Sra. Sowerberry.

— Não, não, minha dona — disse humildemente o marido —, eu pensava que você não queria prestar-me atenção; eu queria dizer...

— Oh! Guarde lá para si o que queria dizer — interrompeu a esposa. — Eu nada valho; não me consulte, ouviu? Não me quero meter nos seus negócios.

Dizendo isto, soltou uma risadinha afetada que fazia supor terríveis conseqüências.

— Mas minha dona — disse o Sr. Sowerberry —, eu preciso de sua opinião.

— Que lhe importa a minha opinião? — replicou a mulher com arrebatamento. — Peça conselhos a outros.

E repetiu a risadinha afetada que fazia tremer o Sr. Sowerberry.

Nisto, seguia ela a política comum das mulheres, e que mais triunfos lhes dá; obrigava o marido a solicitar como um favor a licença de lhe dizer o que ela estava curiosa por saber e, depois de uma discussão de três quartos de hora, deu a reclamada licença.

— Quero falar — disse o Sr. Sowerberry —, quero falar do pequeno Oliver; tem uma boa cara.

— Grande milagre! Come bastante para ter boa cara! — respondeu ela.

— As suas feições têm uma expressão de tristeza que lhe fica a matar — continuou o Sr. Sowerberry. — Creio que seria um excelente urubu.

A Sra. Sowerberry levantou a cabeça com ar de pasmo; o marido reparou nisso e, sem lhe dar tempo de observar nada, continuou:

— Não digo urubu para acompanhar os enterros das pessoas adultas, mas só para os enterros das crianças; seria uma novidade haver urubu com a mesma idade do defunto. Acredite que faria grande efeito.

A Sra. Sowerberry, que tinha apuradíssimo gosto para o que diz respeito a enterros, ficou impressionada com a novidade desta idéia; mas, como comprometeria a sua dignidade aprovando o marido, nas circunstâncias atuais, contentou-se com perguntar desdenhosamente por que razão não lhe tinha acudido a mais tempo aquela idéia. O Sr. Sowerberry concluiu com razão que a proposta era bem recebida; decidiu-se logo que Oliver seria iniciado nos mistérios da profissão e que, para isso, acompanharia o amo na primeira ocasião que se oferecesse.

Não tardou a ocasião.

No dia seguinte de manhã, depois do almoço, o Sr. Bumble entrou na loja e, apoiando a bengala no balcão, tirou da algibeira uma grande carteira de couro e deu um papelinho ao Sr. Sowerberry.

— Ah! — disse o fabricante de caixões, lendo o papel com olhos alegres. — É uma encomenda de caixão.

— Um caixão em primeiro lugar; depois um enterro paroquial — disse o Sr. Bumble fechando a carteira, que era bojuda como ele.

— Bayton? — disse o empresário de enterros acabando de ler e olhando para o Sr. Bumble. — É a primeira vez que ouço este nome.

— Uns teimosos — respondeu o Sr. Bumble abanando a cabeça. —Uns teimosos, e creio até que orgulhosos.

— Orgulhosos? — disse o Sr. Sowerberry com um riso zombeteiro. — Esta é demais.

— Causa lástima — disse o bedel. — Causa dó.

— Tem razão — respondeu o fabricante de caixões com ar aprobático.

— Só anteontem de noite ouvimos falar deles — disse o bedel. — E nada saberíamos se uma mulher que mora na mesma casa não se dirigisse à comissão paroquial para pedir que mandasse um médico paroquial assistir uma mulher que está muito mal. O médico tinha saído para jantar; mas o seu ajudante, que é um rapaz muito hábil, mandou uma porção de remédios em uma garrafa de graxa.

— Isto é o que se chama prontidão — disse o empresário.

— Justo — disse o bedel —, mas qual foi o resultado? Quer saber a que ponto foi a ingratidão daquele rebelde? Acreditará o senhor que o marido recambiou o remédio, dizendo que não convinha à moléstia da mulher? Compreende isto? Um remédio excelente, enérgico, salutar, que se tinha empregado com muito bom êxito há oito dias, a dois trabalhadores irlandeses e a um homem do ganho; um remédio que se lhe mandou de graça, com a garrafa de quebra; e ele manda dizer que a mulher não toma o remédio!

Como a atrocidade deste procedimento se apresentava em toda a sua força ao espírito do Sr. Bumble, foi-lhe impossível deixar de dar uma bengalada no balcão.

Estava vermelho de indignação.

— Oh! — disse o Sr. Sowerberry. — Nunca vi coisa assim...

— Não! Nunca! — disse o bedel. — Infâmia tal nunca vi eu; mas agora que está morta é preciso enterrá-la; quanto antes melhor.

O Sr. Bumble, no seu acesso, pôs o chapéu de três bicos atravessado e saiu.

— Vamos — disse o Sr. Sowerberry quando ficou só —, vamos acabar com este enterro. Noé, toma conta da loja; Oliver, põe o boné e segue-me. Oliver acompanhou o patrão.

Caminharam algum tempo pelo mais populoso bairro da cidade; depois desceram uma viela estreita mais suja e miserável que as outras e pararam para procurar a casa em questão. De ambos os lados da rua, as casas eram altas, mas velhíssimas, e ocupadas por gente pobríssima, como era fácil reconhecer, ainda que não atravessassem às vezes a rua homens e mulheres curvados e andrajosos.

A maior parte das casas tinha lojas hermeticamente fechadas e caindo em ruínas; mas só os andares superiores eram habitados. Outras ameaçavam cair e eram escoradas por grossas estacas de pau que estavam solidamente presas no chão; mas esses prédios rachados pareciam servir de asilo a alguns vagabundos, porque muitas das tábuas grosseiras que tapavam a porta tinham sido arrancadas como que era para dar passagem a um corpo. O rego estava sujo e estagnado. Os próprios ratos que passavam de um lado para o outro eram magros como carapaus.

Não havia cordão de campainha na porta em que pararam Oliver e seu amo; este entrou às apalpadelas num corredor escuro, disse a Oliver que o acompanhasse e não tivesse medo, subiu ao primeiro andar e bateu devagarinho a uma porta.

Veio abri-la uma mocinha de 13 para 14 anos. O empresário de enterros viu logo pelo aspecto do quarto que era ali mesmo que ele ia. Entrou acompanhado por Oliver.

Não havia fogo; um homem estava ali encostado à lareira vazia; ao pé dela havia uma velha sentada em um mocho; a um canto estavam muitas crianças esfrangalhadas, e lá num desvão do quarto, em frente à porta, jazia no assoalho um objeto envolvido num cobertor. Oliver estremeceu lançando os olhos para aquele lado e encostou-se involuntariamente ao amo; apesar da cobertura adivinhou que era um cadáver.

O homem estava pálido e descarnado; tinha os olhos injetados, a barba e os cabelos grisalhos; a velha tinha os olhos penetrantes e os dois dentes que lhes restavam pendiam sobre o lábio inferior. Oliver teve medo de olhar para ambas as figuras; lembravam-lhe os ratos que vira tão magros na rua.

— Ninguém lhe há de tomar — disse o homem atirando-se para o empresário que se aproximava do cadáver. — Para trás! Para trás! Ou morre.

— Não sejas tolo, meu rico! — disse o empresário, que estava acostumado a ver a miséria sob todas as formas. — Deixa-te de tolices!

— Repito — disse o homem fechando a mão e batendo no chão com furor —, não quero que a enterrem; no cemitério é impossível que ela durma. Os vermes irão atormentá-la sem terem o que comer; estava tão magra! O empresário nada respondeu a este infeliz em delírio; tirou um barbante do bolso e ajoelhou-se diante do cadáver.

— Ah! — disse o homem debulhado em lágrimas e lançando-se aos pés da pobre defunta.

— Ajoelhemos todos diante dela e ouçam-me. Ela morreu de fome; até o momento em que caiu com febre eu não sabia que estava tão mal; mas então já os ossos lhe rompiam a pele; não tínhamos fogo nem luz; morreu nas trevas, sim, nas trevas; nem pôde ver o rosto dos filhos, mas nós ouvíamos que ela chamava por eles na sua agonia; fui à rua mendigar para ela e meteram-me na cadeia. Quando voltei estava a expirar. Juro diante de Deus que ela morreu de fome!

O homem puxou pelos cabelos, soltou um grito horrível e rolou pelo chão, com os olhos espantados e a boca espumante.

As crianças assustadas entraram a chorar; mas a velha que até então ficara imóvel e como que estranha ao que ali se passava ameaçou-os para que se calassem; depois alargou a gravata do homem, que estava caído no chão, e caminhou vacilando para o empresário de enterros.

— Era minha filha — disse ela, fazendo um sinal com a cabeça para o lado do cadáver e falando com o ar de uma idiota, mais hedionda de ver que a própria morte. — Meu Deus! quando penso que eu lhe dei a vida no tempo em que era mulher e que ainda estou viva e alegre, enquanto ela está morta e fria! Ah! meu Deus!... Isto é uma comédia! É uma comédia! É uma comédia!

Enquanto a pobre velha dizia estas palavras, o empresário ia a sair.

—Espere! Espere! — disse ela. — Quando é o enterro? Hoje, amanhã ou depois? Devo acompanhá-lo, não? O frio está muito agudo? Nós devíamos comer antes de ir algum pastel e beber vinho; mas não importa; mande-nos pão; mande só um pedaço de pão e um pouco de água. Sim, meus amigos, mande um pedaço de pão. — A velha agarrava-se à casaca do Sr. Sowerberry, que ia sair.

— Sim, mando, mando — disse ele, — mando alguma coisa, tudo o que quiser.

Desvencilhou-se da velha e, arrastando Oliver consigo, saiu do quarto.

No dia seguinte, tendo já a família recebido um pão de duas libras e um pedaço de queijo, levados pelo Sr. Bumble em pessoa, Oliver e seu amo voltaram àquela miserável casa, acompanhados por quatro homens do asilo de mendicância que deviam carregar o caixão. Um velho manto preto cobria os andrajos da velha e do marido. Puseram o corpo no caixão; os carregadores puseram-no ao ombro e desceram à rua.

— Ande, velha, veja se apressa o passo — disse baixinho Sowerberry. — Já não é cedo e

o padre não pode esperar... Carregadores, andem depressa.

Estes apressaram o passo com o leve peso que levavam, enquanto a velha e o homem os acompanhavam o mais depressa que podiam. O Sr. Bumble e Sowerberry iam na frente, e Oliver, com as suas perninhas, corria atrás do enterro.

Não era porém tão urgente apressar o passo como dizia o Sr. Sowerberry, porque ao chegarem ao canto escuro do cemitério onde nascem urtigas e onde estão as covas dos pobres, ainda o padre não havia chegado, e o sacristão, assentado na sacristia, dizia que provavelmente não viria senão dali a uma hora. Puseram o caixão ao pé da cova; o homem e a velha esperavam pacientemente com os pés na lama, debaixo de uma chuva fria e penetrante, ao passo que algumas crianças esfrangalhadas, atraídas pela curiosidade, jogavam a cabra-cega por detrás das sepulturas ou saltavam a pés juntos por cima delas.

Sowerberry e Bumble, amigos do sacristão, aqueciam-se ao fogo com ele e liam os jornais.

Depois de uma hora de espera, o Sr. Bumble, Sowerberry e o sacristão foram até a cova, e ao mesmo tempo apareceu o padre, que andava e vestia a sobrepeliz ao mesmo tempo. O Sr. Bumble ralhou com duas ou três crianças para salvar as aparências; e o respeitável clérigo, depois de ter lido o ofício dos mortos durante quatro minutos, entregou a sobrepeliz ao sacristão e foi-se embora.

— Agora, Bill, encha — disse Sowerberry ao coveiro.

A tarefa era fácil; a cova estava tão cheia que o último caixão ficava a poucos pés do nível do solo. O coveiro deitou sobre o caixão algumas pás de terra, deu quatro passos por cima da cova, pôs a pá ao ombro e foi-se embora, acompanhado pelos meninos, que se queixavam de ter sido tão curto o divertimento.

— Vamos — disse Bumble batendo no ombro do pobre homem —, vai fechar-se o cemitério.

O homem, que não tinha feito nenhum movimento depois que chegara ao pé da cova, estremeceu, ergueu a cabeça, olhou para aquele que lhe falava, deu alguns passos e caiu sem sentidos. A velha idiota tratava da manta preta, que o empresário lhe havia tirado outra vez, e não devia atenção a nada; tratou-se de pôr água fria no homem para fazê-lo voltar a si; puseram-no são e salvo fora do cemitério e, depois de fechada a porta, todos se foram embora.

— Então, Oliver — disse o Sr. Sowerberry —, como achas isto?

— Bem, obrigado — disse o pequeno hesitando um pouco —, isto é, não acho muito bom...

— Hás de acostumar-te — disse o Sr. Sowerberry. — Quando a gente se acostuma, não

sente impressão nenhuma.

CAPÍTULO VI

LUTA E VITÓRIA.

Ao cabo de um mês de ensaios, Oliver estava admitido como aprendiz. Houve justamente nessa época uma epidemia. Em estilo comercial, os caixões tinham subido, e no espaço de algumas semanas Oliver ganhou muita experiência. O êxito da engenhosa especulação do Sr. Sowerberry ia além das suas esperanças.

Os mais antigos habitantes não se lembravam de ter visto tanta moléstia mortífera, principalmente nas crianças; numerosos foram os enterros a cuja frente ia o pequeno Oliver com um retalho de fumo que lhe ia do chapéu aos joelhos, o que causava grande pasmo e gosto a todas as mães.

Oliver acompanhou também o patrão aos enterros de adultos para adquirir a impassibilidade e a insensibilidade necessárias a um urubu consumado. Teve muita ocasião de observar a bela resignação e força de alma com que as pessoas corajosas suportam a perda de seus parentes.

Assim que, quando se encomendava a Sowerberry um enterro para alguma pessoa velha e rica, possuindo muitos sobrinhos e sobrinhas, os quais durante a última moléstia se haviam mostrado inconsoláveis, e cuja dor nem perante o público se pudera conter todos esses parentes eram depois encontrados em casa alegres e satisfeitos, conversando com uma isenção que pareciam não ter perdido nada. Certos maridos suportavam com admirável calma a perda da mulher; as mulheres, por seu lado, vestindo luto pelo marido, procuravam torná-lo mais atraente possível; era de notar que aqueles cuja dor fizera explosão na ocasião do enterro ficavam calmos quando entravam em casa e alegres antes do chá.

Este espetáculo a um tempo curioso e consolador excitava o pasmo de Oliver.

Não posso afirmar com certeza, na qualidade de biógrafo, se o exemplo de toda essa gente dispunha Oliver à resignação. O certo é que ele continuou durante muitos meses a suportar a dominação e maus-tratos de Noé Claypole, que tinha ciúme de o ver na posição de urubu, quando ele, mais antigo, não tinha subido a tanto.

Chego agora a um ponto importantíssimo na história de Oliver; vou falar de uma ação que pode parecer quase indiferente, mas que modificou e mudou completamente o seu futuro.

Oliver e Noé tinham descido à cozinha, à hora do jantar, para comer um pedaço de carneiro — libra e meia da carne mais comum. Mas Carlota havia saído, e durante a sua ausência o Sr. Noé Claypole, faminto e vicioso, cuidou que não podia passar melhor o tempo do que molestando o pequeno Oliver Twist.

Para ter esta inocente distração, Noé pôs os pés sobre a toalha, puxou pelos cabelos de Oliver, beliscou-lhe as orelhas e chamou-lhe um nome feio. Anunciou o projeto de ir vê-lo enforcar algum dia; em suma, não houve diabrura que não fizesse ou dissesse; mas como nada disso fizera chorar Oliver, Noé experimentou outro meio mais engenhoso; fez

o que fazem muitos espíritos mais célebres que Noé; recorreu às personalidades.

— Bastardo! — disse ele. — Como vai tua mãe?

— Morreu — respondeu Oliver. — Peço-lhe que me não fale nisso.

A criança corou dizendo estas palavras. Tinha a respiração precipitada, e, ao ver-lhe a contração dos lábios e das narinas, o Sr. Claypole cuidou que ele ia chorar; por isso voltou à carga.

— De que morreu tua mãe? — perguntou ele.

— De desespero, segundo me disseram — respondeu Oliver como se fala a si mesmo —, e eu creio que compreendo o que é morrer assim.

— Tra, lá, lá, lá — cantarolou o Sr. Claypole vendo rolar uma lágrima pela face de Oliver.

— Por que diabo choramingas desse modo?

— Não é por sua causa — disse Oliver enxugando a face, — acredite que não é.

— Ah! Sim? Não sou eu?

— Não, não é — respondeu Oliver em tom seco. — Olhe, já basta; não diga mais umapalavra a respeito de minha mãe... É conselho que lhe dou.

— Conselho que me dá? — exclamou Noé. — Na verdade, estás petulante! Parece que tua mãe era uma bela mulher, não?

E Noé abanou a cabeça de um modo expressivo e torceu o narizinho vermelho.

— Tu bem sabes, órfão — continuou Noé, animado pelo silêncio de Oliver e com um tom de compaixão fingida (mais ofensivo de todos) —, tu bem sabes que nem eu nem tu lhe podemos dar remédio; bem sabes que tua mãe era uma mulher da vida airada.

— Que diz? — perguntou Oliver levantando a cabeça.

— Uma mulher pública — respondeu friamente Noé —, e muito melhor foi que morresse, porque haveria de acabar na cadeia ou na forca.

Com o rosto afogueado, Oliver atirou-se para Noé, derrubando cadeiras e mesa, agarrou-

o pelo gasnete, sacudiu-o com raiva tal que os dentes de Noé bateram uns contra os outros e, reunindo todas as forças, aplicou-lhe um soco que o levou ao chão.

Um instante antes era aquele pequeno, apesar dos maus-tratos, a imagem da doçura; mas a sua coragem fora despertada enfim; a afronta à memória de sua mãe pô-lo fora de si; batia-lhe o coração com força; tinha uma atitude altiva e os olhos animados; tudo nele estava mudado, agora que ele via o seu covarde perseguidor estendido a seus pés e o desafiava com mais energia que não conhecera antes.

— Assassino! — gritou Noé. — Carlota! Patroa! O aprendiz assassinou-me; socorro! Oliver está danado! Carlota!

Aos gritos de Noé, respondeu Carlota com um grito agudo e a Sra. Sowerberry com outro grito agudíssimo; a primeira entrou na cozinha por uma porta lateral e a segunda parou na escada a fim de observar se não expunha a sua vida, caso descesse mais.

— Ah! Miserável! — disse Carlota apertando Oliver com todas as suas forças, que eram iguais às de um homem robusto e sadio. — Ingrato! Assassino! Monstro!

E a cada sílaba Carlota dava um soco em Oliver e ao mesmo tempo um grito agudo, para maior glória da sociedade, cuja causa ela defendia.

O pulso dela não era leve; mas, receando que não fosse bastante para acalmar a cólera de Oliver a Sra. Sowerberry desceu à cozinha e, segurando com uma mão na criança, com a outra lhe arranhava a cara. Noé, aproveitando a vantagem da posição, levantou-se e desandou alguns pares de socos nas costas de Oliver.

O exercício era tão violento que não podia durar muito; quando os três se cansaram de dar pancadas, arrastaram a criança, que gritava e se debatia, sem todavia mostrar medo, para o celeiro, onde a fecharam a chave; depois a Sra. Sowerberry deixou-se cair numa cadeira e debulhou-se em lágrimas.

— A patroa vai desmaiar! — disse Carlota. — Noé, dá cá um copo d'água.

— Oh! Carlota — disse a Sra. Sowerberry, falando como podia apesar da tosse e da porção d'água fria que Noé lhe deitava à cara. — Oh! Carlota, que fortuna não termos sido assassinados na cama!

— Foi uma grande fortuna, realmente — respondeu Carlota. — Espero que o patrão tome esta lição a fim de não receber em casa estas criaturas terríveis, que nasceram para o assassinato e o roubo. Pobre Noé! Quando eu entrei estava quase morto!

— Coitado! — disse a Sra. Sowerberry, lançando um olhar compassivo para Noé.

Noé (que era mais alto que Oliver) esfregava os olhos com a palma da mão e soluçava.

— Que faremos? — disse a Sra. Sowerberry. — Meu marido saiu, não há homem em casa; e Oliver dentro de dez minutos vai pôr a porta abaixo com pontapés.

Oliver dava efetivamente sucessivos pontapés na porta do celeiro.

— Meu Deus... Não sei — disse Carlota. — Se mandássemos chamar a polícia?

— Ou a guarda? — acrescentou Noé Claypole.

— Não, não — disse a Sra. Sowerberry, lembrando do antigo amigo de Oliver. — Noé, vai à casa do Sr. Bumble e diga-lhe que venha cá, já e já; não precisa ir procurar o boné. Anda, anda; no caminho leva sempre uma faca aplicada no olho para desinchar.

Noé não esperou mais nada; saiu às carreiras. A gente da rua ficava admirada de ver um rapaz a correr, sem boné e com uma faca no olho.

CAPÍTULO VII

OLIVER PROSSEGUE EM SUA REBELIÃO.

Noé Claypole correu a toda brida e só parou à porta do asilo da mendicidade. Esperou cerca de um minuto para começar outra vez seus soluços e dar à cara uma expressão de dor e de terror; depois bateu à porta e apresentou ao mendigo que lhe abriu a porta uma cara tão triste que este, posto estivesse acostumado a ver caras infelizes, recuou espantado.

— Que aconteceria a este pequeno? — disse o velho mendigo.

— O Sr. Bumble! O Sr. Bumble! — gritou ele, fingindo um grande medo, e com tal força que não só o Sr. Bumble ouviu logo, apesar de ser um pouco surdo, mas até criou tal susto que saiu ao pátio sem chapéu de três bicos, circunstância notável e verdadeiramente curiosa, pois mostra que um bedel, em um momento de comoção súbita e poderosa, pode momentaneamente ficar bruto e esquecer a sua dignidade pessoal.

Noé continuou:

— Sr. Bumble, é Oliver que...

— Como? — interrompeu o Sr. Bumble com uma expressão de sincera alegria. — Ele fugiu? Fugiu?

— Não senhor, não fugiu; mas quis assassinar-me; depois quis assassinar Carlota e a patroa. Oh! Que dores! Ai que dores, Sr. Bumble!

E Noé torcia-se em todos os sentidos para fazer crer ao Sr. Bumble que no ataque violento e feroz de Oliver Twist recebera alguma grave lesão interna que lhe causava atrozes sofrimentos.

Quando Noé viu o efeito que as suas palavras produziam no Sr. Bumble, quis comovê-lo ainda mais, redobrando as suas queixas; e quando viu atravessar o pátio um sujeito de colete branco gemeu de um modo mais trágico do que nunca, pois achou que era importante chamar a atenção do dito personagem.

Despertou-se a atenção deste, que se voltou subitamente e perguntou por que razão berrava aquele rapaz e por que motivo não lhe aplicava o bedel dois ou três murros para fazê-lo articular melhor as suas palavras.

— É um pobre rapaz da escola da caridade — respondeu o Sr. Bumble, que escapou de ser assassinado pelo jovem Twist.

— Ora, ora. Essa já esperava eu — disse o sujeito do colete branco. —Desde o princípio tive um singular pressentimento de que aquele pequeno há de acabar na forca.

— E quis também assassinar a criada — disse o Sr. Bumble, pálido de medo.

— E a patroa também — acrescentou Noé Claypole.

— E o patrão também, não? — disse o Sr. Bumble.

— Não, porque tinha saído; se não fosse isso morria às mãos do diabrete; ele dizia que queria dar cabo da pele do patrão.

— Disse isso? — perguntou o sujeito do colete branco.

— Sim, senhor — respondeu Noé —, e minha ama manda saber se o Sr. Bumble podia ir lá dar uma sova em Oliver, porque o patrão saiu.

— Certamente que pode — disse sorrindo o sujeito do colete branco. — Tu és um rapaz digno; aqui está um penny pelo teu trabalho. Bumble, pegue na bengala e vá à casa do Sr. Sowerberry. Não poupe o infame.

— Qual! Poupá-lo! — disse o bedel, enterrando um chicote na ponta da bengala.

— Diga a Sowerberry que não o poupe; não se deve poupar aquele peralta! — disse o sujeito do colete branco.

— Deixe estar — respondeu o bedel.

E depois de pôr na cabeça o chapéu de três bicos, o Sr. Bumble saiu apressadamente acompanhado por Claypole para a casa do empresário de enterros.

A situação era a mesma. O Sr. Sowerberry não tinha ainda voltado para casa e Oliver continuava a dar vigorosos pontapés na porta do celeiro. A Sra. Sowerberry e Carlota pintaram por tal modo a ferocidade do pequeno que o Sr. Bumble achou prudente parlamentar antes de abrir a porta. Começou por dar um tremendo pontapé à maneira de exórdio; depois, aplicando a boca à fechadura, disse com voz forte e imponente:

— Oliver!

— Ande, abra a porta! — respondeu o pequeno.

— Conheces a voz que te fala? — disse o Sr. Bumble.

— Conheço.

— E não tens medo? Não tremes ouvindo a minha voz?

— Não! —respondeu corajosamente Oliver.

Tão contrária resposta àquela que ele esperava fez com que o bedel hesitasse. Deixou a fechadura, empertigou-se e contemplou uma por uma as três testemunhas desta cena, sem proferir uma palavra.

— Olhe, Sr. Bumble — disse a Sra. Sowerberry —, Oliver naturalmente endoideceu. Uma criança que tivesse algum juízo não lhe responderia daquele modo.

— Não é loucura — disse o Sr. Bumble, depois de alguns instantes de reflexão, é carne.

— Carne? — perguntou a Sra. Sowerberry.

— Sim, minha senhora, aquilo é carne — disse o bedel com um tom majestoso. — A senhora deu-lhe carne a comer. Por isso fez com que ele criasse uma alma artificial, deslocada em pessoas daquela condição. Pergunte isto aos membros do conselho, que são filósofos práticos. Que vale aos pobres ter alma? Já é muito que lhe alimentamos a vida do corpo. Se lhe houvesse dado mingau, nunca aconteceria semelhante coisa.

— Meu Deus! — disse a Sra. Sowerberry, levantando os olhos para o resto da comida. — Aqui está o que é ser generosa!

— Olhe — disse o Sr. Bumble, à dona da casa —, na minha opinião o que se deve fazer é deixá-lo no celeiro um ou dois dias até que a fome o enfraqueça, soltá-lo depois e alimentá-lo com mingau durante todo o tempo de aprendizagem; a família dele toda era composta de gente raivosa; o médico e a alma disseram que a mãe chegara ao asilo depois de fadigas tais que teriam morto outra qualquer mulher.

O Sr. Bumble estava neste ponto do seu discurso quando Oliver, que ouvia assaz o diálogo para compreender que tratavam de sua mãe, tornou a desprender pontapés na porta. Sowerberry chegou nessa ocasião; explicaram-lhe o atentado de Oliver com a exageração que as duas mulheres acharam conveniente para encolerizar o patrão; ele abriu a porta e trouxe Oliver pela gola.

As roupas de Oliver tinham-se rasgado na luta; estava com o rosto arranhado, os cabelos em desordem; estava porém calmo; ao sair lançou a Noé um olhar de cólera.

— Você é uma pérola! — disse Sowerberry a Oliver dando-lhe uma bofetada.

— Ele insultou minha mãe — respondeu Oliver.

— E quando assim fosse... miserável — disse a Sra. Sowerberry. — Ele ainda disse pouco, ela merecia muito mais.

— Não — disse a criança.

— Sim, sim — disse a Sra. Sowerberry.

— Mente! — respondeu Oliver.

A Sra. Sowerberry desatou a chorar. A torrente de lágrimas não deixou ao marido nenhuma alternativa. Se ele hesitasse um instante em punir Oliver mais severamente, é claro como o dia que segundo os usos recebidos nas brigas domésticas ele seria um bruto, um marido desnaturado, tendo só de homem o rosto e mil outros epítetos agradáveis que não posso meter neste capítulo.

O fabricante de caixões de defunto tinha alguma estima ao pequeno, mas era impossível deixar de o castigar. O castigo foi tal que a Sra. Sowerberry ficou satisfeita e a bengala paroquial do Sr. Bumble não entrou em serviço. Oliver foi metido no quarto que ficava por trás da cozinha; de noite, abriram-lhe a porta e, no meio de descomposturas a ele e a mãe, saiu o pobre Oliver para a cama debaixo do balcão.

Oliver entrou a refletir. Ouvira os sarcasmos e as injúrias com desdém; sofrera a pancada sem um grito; já se ia desenvolvendo nele um sentimento de orgulho. Mas agora que ninguém o via, ajoelhou-se e derramou amargas lágrimas.

Oliver ficou muito tempo nessa posição. A vela ia acabar de arder quando ele se levantou; olhou prudentemente à roda de si, escutou atentamente; depois puxou o ferrolho da porta e olhou para a rua.

A noite estava fria e escura; as estrelas pareciam mais do que nunca longe da terra; não ventava. As árvores tinham um aspecto sepulcral. Oliver fechou a porta e, aproveitando os últimos clarões da vela para reunir em um lenço o pouco que possuía, assentou-se em um banco e esperou a madrugada.

Desde que um raio de luz penetrou na loja, Oliver levantou-se e abriu outra vez a porta, olhou timidamente, hesitou alguns instantes, depois empurrou a porta para trás; estava na rua.

Olhou para todos os lados, incerto sobre que caminho tomaria. Lembrou-se de ter visto as carroças, quando saíam da cidade, galgarem juntamente à colina; foi pela mesma direção e chegou a um pequeno atalho pelos campos, que iam ter à grande estrada; meteu-se por ele e caminhou rapidamente.

Lembrou-se de ter ido por aquele atalho quando acompanhava o Sr. Bumble da casa onde fora criado ao asilo de mendicidade. O caminho levou-o direitinho à tal casa; batia-lhe o coração violentamente, e ele esteve a ponto de voltar para trás; mas já tinha andado muito e, se se desviasse, perderia muito tempo; demais era já tão claro que receava ser visto, continuara a andar.

Chegou à casa da velha onde fora criado; tudo estava silencioso; Oliver parou e olhou para o jardim; uma criança estava ali capinando, e, no momento de levantar a cabeça, Oliver reconheceu um de seus antigos companheiros. Sentiu-se contente por vê-lo antes de se ir embora; ainda que mais moço que ele, era aquele menino seu amigo e companheiro; tantas vezes tiveram fome, tantas vezes foram espancados ambos.

— Silêncio, Dick! — disse Oliver, vendo a criança correr à grade. — Já estão todos levantados?

— Não, eu só.

— Não digas que me viste, Dick; vou fugindo; dão-me pancadas; vou buscar fortuna, tão longe que nem sei. Como estás pálido!

— Ouvi dizer ao médico que eu ia morrer — disse a criança com um ligeiro sorriso. — Estou bem contente por te ver, meu amigo; mas não te demores.

— Sim, até algum dia; estou certo de que nos havemos de tornar a ver; e então hás de estar bom e feliz.

— Feliz, creio, quando tiver morrido, e não antes. O médico tem razão, Oliver, porque eu sonho todas as noites com anjos. Abraça-me; adeus, meu amigo, que Deus te abençoe.

Aquela bênção vinha da boca de uma criança, mas era a primeira que Oliver ouvia. No

meio das provanças, dos sofrimentos, das vicissitudes de sua vida, jamais a esqueceu.

CAPÍTULO VIII

OLIVER VAI A LONDRES E ENCONTRA EM CAMINHO UM RAPAZ MISTERIOSO.

Chegando ao fim do atalho, achou-se Oliver na grande estrada. Eram oito horas; e, posto que estivesse já a cinco milhas da cidade, correu e escondeu-se por trás de uma cerca até meio-dia; assentou-se num marco de pedra, e pela primeira vez entrou a considerar que lugar escolheria para ganhar a vida.

O marco indicava, em letras grossas, que a cidade de Londres ficava a 7O milhas; o nome Londres despertou no espírito do menino uma nova série de idéias. Não poderia ele ir a Londres, a cidade imensa, onde nem o sr. Bumble viria a descobri-lo? Oliver ouvira sempre dizer aos velhos mendigos do asilo que um rapaz de juízo nunca ficava desamparado em Londres, e que havia nessa grande cidade meios de existência desconhecidos à gente do campo. Era esse o lugar que convinha a um rapaz sem asilo, destinado a morrer na rua, se lhe não dessem a mão.

Oliver levantou-se e continuou viagem.

Andou mais quatro milhas, sem pensar no que devia sofrer antes de chegar a Londres; como essa idéia lhe surgisse ao espírito, atrasou o passo e pôs-se a pensar nos meios de lá chegar.

Tinha no embrulho que levava um pedaço de pão, uma camisa velha, dois pares de meias, e na algibeira um penny que lhe dera o Sr. Sowerberry depois de um enterro em que se distinguira na alta qualidade de urubu.

— Não é mal, pensava Oliver, ter uma camisa lavada, dois pares de meias, e um penny; mas é escasso recurso para viajar 63 milhas a pé durante o inverno.

Oliver tinha, como muita gente, fácil penetração para descobrir as dificuldades, e lenta inteligência para achar os meios de a remover; de maneira que, depois de refletir muito, sem achar a solução que procurava, pôs o embrulho às costas e continuou a andar.

Nesse dia andou 20 milhas sem comer outra coisa além do pedaço de pão e alguns copos d'água que pediu à porta das cabanas. De noite, entrou em um campo, deitou-se ao pé de um moinho, resolvido a esperar ali o dia. Ao princípio teve medo, ouvindo o assobiar do vento; sentia frio e fome; mais que nunca estava desamparado; contudo o cansaço fê-lo dormir e ele esqueceu tudo.

De manhã, ao levantar-se, sentiu as juntas presas por causa do frio, e tinha tanta fome que comprou um pouco de pão com o penny, na primeira aldeia que atravessou. Quando chegou a noite tinha andado 12 milhas; estava com os pés inchados e as pernas tão fracas que tremiam; a segunda noite que passou ao relento quebrou-lhe totalmente as forças.

Não podia andar; esperou, ao pé de uma ladeirinha, que passasse alguma diligência, e pediu esmola aos passageiros da almofada; ninguém fez caso dele; os que o viram disseram-lhe que esperasse que a diligência chegasse ao alto, e que lhes mostrasse quanto tempo era capaz de andar para ganhar meio penny. O pobre Oliver tentou acompanhar a diligência, mas não pôde; então os passageiros da almofada puseram o meio penny na algibeira, dizendo que Oliver era um vadio. A diligência desapareceu no meio de uma nuvem de poeira.

Se não fora a boa alma de um guarda-barreira, a caridade de uma velha, os sofrimentos de Oliver seriam abreviados como os de sua mãe, isto é, morreria o pequeno na estrada. Mas o guarda-barreira, e a velha, cujo neto naufragara e errava em alguma paragem remota do mundo, teve piedade dele e deram-lhe do pouco que tinham, com palavras tais que encheram a alma de Oliver.

Na manhã do sétimo dia chegou ele à pequena cidade de Barnet.

As portas ainda estavam fechadas e as ruas desertas; o sol estava brilhante; com os pés em sangue e coberto de poeira, Oliver assentou-se nos degraus de uma casa.

Pouco a pouco foram-se abrindo as janelas e aparecendo gente que parava e olhava para Oliver, sem lhe darem nada.

Havia já algum tempo que ele ali estava; admirava-se de ver tantas tavernas, porque a metade das casas de Barnet são tavernas grandes e pequenas; olhava distraído para os carros que passavam e admirava-se de que fizessem em algumas horas um trajeto em que ele gastara um semana inteira.

Foi arrancado de suas reflexões por um rapaz que lhe passara pela frente pouco antes sem parecer vê-lo, e voltara e se colocara do outro lado da rua para o observar atentamente.

A princípio Oliver não lhe deu grande atenção; mas o rapaz ficou tanto tempo na mesma posição e lugar, que Oliver levantou a cabeça e olhou para ele.

Então o rapaz atravessando a rua e dirigindo-se para Oliver disse:

— Então que há, amiguinho?

O rapaz que lhe falava tinha quase a mesma idade que ele; era o indivíduo mais original que Oliver vira até então. Tinha o nariz arrebitado e torcido, a testa estreita, as feições comuns, e o exterior porquíssimo, o que não impedia que se mostrasse com ares de fidalgo. Era baixinho, tinha as pernas arqueadas e olhos sem vergonha; o chapéu estava posto na cabeça de modo que parecia prestes a cair; e efetivamente cairia se o pequeno não desse de quando em quando um movimento à cabeça para o repor na posição primitiva. Tinha uma casaca que lhe descia até aos calcanhares; trazia as mangas arregaçadas até os cotovelos, provavelmente com o fim de meter as mãos, como então fazia, na algibeira da calça de veludo. Calçava sapatos à Bucher.

— Então, que há, amiguinho? Perguntou aquele misterioso rapaz.

— Tenho fome e estou muito cansado, respondeu Oliver com lágrimas nos olhos. Ando há sete dias.

— Ignora acaso o que é o bico?

Oliver respondeu com singeleza que sempre cuidou que bico era boca de pássaro.

— Que inocência! Exclamou o rapaz; um bico é uma autoridade policial; andar por ordem do bico é nunca andar direito, é andar às furtadelas. Esteve no moinho?

— Que moinho? Disse Oliver.

— Que moinho! O moinho que anda sem água*. Anda comigo; tu precisas comer; a bolsa não está muito recheada, mas enquanto houver... Anda, anda!

— O rapaz ajudou Oliver a levantar-se, levou-o para a loja de um sujeito que vendia

—Sete dias! Disse o outro; Ah! Compreendo. Por ordem do bico? Oliver parecia admirado.

* Alude a um costume das prisões inglesas.

velas, comprou aí um pouco de presunto e um pão de duas libras; meteu o presunto dentro do pão e foi com Oliver para uma sala que ficava no fundo de uma taverna.

Ali o misterioso rapaz mandou vir cerveja; a convite do seu novo amigo, Oliver atirou-se ao banquete e comeu com unhas e dentes, enquanto o companheiro o contemplava.

— Você vai a Londres? Disse o rapaz quando Oliver acabou.

— Vou.

— Tem casa lá?

— Não.

O indivíduo entrou a assobiar e meteu as mãos na algibeira.

— Mora em Londres?

— Sim, quando estou em casa, respondeu o rapaz. Precisa de casa para passar a noite?

— Sim, desde que saí de minha terra ainda não dormi em nenhuma casa.

— Não te incomodes, disse o misterioso rapaz, eu devo estar esta noite em Londres, e conheço lá um velho respeitável que te dará casa de graça, com a condição que sejas apresentado por um dos seus amigos. Eu sou amigo dele.

Dizendo isto, esvaziou o copo.

A inesperada oferta de uma casa não era para desprezar, principalmente depois que o rapaz afiançou que o tal velho arranjaria um bom emprego para Oliver.

Daqui nasceu uma conversa mais íntima e confidencial, em que Oliver soube que o seu amigo se chamava Jack Dawkins e era amigo e protegido pelo referido sujeito velho.

O exterior do Sr. Dawkins não falava muito em favor das vantagens que lhe dava o crédito do seu protetor, mas como a sua conversa era leviana e incoerente, e como ele confessava que os seus amigos o conheciam pela alcunha de Matreiro, Oliver concluiu que o seu companheiro era naturalmente gastador e estouvado, pelo que os preceitos morais do seu benfeitor não lhe faziam efeito. Com este pensamento, resolveu captar o mais depressa possível a estima do velho e desistir da amizade do Matreiro, se este, como parecia, não se corrigisse.

Jack Dawkins não quis entrar em Londres antes da noite, e era perto de onze horas quando chegaram à barreira de Islington. Tomaram pela rua de S. João, desceram a rua que vai ter ao teatro de Sadlerwell, costearam Exmouth Street Coppice-Row; atravessaram o terreno helênico que se chamava outrora Hokley in the Hot, e chegaram a Little Saffron Hill e Great Saffron Hill, que o Matreiro atravessou com passo rápido, recomendando a Oliver que o não perdesse de vista.

Posto que Oliver fizesse isso mesmo, não deixava de lançar alguns olhares furtivos para os dois lados da rua: era o lugar mais sujo e miserável que ele tinha visto. A rua era estreita e úmida e o ar, carregado de miasmas fétidos. Havia um grande número de lojas pequenas onde as crianças berravam apesar da hora adiantada da noite. Os únicos lugares que pareciam prosperar eram as tavernas, onde irlandeses das fezes do povo, isto é, das fezes da espécie humana, discutiam com todas as forças. Vielas e passagens estreitas deixavam ver algumas casas miseráveis, diante das quais homens e mulheres embriagados rolavam na lama da rua; e às vezes saíam com precaução desses antros indivíduos de cara sinistra, cujas intenções não pareciam ser louváveis nem tranqüilizadoras.

Oliver estava a perguntar a si mesmo se não era melhor fugir, quando chegaram ambos ao fim da rua. Segurou-lhe o guia no braço, empurrou a porta de uma casa próxima de Fieldlane, fê-lo entrar em uma alameda e fechou a porta.

— Quem vem lá? — gritou uma voz em resposta a um assobio do Matreiro.

— Plummy e Slam! — foi a resposta.

Era sem dúvida uma senha para indicar que tudo ia bem.

A fraca luz de uma vela iluminou a parede no fundo da alameda e viu-se aparecer uma cabeça ao nível do solo, por trás de uma escada quebrada que outrora levava a uma cozinha.

— São dois — disse o homem levantando a vela e pondo a mão por cima dos olhos para melhor distinguir os objetos. — Quem é o outro?

— Um recruta, respondeu Jack Dawkins, apresentando Oliver.

— De onde vem?

— Do país dos inocentes. Fagin está em cima?

— Está separando os lenços. Subam.

O homem desapareceu e eles ficaram nas trevas.

Sempre levado pelo companheiro, que lhe segurava na mão, Oliver apalpava com a outra

o lugar em que andava. Subiu dificilmente na escuridão os degraus arruinados que o seu companheiro trepava com uma presteza denunciadora do muito que ele os conhecia.

O Matreiro empurrou a porta de um quarto e introduziu Oliver. As paredes e o teto estavam sujos pelo tempo e pelo desmazelo. Diante da lareira, em uma mesa de pinho, havia uma vela metida no gargalo de uma garrafa, duas ou três canecas de estanho, um pão, manteiga e um prato. Estavam ao fogo algumas salsichas, ao pé das quais se achava um velho judeu com um garfo na mão.

O rosto do judeu estava todo cortado de rugas, e as feições ignóbeis e repelentes desapareciam em parte debaixo de uma camada de cabelos ruivos que lhe caía pelas fontes; vestia um chambre velho de flanela, não tinha gravata e parecia dividir a sua atenção entre a assadeira e uma corda onde estava pendurada uma porção de lenços.

Havia no quarto uma porção de ruins camas feitas com sacos velhos. À roda da mesa, quatro ou cinco crianças da idade do Matreiro fumavam cachimbo e bebiam licor com ares de rapazes feitos.

O Matreiro disse algumas palavras em voz baixa ao judeu; os pequenos vieram ter com o Matreiro e voltaram-se rindo para Oliver. O mesmo fez o judeu, sempre com o garfo na mão.

— Apresento-lhe o meu amigo Oliver Twist — disse Jack Dawkins.

O judeu riu-se fazendo uma careta. Fez um grande cumprimento a Oliver, travou-lhe da mão e disse que esperava ter a honra de estreitar relações.

Os outros pequenos vieram apertar a mão de Oliver, de maneira que lhe caiu o embrulho; um deles apressou-se a desembaraçá-lo do boné; outro teve a bondade de lhe examinar as algibeiras para lhe poupar o trabalho de as esvaziar quando se fosse deitar. Não teriam parado nisto os obséquios, se o judeu não começasse a dar garfadas na cabeça e nos ombros dos cinco peraltas.

— Temos muito prazer em receber-te aqui Oliver — disse o judeu. — Matreiro, tira do fogo algumas salsichas e aproxima um banquinho para Oliver. Ah! Estás admirado dos lenços? É uma bela coleção, não, meu amigo? Acabamos de os preparar para a barrela. Nada mais, Oliver; nada mais. Eh! Eh! Eh!

As últimas palavras do judeu foram recebidas com aclamação pelos jovens discípulos.

Depois começou a ceia.

Oliver comeu o seu quinhão; o judeu preparou-lhe depois um copo de grog feito com genebra recomendando que o bebesse de um só trago, porque outro conviva precisava do copo. Oliver obedeceu; daí a pouco sentiu-se levado brandamente para cima de um dos sacos, onde dormiu profundamente.

CAPÍTULO IX

NOVOS PORMENORES ACERCA DO AMÁVEL ANCIÃO E SEUS DISCÍPULOS, RAPAZES DAS MAIS ALTAS ESPERANÇAS.

No dia seguinte, já a manhã ia adiantada, quando Oliver acordou depois de um sono profundo e prolongado.

No quarto estava só o velho judeu, aquecendo café em uma caçarola, assobiando baixinho; de quando em quando parava para escutar, se acaso ouvia algum rumor; e quando via que tudo estava tranqüilo continuava a assobiar e a mexer o café com uma colher de metal.

Conquanto Oliver não estivesse dormindo, não se podia dizer que estivesse totalmente acordado. Há certo estado entre o sono e a vigília em que a gente sonha mais no espaço de cinco minutos, com os olhos abertos e sem ter consciência do que se passa, do que sonharia em cinco noites com os olhos fechados e em completo sono. Nesses momentos

o homem não percebe o que se passa em seu espírito de maneira que possa ter uma fraca idéia das pujantes faculdades desse espírito quando, liberto dos vínculos terrenos, foge à terra zombando do tempo e do espaço.

Oliver estava em um desses momentos. Com os olhos semifechados, via o judeu, ouvia-o assobiar baixinho, reconhecia o rumor da colher na caçarola; e, contudo, o seu espírito, durante esse tempo, viajava no passado e ia ter com todas as pessoas que ele havia conhecido.

Apenas o café ficou pronto, o judeu pôs a caçarola no chão e ficou alguns instantes em atitude indecisa, como se não soubesse o que faria primeiro; depois olhou para Oliver e o chamou pelo nome; este não respondeu e parecia dormir profundamente. O judeu dirigiu-se cautelosamente para a porta, fechou-a e tirou de um alçapão no assoalho uma caixinha que levou cuidadosamente para a mesa; faiscavam-lhe os olhos enquanto abria a tampa e olhava para o interior da caixinha; aproximou da mesa uma cadeira velha, sentou-se e tirou da caixa um magnífico relógio de ouro cravejado de brilhantes.

— Ah! Boas alminhas! — disse o judeu, erguendo os ombros e contraindo o rosto com um feio sorriso! — Foram sempre firmes! Incapazes de vender o velho Fagin. E com que interesse? Não alargariam o laço, nem deixariam de espernear. Não! Não! Bons rapazes! Bons rapazes!

Fazendo estas e outras reflexões, o velho pôs outra vez o relógio na caixinha; tirou ainda uma meia dúzia de relógios do mesmo quilate, contemplou-os com os mesmos êxtases; depois anéis, broches, pulseiras, jóias de todo gênero, tão preciosas e de tão fino lavor que Oliver nem de nome as conhecia.

O judeu pôs todas essas jóias na caixinha e tirou uma última jóia, tão pequena que lhe cabia na palma da mão semifechada; parece que tinha a inscrição finíssima, porque o judeu levou a contemplá-la muito tempo e com extrema atenção; como se perdesse a esperança de decifrar os caracteres, pôs a jóia outra vez na caixinha e, recostando-se na cadeira; continuou as suas reflexões:

— Bela coisa é a pena de morte! — disse ele a meia voz. — Os mortos nunca se arrependem; os mortos não vêm revelar nada! Ah! é uma boa garantia para o comércio! Eram cinco enfileirados e pendurados e nenhum foi covarde, nenhum denunciou o velho Fagin!

Dizendo estas palavras, o judeu corria ao acaso os olhos negros e brilhantes à roda de si e de súbito deu com os olhos de Oliver.

Oliver contemplava o judeu com uma curiosidade muda; num abrir e fechar de olhos, o judeu compreendeu que fora observado; fechou atropeladamente a caixinha e, travando de uma faca, levantou-se furioso; mas tremia tanto que Oliver, apesar de seu terror, podia ver vacilar a lâmina da faca.

— O que é? — disse o judeu. — Por que razão me observas? Não dormias? O que viste? Fala depressa! Anda! Fala ou morre!

— Eu não podia dormir mais — respondeu a criança com brandura — e sinto tê-lo incomodado.

—Estás acordado há uma hora? — perguntou o judeu com ar ameaçador.

— Não, senhor — respondeu Oliver.

— Estás certo disso?

— Estou certo de que dormi até agora.

— Está bom, está bom, meu amigo — disse o judeu voltando subitamente às suas maneiras ordinárias e brincando com a faca antes de a pôr na mesa, como para fazer crer que a tinha tirado para se divertir.

— Eu estava certo disso; queria só meter-te medo. És um bom rapaz, Oliver.

E o judeu esfregava as mãos e ria-se, mas deitava à caixinha um olhar inquieto.

— Vistes algumas destas coisas tão bonitas, meu amiguinho? — disse ele depois de um curto silêncio e pondo a mão sobre a caixinha.

— Vi, sim senhor — disse Oliver.

— Ah! — disse o judeu empalidecendo... — São minhas, Oliver, é toda a minha riqueza, é

o que me resta na velhice. Chamam-me avaro, meu amigo, avaro e nada mais.

Oliver pensou que o velho devia realmente ser imensamente avaro, pois vivia naquela casa tão suja, tendo tantos relógios consigo; mas refletiu que a sua amizade ao Matreiro e aos outros rapazes devia custar-lhe muito dinheiro. Oliver olhou para o judeu com ar respeitoso e perguntou se podia levantar-se.

— Pois não, amiguinho, pois não — respondeu o velho. — Olha, tens ali atrás da porta um cântaro d'água, vai buscá-lo, que eu te darei uma bacia para te lavares.

Oliver levantou-se, atravessou o quarto e abaixou-se para tirar o cântaro; quando se voltou a caixinha tinha desaparecido.

Mal acabara de se lavar e despejar a bacia pela janela por ordem do judeu quando viu entrar o Matreiro acompanhado por um jovem amigo que Oliver vira na véspera à noite ocupado em fumar e lhe fora apresentado com o nome de Carlinhos Bates. Depois sentaram-se todos à mesa; o almoço constava de café e uns pães pequenos, com presunto que o Matreiro trouxe no fundo do chapéu.

— Então — disse o judeu, dirigindo-se ao Matreiro e olhando maliciosamente para Oliver —, espero, meus amigos, que tenham trabalhado hoje alguma coisa.

— Muito.

— Sim — acrescentou Carlinhos Bates —, trabalhamos muito.

— Vocês são duas flores — disse o judeu. — Que trouxeste, Matreiro?

— Duas carteiras.

— Cheias? — perguntou o judeu com ansiedade.

— Têm alguma coisa — respondeu o Matreiro apresentando duas carteiras, uma verde e outra encarnada.

— Podiam ter mais alguma coisa — disse o judeu, depois de examinar o interior das carteiras. — Mas estão novas e são bem trabalhadas. Não é, Oliver?

— Sim, senhor — respondeu Oliver.

A resposta fez com que o Sr. Carlinhos Bates risse às gargalhadas, com grande admiração de Oliver, que não via ali motivo de riso.

— E tu que me trouxeste, meu amigo? — disse Fagin a Carlinhos Bates.

— Lenços — respondeu mestre Bates. E tirou quatro da algibeira.

— Bem — disse o judeu, examinando-os minuciosamente —, são excelentes; mas tu não os marcaste bem; é preciso tirar as marcas com uma agulha; ensinaremos a Oliver a desmarcar isto. Não é, Oliver?

— Como o senhor quiser — respondeu Oliver.

— Tu hás de querer trabalhar nos lenços como o Carlinhos, não?

— Com todo o gosto, se o senhor me ensinar.

Mestre Bates achou esta resposta tão engraçada que soltou uma nova gargalhada; mas como estava a beber café quase se engasgou.

— É tão inocente! — disse Bates apenas pôde falar, como para se desculpar da gargalhada.

O Matreiro não disse palavra; mas passou a mão pelos cabelos de Oliver, fê-los cair sobre os olhos e disse que aprenderia depressa.

O sujeito, vendo que Oliver ficara muito corado, mudou de conversa e perguntou se a execução que se fizera nessa manhã atraíra muita gente. Redobrou o pasmo de Oliver, porque da resposta dos dois rapazes concluiu que eles haviam assistido à execução e achava esquisito que tivessem tido tempo para fazer obras tão bonitas como as carteiras e os lenços.

Depois do almoço, o amável ancião e os dois pequenos entraram a fazer uma coisa curiosa e extravagante.

Aqui está o que era.

O judeu punha uma boceta em uma algibeira da calça, uma carteira na outra; na do colete um relógio preso a uma corrente que passava pelo pescoço; pôs na camisa um alfinete de pedra fingindo brilhante, abotoou a casaca até o pescoço e, pondo na algibeira de trás o lenço e a caixa dos óculos, entrou a passear de um lado para outro, com a sua bengala na mão, justamente como os nossos velhos passeiam na rua; ora parava diante do fogo e ora diante da porta, como se contemplasse atentamente os moradores das lojas. As vezes deixava à roda de si, olhos vigilantes como se receasse ladrões, e apalpava todas as algibeiras, uma após outra, para ver se não perdera nada, e tudo isso com um ar tão cômico e natural que Oliver ria às gargalhadas.

Os dois rapazes o acompanhavam de perto e de cada vez que ele se voltava escondiam-se com tanta habilidade que era impossível acompanhar os seus movimentos. Afinal, o Matreiro pisou-lhe nos pés, ao passo que o Carlinhos o empurrou por trás e, num fechar de olhos, boceta, carteira, relógio, corrente, alfinete, lenço de assoar, tudo, até a caixa dos óculos, desapareceu com extraordinária rapidez.

Quando o judeu sentia alguma mão em uma das algibeiras, dizia que algibeira era e a brincadeira recomeçava.

Depois de se repetir esta brincadeira muitas vezes, vieram duas moças ver os rapazes: chamava-se uma Betty e outra Nancy; tinham os cabelos bastos, mas não tratados, e os sapatos rotos; não se podia dizer que fossem bonitas; mas eram muito coradas e tinham no olhar muita resolução e descaramento. Como as maneiras delas fossem agradáveis e livres, julgou Oliver que deviam ser amáveis pessoas e não se enganava.

Durou muito a visita; uma delas queixou-se de ter o estômago gelado, veio licor, e a conversação tornou-se cada vez mais animada.

Afinal, o Carlinhos Bates declarou que era tempo de se pôr na pira e Oliver pensou que aquilo, em boa linguagem, queria dizer sair, porque o Matreiro, o Carlinhos e as duas moças saíram logo e o velho judeu teve a generosidade de lhes dar dinheiro para se divertirem.

— Não te parece agradável este viver? — disse Fagin a Oliver. —Todos eles têm agora o dia por seu.

— Já acabaram o trabalho? — perguntou Oliver.

— Já — disse o judeu. — Salvo se acharem alguma coisa que fazer no caminho; nesse caso, acredita que não ficarão ociosos. Imita-os, meu amigo, imita-os, faze tudo o que te disserem, obedece-lhes em tudo, principal-mente ao Matreiro. O Matreiro há de ser um grande homem, e tu podes seguir-lhe as pisadas. Dize cá, a ponta do meu lenço não aparece de fora do bolso?

— Sim, senhor — disse Oliver.

— Vê se o tiras sem que eu sinta, como eles faziam há pouco.

Oliver levantou com uma mão o fundo da algibeira como vira fazer o Matreiro e com a outra tirou o lenço.

— Tiraste? — perguntou o judeu.

— Aqui está — disse Oliver mostrando o lenço.

— És um bonito rapaz — disse o amável ancião, passando a mão por cima da cabeça de Oliver. — Eu nunca vi rapaz mais hábil do que tu; toma lá um shilling pelo teu trabalho; se continuares assim, hás de vir a ser o maior homem da época. Anda, vem aprender a desmarcar lenços.

Oliver perguntava-se com espanto que relação havia entre bifar por brincadeira o lenço do velho e a possibilidade de vir a ser um grande homem; mas pensou que o judeu, por ser mais velho, devia saber mais do que ele e foi entregar-se com ardor ao seu novo estudo.

CAPÍTULO X

OLIVER ESTREITA AS SUAS RELAÇÕES COM OS NOVOS AMIGOS E ADQUIRE EXPERIÊNCIA À SUA CUSTA. A PEQUENEZ DESTE CAPÍTULO NÃO IMPEDE QUE SEJA UM DOS MAIS IMPORTANTES DA HISTÓRIA DO NOSSO HERÓI.

Oliver passou muitos dias no quarto do judeu ocupado em desmarcar os lenços que chegavam em quantidade e em tomar parte na brincadeira que já descrevemos e que se repetia todas as manhãs entre o judeu e os dois discípulos.

Ao cabo de algum tempo, Oliver começou a suspirar pelo ar da rua e pediu muitas vezes ao judeu que o deixasse ir trabalhar fora com os seus companheiros.

Oliver estava tanto mais desejoso de trabalhar ativamente, quanto que já fazia idéia cabal da inflexível severidade do judeu. Cada vez que o Matreiro ou o Carlinhos Bates voltavam para casa, à noite, com as mãos abanando, proferia um longo e enérgico discurso acerca dos inconvenientes da preguiça e da ociosidade e, para melhor lhes gravar na memória a necessidade de serem ativos, mandava-os dormir sem ceia. Uma vez chegou a precipitá-los do alto da escada; mas eram raras as violências como esta.

Obteve Oliver a licença tão insistentemente solicitada; havia já três dias que não tivera lenços para desmarcar, e os jantares foram mesquinhos; estes motivos influíram talvez na decisão do velho judeu; fosse como fosse, ele disse a Oliver que podia sair e o pôs sob a guarda de Carlinhos Bates e seu amigo, o Matreiro.

Saíram os três: o Matreiro com as mangas arregaçadas e o chapéu de banda, como era costume; mestre Bates com as mãos nas algibeiras, e Oliver entre ambos perguntando a si mesmo onde iriam eles e que ramo de indústria tinha que aprender.

Caminhavam com um passo tão vagaroso, e uns ares de basbaques ociosos, que Oliver começou a crer que eles haviam saído para enganar o velho judeu, e não para trabalhar. O Matreiro tinha o mau costume de tirar os bonés das crianças que encontrava e deitá-los ao pátio que estivesse próximo; mestre Bates, pela sua parte, parecia ter uma noção imperfeitíssima do direito de propriedade; bifava as batatas e cebolas que encontrava nas casas de quitanda e metia-as na algibeira, as quais eram assaz largas e profundas.

Oliver achava tudo isto muito malfeito e estava prestes a dizê-lo e a voltar para casa, quando a sua atenção foi atraída para outro lado por causa de um movimento singular do Matreiro.

Vinham eles de uma passagem estreita a pouca distância de Clerkenwell, quando o Matreiro parou, pôs o dedo na boca e fez recuar os seus companheiros com a maior circunspecção.

— Que há? — perguntou Oliver.

— Sio! — disse o Matreiro. — Vês aquele patinho ali à porta do livreiro?

— Sim, vejo ali um senhor, do outro lado da rua — disse Oliver.

— Vamos pregar-lhe a peça — disse o Matreiro.

— Famoso achado! — acrescentou Carlinhos Bates.

Oliver contemplou-os com surpresa, mas não teve tempo de os interrogar, porque eles atravessaram a rua devagarinho e foram colocar-se por trás do sujeito. Oliver acompanhou-os a alguns passos de distância e, não sabendo se devia seguir ou recuar, parou e arregalou os olhos.

O velho tinha um aspecto respeitável; trazia óculos de ouro. Vestia uma casaca verde-garrafa, colete de veludo preto, calca branca e uma bengala de bambu debaixo do braço. Tirara da loja um livro e lia-o com tanta atenção como se estivesse em seu própriogabinete. É provável que imaginasse estar lá, pois era evidente que ele não via nem a cara do livreiro, nem a rua, nem os rapazes, nem o que quer que fosse, exceto o livro que ia lendo absorto, voltando as páginas com mais vivo interesse.

Quais não foram o horror e o medo de Oliver, colocado a alguns passos atrás, quando viu

o Matreiro mergulhar a mão na algibeira do velho, tirar um lenço, que deu a Carlinhos Bates, depois fugir com o seu companheiro pela esquina da rua!

Num rápido instante, a pobre criança compreendeu o mistério dos lenços, dos relógios, das jóias e da existência do judeu. Ficou dois segundos imóvel; fervia-lhe o sangue como se ele estivesse em um braseiro; assustado e confuso e, sem saber o que fazia, deitou a correr.

Mas no mesmo instante que ele corria, o velho procurou o lenço no bolso e, não o achando, voltou-se rapidamente. Quando viu a criança a correr, pensou naturalmente que era o ladrão, entrou a correr atrás dele, sem deixar o livro, e gritando:

— Pega ladrão! Pega ladrão!

Não foi o velho o único a gritar contra o ladrão. O Matreiro e mestre Bates, para não atrair a atenção, correndo, meteram-se do outro lado da esquina e apenas ouviram gritar pega ladrão e viram Oliver fugir, adivinharam o que se passava, voltaram à outra rua e, como bons cidadãos, gritaram igualmente:

— Pega ladrão! Pega ladrão!

Posto que Oliver tivesse sido educado por filósofos, não conhecia esta admirável máxima deles — que a conservação própria é a primeira lei da natureza; se a conhecesse talvez estivesse preparado para o que acontecera; mas, na sua ignorância, ficou mais assustado com os gritos, correu ainda mais, sempre perseguido pelo velho e pelos dois rapazes.

Pega ladrão! Neste grito há um quê de mágico; o negociante deixa o balcão e o carroceiro, a carroça; o carniceiro abandona o cepo, o padeiro, o cesto, o leiteiro, a celha,

o moço de recados, o embrulho, o menino de escola, os brinquedos, o calceteiro, a alavanca. Tudo corre em desordem, gritando, berrando, empurrando os que passam ao voltar às ruas, excitando os cães e assuntando as galinhas. Ruas, praças, becos, todas repetem o mesmo grito: pega ladrão! Cem vezes repetem esse grito, e o povo aumenta em cada canto. Vai seguindo sempre o mesmo povo, patinhando na lama ou batendo com os pés na calçada; abrem-se as janelas, sai gente das casas, todos se precipitam. Quem está no teatro de bonecos deixa Polichinelo e acompanha o povo, gritando todos:

pega ladrão!

Pega ladrão! O homem tem no coração a paixão enraizada de perseguir alguém. Uma infeliz criança ofegante de cansaço, semimorta de medo, com o rosto banhado de suor redobra os esforços para não ser pegada; mas todos correm mais, redobram os gritos, aumentam as vaias. Pega ladrão! Dizem todos com regozijo. Ah! Prendam a pobre criança quando não seja senão por piedade.

Está preso enfim. Bela proeza! Lá está o pobre menino estendido no chão, o povo à roda dele, lutam uns com os outros para verem melhor o criminoso.

— Dê lugar!

— Um pouco de ar!

— Não vale a pena!

— Onde está a pessoa roubada?

— Está aqui!

— Deixem passar este senhor!

— Será este o pequeno?

— É.

Oliver estava no chão, coberto de lama e poeira, deitando sangue pela boca, olhando com olhos pasmados para o povo, quando o velho apareceu e respondeu às perguntas que lhe faziam com ansiedade.

— Sim — disse ele —, receio que seja ele.

— Receia! — murmurou o povo. — Que bom coração.

— Coitadinho! Feriu-se!

— Não, senhor — diz um brutamontes. Fui eu que lhe despedi um soco, por sinal que os dentes dele me cortaram a mão; fui eu que o prendi.

Ao mesmo tempo levara a mão ao chapéu e sorria, esperando receber alguma coisa em paga do trabalho; mas o velho olhou para ele com asco e olhou à roda de si como se procurasse fugir daquele lugar; tê-lo-ia provavelmente feito e ocasionado assim nova perseguição, se um oficial de polícia, a última pessoa que aparece nestas ocasiões, não tivesse passado por entre o povo e pegado na gola de Oliver.

— Vamos, levante-se! — disse ele.

— Não fui eu, senhor; juro que não fui eu; foram os outros dois meninos; devem estar por aí.

Isto dizia Oliver torcendo as mãos com desespero.

— Oh! Não! Eles estão bem longe — dizia o agente que, supondo brincar, dizia a verdade; porque o Matreiro e Carlinhos Bates tinham seguido pela primeira rua.

— Não lhe faça mal — disse o velho compassivamente.

— Oh! Não se lhe faz mal — disse o agente (e como prova rasgou até o meio das costas o casaco de Oliver). — Anda, eu bem te conheço; a mim ninguém me embaça. Anda, levanta-te!

Oliver, que mal se podia suster, fez um esforço para se levantar, e o agente, com passo rápido, o arrastou pela gola pela rua adiante: o velho os acompanhava indo ao lado do oficial de polícia; muitas pessoas do povo tratavam de passar adiante e olhar para trás, a fim de ver Oliver; os garotos berravam alegremente e seguiam o cortejo.

CAPÍTULO XI

TRATA-SE DE UM SR. FANG, COMISSÁRIO DE POLÍCIA, E DÁ-SE UMA AMOSTRA DE SUA MANEIRA DE JULGAR.

O delito fora cometido no distrito e até na proximidade de uma estação central de polícia. O povo não teve pois por muito tempo o prazer de escoltar Oliver. Em Mutton Hill fizeram-no entrar por baixo de uma abóbada e daí a um pátio situado por trás do santuário da justiça sumária; aí encontraram um homem alto com um grande par de suíças na cara e um molho de chaves na mão.

— O que há de novo? — perguntou este com indiferença.

— É um ratoneiro — respondeu o agente que conduzia Oliver.

— O senhor é o roubado? — perguntou o homem das chaves.

— Sim, senhor — respondeu o velho —, mas eu não estou certo se foi esta criança que me tirou o lenço. Eu... preferia que o negócio não passasse daqui.

— É preciso ir ter com o juiz — respondeu o homem. — Não tarda que ele lhe possa falar. Por aqui, malvado! Pelintra!

Com estas palavras convidava Oliver a entrar em uma pequena cela, cuja porta havia aberto; Oliver foi examinado e, depois de se verificar que nada tinha consigo, foi metido na cela e fechado à chave.

O velho parecia quase tão consternado como Oliver quando a chave rangeu na porta e deitou suspirando os olhos ao livro, causa inocente de todo aquele barulho.

— Há no rosto daquela criança alguma coisa que me comove e interessa — dizia o velho consigo, esfregando o queixo com a lombada do livro. — Será ele inocente? Ele parece-se... Ora vejamos — continuou ele olhando para o ar. — Onde vi eu um rosto semelhante àquele?

Depois de alguns minutos de reflexão, o velho, sempre pensativo, entrou em uma pequena antecâmara que dava para o pátio; assentou-se a um canto e passou em revista uma chusma de caras em que não pensara desde muitos anos.

— Não — disse ele abanando a cabeça. — Há de ser um sonho de minha imaginação.

Volveu às suas recordações.

Não era fácil despedir depressa os rostos que tinha evocado; via rostos amigos e inimigos, outros quase desconhecidos; uns de moças frescas, outros de velhas fanadas; alguns que haviam perecido, mas que a memória aformoseava; via-os com aqueles olhos brilhantes, aqueles sorrisos divinos que fazem irradiar a alma para fora do invólucro terreno; rostos formosos que nos foram arrebatados para irem alumiar com sua branda luz a estrada que leva ao céu.

Mas em nenhum deles pôde achar as feições de Oliver. As recordações que evocara fizeram com que soltasse um profundo suspiro; mas como, felizmente para ele, era distraído, continuou a leitura e esqueceu o resto.

Foi arrancado à leitura pelo carcereiro, que lhe deu uma pancadinha no ombro e o convidou a que o acompanhasse. O velho fechou o livro e foi introduzido na sala onde funcionava o imponente e célebre Sr. Fang.

A sala da audiência dava para a rua; ao fundo estava sentado o Sr. Fang e perto da porta, em um banquinho, o pobre Oliver, apavorado com a gravidade da cena.

Era o Sr. Fang de estatura regular e quase calvo; os poucos cabelos que tinha cobriam-lhe a nuca e os lados da cabeça; a expressão de suas feições era dura e a tez, vermelha. Se, na realidade, ele não saía dos limites da sobriedade, podia intentar contra o seu rosto um processo de difamação e obter consideráveis perdas e danos.

O velho fez-lhe um respeitoso cumprimento e, aproximando-se da mesa, disse entregando-lhe o cartão:

— Eis o meu nome e a minha morada.

Depois deu dois ou três passos para trás e esperou que se lhe dirigisse a palavra.

Ora, aconteceu que o Sr. Fang estivesse justamente ocupado a ler um jornal da manhã, em que se dava notícia de uma sentença que ele proferira recentemente e em que se recomendava pela centésima vez à vigilância do ministro respectivo os atos de semelhante magistrado. Esta leitura pô-lo fora de si; levantou os olhos com furor.

— Quem é o senhor? — perguntou ele. O velho, surpreso com a pergunta, apontou para o cartão.

— Oficial de polícia, quem é este indivíduo? — disse o Sr. Fang, pondo desdenhosamente para o lado o cartão e o jornal.

— O meu nome — disse o velho com dignidade —, o meu nome é Brownlow; permita que eu pergunte agora o nome do magistrado que, protegido pela lei, insulta gratuitamente e sem nenhuma provocação um homem respeitável.

Ao mesmo tempo o senhor Brownlow parecia procurar com os olhos na sala alguém que lhe respondesse à pergunta.

— Oficial de polícia! — disse o Sr. Fang. — De que é acusado este indivíduo?

— Não é acusado de nada, Sr. juiz — respondeu o oficial. — Comparece como queixoso contra este pequeno.

O juiz sabia isso perfeitamente; mas era um bom meio de fazer picuinhas ao outro.

— Comparece contra este pequeno? — disse Fang olhando desdenhosamente para o Sr. Brownlow. — Faça-o prestar juramento.

— Antes de prestar juramento — disse o Sr. Brownlow —, deixe-me dizer uma palavra, é que se eu não fosse testemunha nunca poderia crer...

— Cale-se, senhor! — disse o Sr. Fang peremptoriamente.

— Não me calo — respondeu o Sr. Brownlow.

— Cale-se ou mando-o sair — disse o Sr. Fang. — Não seja insolente, não se atreva a afrontar um magistrado.

— Como assim! — exclamou o Sr. Brownlow, vermelho de cólera.

— Faça com que este homem preste o juramento! — disse o Sr. Fang ao escrivão. — Não quero ouvir mais uma palavra.

A indignação do Sr. Brownlow chegara ao cúmulo; mas ele refletiu que se se zangasse seria em prejuízo de Oliver; conteve-se e consentiu em prestar o juramento.

— Agora — disse o Sr. Fang —, de que é acusado o pequeno?

— Eu estava à porta de um livreiro... — começou o Sr. Brownlow.

— Cale-se, senhor! — disse o Sr. Fang. — Agente de polícia! Onde está o agente de polícia? Vamos, preste juramento. De que se trata?

O agente declarou em tom humilde que havia prendido o pequeno e que havia examinado as algibeiras sem lhe haver achado nada.

— Há testemunhas? — perguntou o Sr. Fang.

— Não, senhor juiz — disse o agente de polícia.

O Sr. Fang calou-se durante alguns minutos; depois voltando-se para o Sr. Brownlow, disse com voz irada:

— Quer ou não formular a sua queixa contra este pequeno? O senhor prestou juramento; se recusar a dar as provas, ficará punido por faltar ao respeito devido à magistratura; puni-lo-ei em nome de...

Nome de que ou de quem, ignora-se; por que o escrivão e o carcereiro tossiram alto nesse momento, e o primeiro deixou cair ao chão um grande livro; simples efeito do acaso para impedir que se ouvisse o fim da frase.

Apesar das interrupções e insultos da parte do Sr. Fang, o Sr. Brownlow conseguiu contar

o fato; observou que, na surpresa do momento, correra atrás do pequeno por ver que ele corria; acrescentou que, no caso em que o juiz considerasse Oliver não como ladrão, mas cúmplice de ladrão, o tratasse com a brandura que a lei comportava.

— Demais, o menino está ferido — disse ele terminando. — E eu receio que esteja realmente muito doente.

— Oh! Sem dúvida, isso não se pergunta — disse o Sr. Fang gracejando. — Vamos lá, vagabundo; deixa-te de fingimentos, que não valem nada. Como te chamas?

Oliver tentou responder, mas faltou-lhe a voz; estava pálido como a morte, e a sala andava-lhe à roda.

— Como te chamas, vagabundo? — disse o Sr. Fang com voz de trovão. — Oficial, como se chama este patife?

Eram estas palavras dirigidas a um sujeito gordo, com um colete riscado; o sujeito inclinou-se para Oliver e repetiu a pergunta, mas vendo que a criança não podia responder e que o silêncio exasperava o juiz e agravaria a sentença, respondeu:

— Diz que se chama Tom White.

— Recusa falar, não é? — disse o Sr. Fang. — Muito bem, muito bem. Onde mora?

— Onde pode — respondeu o oficial de polícia como se transmitisse a resposta de Oliver.

— Tem parentes? — perguntou o Sr. Fang.

— Diz que os perdeu desde a infância — respondeu o oficial, sempre do mesmo modo.

Estava nisto o interrogatório quando Oliver ergueu a cabeça e, deitando à volta de si olhares suplicantes, pediu com voz fraca um copo d'água.

— Fingimentos! — disse o Sr. Fang. — Não me pegar por aí.

— Eu creio que ele está seriamente doente — objetou o oficial de polícia.

— Eu bem sei o que faço — disse o Sr. Fang.

— Tome cuidado — disse o Sr. Brownlow ao agente, levantando as mãos instintivamente —, ele vai cair.

— Saia, oficial de polícia — disse o Sr. Fang com brutalidade. — Deixe o pequeno cair se tiver gosto nisso.

Oliver aproveitou aquela obsequiosa licença e caiu no chão. Perdera os sentidos. A gente do serviço não ousou socorrer a criança.

— Eu bem sabia que ele representava uma comédia, disse o Sr. Fang, como se a queda de Oliver fosse prova. — Deixem-no aí; ele se há de levantar.

— Que decide V.S.? — perguntou o escrivão em voz baixa.

— Condeno-o sumariamente a três meses de prisão — disse o Sr. Fang —, com trabalho, bem entendido. Façam evacuar a sala.

— Já se abria a porta e dois homens se preparam para conduzir Oliver à cela, quando um indivíduo de certa idade, não mal trajado, posto que a roupa fosse pobre, entrou na sala e aproximou-se da mesa do juiz.

— Suspendam! Suspendam! Não o levem; por amor de Deus, não o levem! — exclamava ele.

— Quem é este homem? Disse o Sr. Fang. — Mandem-no para fora; evacuem a sala.

— Quero falar — disse o homem. — Não quero sair. Eu vi tudo. Sou livreiro. Peço para prestar juramento. Não se me pode mandar embora. Há de ouvir-me, Sr. Fang. Não pode recusar.

O homem estava no seu direito. Tinha um ar resoluto, e a coisa ia ficando séria.

— Preste o juramento — respondeu o Sr. Fang. — Que quer dizer o senhor?

— Eu vi três rapazes — disse o livreiro —, o que está preso e mais dois. Um desses é que cometeu o roubo; vi o ato e vi também o espanto e admiração do pequeno que se acha preso.

Falando assim, o honesto livreiro tomou respiração e contou todas as circunstâncias do furto do lenço.

— Por que não veio há mais tempo?

— Não tinha quem me guardasse a loja.

— Este homem estava lendo? — disse o Sr. Fang.

— Sim — disse a testemunha, o livro que ainda tem na mão.

— Ah! Ah! Este livro — disse o Sr. Fang. — E tinha pago o livro?

— Ainda não — respondeu o livreiro rindo.

— Na verdade, esquece-me disso — disse ingenuamente o velho Brownlow.

— Belo acusador é o senhor, que vem aqui processar uma criança — disse Fang, fazendo esforços cômicos para tomar um ar de lástima. — O senhor apoderou-se deste livro por modo censurável, e muito feliz é que o livreiro o não acuse; sirva-lhe isto de lição. Absolvo o pequeno. Evacuem a sala.

— Não! Com os diabos! Eu quero!... — disse o Sr. Brownlow que fazia esforços para se conter.

— Evacuem a sala! — disse o juiz.

Executou-se a ordem.

O Sr. Brownlow saiu com o livro em uma das mãos, a bengala na outra, e extremamente colérico.

Chegou ao pátio e a cólera passou. O pequeno Oliver está no chão, com as fontes molhadas de água, pálido e trêmulo.

— Pobre criança! — disse o Sr. Brownlow baixando-se para Oliver. Vão buscar um carro depressa.

Veio o carro; Oliver foi posto dentro, e o Sr. Brownlow entrou também e sentou-se defronte de Oliver.

— Quer que eu o acompanhe? — perguntou o livreiro.

— Sim, meu amigo — disse o Sr. Brownlow. — Eu ia esquecendo outra vez. Suba. Pobre criança, não há tempo a perder!

O livreiro subiu e o carro saiu.

CAPÍTULO XII

OLIVER É TRATADO COMO NUNCA; NOVAS INFORMAÇÕES A RESPEITO DO AMÁVEL ANCIÃO E SEUS DISCÍPULOS.

Desceu o carro Mount Pleasant e subiu Exmouth Street, indo quase pelo mesmo caminho que Oliver seguiu no dia em que chegou a Londres em companhia do Matreiro. Chegando a Islington diante do hotel do Anjo, tomou outra direção e parou enfim diante de uma linda casa perto de Pentonville, em uma rua tranqüila e retirada.

Preparou-se logo uma cama onde o Sr. Brownlow deitou o jovem protegido.

Durante muitos dias o pobre Oliver ficou insensível a todos os cuidados de seus novos amigos; muitas vezes o sol nasceu e desapareceu, e a criança continuava deitada no leito de dores, ardendo em uma febre que o minava como o ácido sutil penetra e rói o ferro mais duro: fraco; pálido, magro, saiu enfim desse sonho penoso e prolongado.

Levantou-se com dificuldade, apoiou a cabeça no braço trêmulo e olhou assustado à roda de si.

— Onde estou? — perguntou ele.

Exausto como estava pela febre, proferiu estas palavras com uma voz fraca; mas foram logo ouvidas; abriram-se as cortinas da cama e uma senhora idosa, vestida com simplicidade e decência, levantou-se de uma cadeira, onde trabalhava, perto da cama.

— Não fale, meu filho — disse ela com doçura a Oliver. — É preciso ficar tranqüilo, senão volta-lhe a doença; você esteve muito mal; torna a deitar-te.

Ao mesmo tempo, pôs a cabeça de Oliver no travesseiro, levantou-lhe os cabelos que lhe caíam na testa e olhou para ele com um ar tão benévolo que ele não pôde deixar de pôr a sua mão descarnada na da velha e puxá-la para si.

— Meu Deus! O pobre pequeno tem boa alma! — dizia a velha com lágrimas nos olhos. — Pobre criança! Que emoção sentiria a mãe, se, depois de cuidar dele como eu fiz, o visse agora!

— Talvez ela me esteja vendo — disse Oliver juntando as mãos —, talvez estivesse aqui ao pé de mim; eu creio que esteve.

— Foi a febre que lhe deu essa idéia — disse a velha afetuosamente.

— É provável — disse Oliver pensativo. — O céu está tão longe e a felicidade lá é tanta que ninguém vem cá estar ao pé da cama de uma criança; mas se ela soube que eu estava doente, teve naturalmente pena de mim; ela sofreu tanto antes de morrer! Não, ela não pode saber o que me acontece — acrescentou Oliver depois de um silêncio —, porque se ela tivesse visto que me espancavam ficaria triste e nos meus sonhos sempre lhe vi o rosto risonho e feliz.

A velha não respondeu nada, mas enxugou os olhos e depois os óculos; deu a Oliver uma bebida refrigerante e passou-lhe afetuosamente a mão pela face, recomendando-lhe que tivesse juízo e estivesse sossegado, sem o que ficaria outra vez doente.

Oliver não se mexeu mais, não só porque queria obedecer à boa velha, como porque as poucas palavras que proferira lhe haviam esgotado as forças. Adormeceu suavemente e foi acordado pela luz de uma vela que, posta ao pé da cama, alumiou a figura de um sujeito que tinha um grande relógio na mão; o sujeito apalpou o pulso da criança e declarou que ia muito melhor.

— Está muito melhor, não, meu amigo? — disse ele a Oliver.

— Sim, senhor.

— Eu bem sabia que ia melhor — disse o sujeito. — Tem fome, não é?

— Não, senhor.

— O quê? — disse o médico. — Ah! Eu bem sabia que não tinha fome. Ele não tem fome, Sra. Bedwin — acrescentou o médico com ar sentencioso.

A velha fez um sinal de cabeça respeitoso, que parecia dizer que considerava o médico uma capacidade; este parecia ter igual opinião de si mesmo.

— Tem sono, não, meu amigo? — disse ele.

— Não, senhor.

— Não tem sono? — disse o doutor com ar satisfeito. — Aposto que também não tem sede?

— Tenho sim, senhor.

— É justamente o que eu esperava, Sra. Bedwin — disse o médico. — É natural que tenha sede, é natural; pode dar-lhe um pouco de chá e uma fatia de pão torrado, sem manteiga. Convém não lhe pôr muita roupa na cama; nem pouca. Quer ter esta bondade?

A velha fez um cumprimento, e o médico, depois de provar o remédio e louvar a qualidade dele, saiu como um homem apressado e desceu a escada fazendo rinchar os sapatos nos degraus com ar de importância.

Oliver adormeceu outra vez, e quando acordou era perto da meia-noite.

A velha deu-lhe as boas-noites e o confiou aos cuidados de uma criada gorda que acabava de entrar trazendo um livro de orações e uma grande carapuça. A dita criada pôs o livro na mesa e a carapuça na cabeça, disse a Oliver que ela velaria a noite e, sentando-se na cadeira, caiu em um semi-sono interrompido por sobressaltos; nessas ocasiões esfregava o nariz e continuava a cochilar.

A noite passou lentamente.

Oliver ficou algum tempo acordado, ocupado em contar os círculos luminosos que a lamparina projetava no teto ou em acompanhar com os olhos o desenho complicado do papel que forrava as paredes do quarto.

Aquela meia-luz e o profundo silêncio que reinava no quarto tinham um quê de imponentes, e faziam com que a criança pensasse na morte que durante muitos dias e noites pairara sobre ela; voltou-se na cama e fez uma fervente oração.

Depois dormiu.

Era já dia claro quando acordou; sentiu uma forte alegria; a crise estava passada e ele pertencia definitivamente a este mundo.

Ao cabo de três dias pode estender-se em uma chaise-longue bem forrada com travesseiros. Como era ainda muito fraco para andar, a Sra. Bedwin fê-lo transportar para baixo, no seu próprio quarto, pô-lo diante da lareira, assentou se ao pé dele e, no transporte de sua alegria, vendo-o sem perigo, entrou a soluçar.

— Não faça caso, amiguinho — disse a velha. — Eu não pude resistir; mas já acabou.

— A senhora é muito boa — disse Oliver.

— Não falemos disso, meu amigo — disse a velha. — Tratemos do seu caldo que são bons de tomar; o diretor disse que o Sr. Brownlow virá aqui ter com você hoje de manhã; é preciso ter boa cara, a fim de que ele fique mais contente.

Imediatamente a boa velha fez aquecer um caldo, tão gordo que daria para trezentos e cinqüenta pobres pelo menos, no asilo da mendicidade.

— Gosta de quadros? — perguntou a Sra. Bedwin, vendo Oliver contemplar atentamente um retrato pendurado na parede diante dele.

— Não sei — disse ele sem tirar os olhos do quadro. — Tenho visto tão poucos que não sei se gosto deles ou não. Como o rosto daquela moça é suave e belo! Parece-se com alguém?

— Sim — disse a velha, deixando de olhar para o caldo. — É um retrato.

— De quem? — perguntou Oliver muito depressa.

A velha respondeu alegremente:

— Não sei de quem é o retrato; não será de pessoa que eu ou você tenhamos conhecido. Parece que você está impressionado.

— É tão bonito! — disse Oliver.

— Não mete medo — disse a velha, observando com surpresa o ar de respeito com que a criança contemplava o retrato.

— Oh! Não, não — disse vivamente Oliver —, mas os olhos são tão tristes e estão tão cravados em mim. Bate-me o coração como se aquela moça quisesse falar-me e não pudesse.

— Jesus! Não diga essas coisas, meu amiguinho; você está fraco e nervoso; isso é efeito da moléstia. Deixe-me voltar-lhe a cadeira para outro lado, para que não veja o retrato; olhe, agora já o não pode ver.

Oliver via o retrato com os olhos do espírito tão distintamente como se não houvesse mudado de posição, mas receava importunar a boa velha; sorriu para ela quando ela olhou para ele, e a Sra. Bedwin, feliz por vê-lo mais tranqüilo, salgou o caldo e deitou-lhe alguns pedacinhos de pão torrado, com toda a seriedade que esta operação comporta. Oliver engoliu o caldo apressadamente e mal tinha tomado a última colherada quando ouviu bater devagarinho na porta.

— Entre — disse a velha.

Apareceu o Sr. Brownlow.

Caminhou apressadamente para Oliver; porém, mal tinha levantado os óculos e posto as mãos atrás das costas para contemplar Oliver, quando o rosto se lhe contraiu e mudou muitas vezes de expressão. Exausto pela moléstia, Oliver, querendo respeitar o seu benfeitor, fez um esforço para se levantar e caiu na cadeira; e o velho Sr. Brownlow, que tinha mais alma do que seis velhos juntos, sentiu rebentarem-lhe as lágrimas dos olhos com uma abundância que não explicarei por não ser assaz filósofo.

— Pobre criança! Pobre criança! — disse ele, procurando falar claro. — Estou hoje muito rouco, Sra. Bedwin, creio que apanhei um defluxo.

— Talvez não — disse —, toda a sua roupa está bem seca.

— Não sei, creio que a senhora ontem me deu um guardanapo úmido; mas não falemos mais nisto. Como vai o meu amiguinho?

— Estou satisfeito, senhor — disse Oliver — e muito grato pelo que o senhor me tem feito.

— Deu-lhe alguma coisa, Sra. Bedwin, um caldo?

— Tomou agora um excelente caldo — respondeu a Sra. Bedwin.

— Alguns copos de Porto seriam muito melhor — disse o Sr. Brownlow erguendo os ombros. Não acha, Tom White?

— Eu chamo-me Oliver — respondeu o enfermo admirado.

— Oliver? — disse o Sr. Brownlow. — Não é Tom White?

— Não, senhor, Oliver Twist.

— Singular nome — disse o velho. Por que razão disse ao juiz que se chamava White?

— Eu nunca disse isso — respondeu Oliver. Isto tinha ares tão de mentira que o Sr. Brownlow lançou ao pequeno um olhar severo;

mas não era possível duvidar da palavra dele; o caráter da verdade estava impresso em todas as feições de Oliver.

— Foi engano, naturalmente — disse o Sr. Brownlow.

Mas, posto que já não houvesse motivo para encarar fixamente a criança, voltou-lhe ao espírito a semelhança de Oliver com um rosto conhecido e não pôde tirar os olhos do menino.

— Espero que não esteja zangado comigo — disse Oliver com olhos suplicantes.

—Não, não — disse o velho. — Céus! Que vejo! Sra. Bedwin, olhe, olhe.

E falando assim apontava com o dedo o retrato colocado por cima da cabeça de Oliver e depois o rosto do pequeno; era a cópia viva do retrato; os mesmos olhos, a mesma boca, as mesmas feições. Neste momento a semelhança era tal que todas as linhas do rosto pareciam reproduzidas com maravilhosa precisão.

Oliver ignorava a causa da exclamação súbita; não era tão forte a comoção que ela lhe produziu e desmaiou.

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Quando o Matreiro e seu digno camarada, mestre Bates, depois de se apropriarem ilegalmente do lenço do Sr. Brownlow, se juntaram ao povo que perseguia Oliver, como dissemos, obedeceram a um sentimento louvável e meritório, o de salvarem a respectiva pele. Como o respeito de liberdade individual é um dos privilégios de que mais se desvanece o cidadão inglês, cuido que não será preciso observar que a fuga dos nossos jovens ratoneiros deve dar-lhes relevo no espírito dos patriotas sinceros.

A prova de que eles andaram como verdadeiros filósofos é que, apenas a atenção geral se fixou toda sobre Oliver, deixaram eles de o perseguir e voltaram para casa pelo caminho mais curto.

Depois de percorrerem a toda a pressa um dédalo de ruas e becos, pararam de comum acordo, e apenas mestre Bates pôde respirar, soltou um grito de alegria e uma tal gargalhada que caiu.

— Por que te ris assim? — perguntou o Matreiro.

—Ah! Ah! Ah!

— Não faça barulho — observou o Matreiro lançando à volta de si um olhar assustado. — Queres ser filado, animal?

— Não posso, não posso — disse Carlinhos. — Como ele corria, enfiando ruas e ruas, esbarrando nas paredes, e eu cá com o lenço no bolso, a gritar: pega ladrão! Não posso!

A viva imaginação do mestre Bates reproduziu aquela cena com ares tão cômicos que ele continuou a rir e a rolar no chão.

— Que dirá Fagin? — perguntou o Matreiro, aproveitando um instante em que Bates tomava fôlego.

— O que é? — disse Carlinhos.

— Sim, que dirá ele?

— Que poderá dizer? — perguntou Carlinhos, suspendendo o acesso de hilaridade, porque

o tom do Matreiro era sério. — Que poderá dizer?

A única resposta que lhe deu o Sr. Dawkins (o Matreiro) foi assobiar, tirar o chapéu, sacudir a cabeça e coçar a orelha.

— Que quer dizer com isso? — perguntou-lhe Carlinhos.

— La, ra, ra, la, ra, ra — respondeu o Matreiro.

— Era uma explicação; mas pouco satisfatória. Mestre Bates repetiu a pergunta:

— Que significa isso?

O Matreiro não respondeu, mas pôs o chapéu, levantou a aba da casaca, fez com a língua uma bola na face, beliscou a ponta do nariz, muitas vezes, voltou as costas e entrou no pátio da casa.

Mestre Bates foi atrás dele com ar pensativo.

Alguns instantes depois desta conversa, o amabilíssimo ancião prestava ouvidos para ver se ouvia rumor de passos na velha escada.

Estava ele assentado perto do fogão, diante de uma caçarola, tratando de fazer comida e tendo uma faca na mão.

Horrível sorriso lhe passou pelo rosto lívido, quando se voltou para escutar, inclinando o ouvido para a porta e volvendo os olhos ferozes por baixo das sobrancelhas vermelhas.

— Quem é? — disse ele mudando de cara. — São apenas dois. Aconteceria alguma coisa? Atenção. Os passos se aproximaram e foram ouvidos mais perto. Abriu-se a porta lentamente.

Entraram o Matreiro e Carlinhos e fecharam a porta. Oliver não vinha com eles.

CAPÍTULO XIII

APRESENTAÇÃO DE ALGUNS PERSONAGENS NOVOS QUE NÃO SÃO ESTRANHOS A CERTOS PARTICULARES INTERESSANTES DESTA HISTÓRIA.

— Onde está Oliver? — disse o judeu com furor e ameaça. — Que é feito dele?

Os jovens ratoneiros olharam para o patrão com ar de medo; depois olharam um para o outro com ar de atrapalhação e não disseram palavra.

— Que é feito de Oliver? — disse o judeu, segurando o Matreiro pela gola e ameaçando-o com horríveis imprecações. — Fala ou eu te esgano!

Fagin dizia isto com um modo tão sério que o Carlinhos Bates, já posto de longe por causa das dúvidas, e receando que também ele fosse esganado, ajoelhou e soltou um grito agudo e prolongado, combinação do urro de um touro e do som de uma trombeta.

— Não falarás, demônio? — disse o judeu com voz de trovão, sacudindo o Matreiro com

força tal que era de admirar não lhe rasgasse a casaca.

— Caiu na ratoeira — disse o Matreiro. — Faça o favor de me deixar em paz.

E com um só movimento fugiu às mãos do velho, segurou num garfo e apontou para o colete do amável ancião um golpe tal que se fosse despedido lhe faria perder a alegria por um ou dois meses, ou talvez mais.

Nesta ocorrência, o judeu recuou com mais agilidade do que era de esperar de um velho e, travando de uma caneca de estanho, já se preparava para a atirar à cara do adversário; mas o Carlinhos Bates atraiu a sua atenção com um berro e foi à cabeça dele que a caneca se dirigiu.

— Que terremoto é este? — murmurou de repente uma voz grossa. — Quem diabo me atirou isto à cara? Muito feliz fui em só me cair a cerveja, e não a caneca, sem o que teria pano para mangas. Nunca pensei que um velhaco judeu pudesse deitar outra coisa que não água, e ainda assim só com a intenção de defraudar a companhia das águas filtradas. Que há por cá, Fagin? Diabo! A minha gravata está cheia de cerveja... Entra, animal! Que fazes lá fora? Entra!

O homem que assim falava era um sólido rapagão de 35 anos, vestido de paletó de veludo grosso, calções pardos, meias azuis, escondendo pernas roliças e cheias, pernas que parecem incompletas quando não trazem alguma corrente. Trazia um chapéu escuro e à roda do pescoço um lenço velho, com cujas pontas enxugava a cara; quando acabou de enxugar deixou ver uma cara vulgar, barba por fazer, dois olhos sinistros, um dos quais tinha sinais de murro recente.

— Vem cá! — gritou o bandido.

Um cão, com a cara ferida em vinte lugares, entrou rastejando no quarto.

— Anda depressa. Tens vergonha de me obedecer à vista de gente? Deita-te: bota abaixo.

Esta ordem foi acompanhada de um pontapé que deitou o cão para o outro lado do quarto. O cão parecia acostumado a este tratamento; encolheu-se tranqüilamente no canto, sem soltar um grito, fechando e abrindo os olhos, vinte vezes por minuto, parecendo fazer a inspeção do quarto.

— Com quem estavas brigando? — disse o homem, assentando-se com ar resoluto. — Maltratas as crianças, velho avarento? Admira-me que eles te não dêem cabo da pele; no lugar deles já eu tinha feito isso. Se eu tivesse sido teu discípulo, há muito que essa farsa estaria representada e... Mas não; nem poderia vender a tua pele; quando muito meterte-ia numa garrafa para mostrar-te como um prodígio de fealdade; mas não há garrafas tamanhas.

— Sio, sio, Sr. Sikes — disse o judeu tremendo. — Não fale tão alto.

— Não me chames senhor — respondeu o bandido. — É sinal de que tramas alguma coisa. Sabes o meu nome, não? Eu não o desonrei nunca.

— Está bom, Guilherme Sikes — disse o judeu com humildade abjeta. — Pareces estar de mau humor.

— Talvez — respondeu Sikes. — Parece-me que tu também estás fora dos eixos, quando atiras canecas de cerveja à cara dos outros, salvo se se trata de coisa pior que ir dar uma denúncia de ti, e...

— Estás louco? — disse o judeu, puxando o homem pela manga e apontando para os rapazes.

O Sr. Sikes contentou-se em fazer um laço de corda e inclinou a cabeça sobre o ombro direito, pantomima que o judeu pareceu compreender perfeitamente.

Depois em termos de gíria, que usava muito, mas que é inútil citar porque seriam ininteligíveis ao leitor, pediu um copo de licor.

— Mas não ponhas veneno — acrescentou ele, pondo o chapéu na mesa.

Dizia isto brincando; mas se pudesse ver o judeu morder os lábios com um infernal sorriso, dirigindo-se para o bufê, pensaria que a precaução não era inútil e que o amável ancião podia ceder à vontade de aperfeiçoar a indústria do destilador.

Depois de ter engolido dois ou três copos de licor, o Sr. Sikes teve a bondade de prestar atenção aos jovens aprendizes; e esta amabilidade produziu uma conversa em que se falou da causa e das circunstâncias da prisão de Oliver com a modificação e ornatos que

o Matreiro julgou oportuno fazer.

— Tenho medo que ele dê com a língua nos dentes e nos ponha em apuros.

— É provável — disse Sikes com um sorriso malicioso. — Ficas em bons lençóis, Fagin.

— E tenho medo — acrescentou o judeu, sem dar atenção à interrupção e olhando para o seu interlocutor fixamente —, tenho medo que, se a dança começar por nós, chegue também a outros; meu caro, a tua posição é pior do que a minha.

O homem estremeceu e voltou-se para o judeu com ar ameaçador; mas este abaixou a cabeça e seus olhos erraram ao acaso no muro colocado em frente dele.

Houve um longo silêncio; cada um dos membros daquela respeitável associação parecia absorvido por suas próprias reflexões, sem excetuar o cão, que parecia meditar um ataque às pernas da primeira pessoa que entrasse da rua.

— É preciso que alguém vá à estação policial saber o que houve — disse o Sr. Sikes, em voz mais baixa do que a que usara até então.

O judeu fez um sinal de assentimento.

— Se ele não falou e está preso, não há que recear até que seja solto — disse o Sr, Sikes

— e então veremos. É necessário descobrir-lhe o rasto seja como for.

O judeu fez um novo sinal de assentimento.

Se ele não falou era evidentemente o melhor; mas infelizmente um grave obstáculo se apresentava; esse obstáculo era profunda antipatia que o Matreiro, Carlinhos Bates, Fagin e Guilherme Sikes votavam à polícia, e a repulsão que sentiam em ir andar nos arredores dela, qualquer que fosse o motivo.

Seria difícil dizer quanto tempo ficaram sem falar, a olharem uns para os outros, num estado de indecisão desagradável; mas a chegada de duas moças, que já haviam aparecido quando Oliver ali estava, fez com que se continuasse a conversa.

— Está a coisa arranjada — disse o judeu. — Betty irá; não é, querida?

— Aonde? — perguntou a moça.

— À polícia, queridinha — disse o judeu com voz macia.

Cumpre fazer justiça à moça; ela não recusou positivamente ir à polícia; limitou-se a declarar que preferia ir ao diabo; maneira polida e delicada de iludir a questão e que mostra aquele sentimento delicado das conveniências que faz com que evitemos contrariar o nosso próximo com uma recusa direta e formal.

O judeu franziu a cara; não se dirigiu mais a Betty, que trazia um esplêndido vestuário, vestido encarnado, botinas verdes e papelotes amarelos, mas à sua companheira.

— E você, Nancy? — disse ele. — Que diz você?

— Não me cheira — respondeu ela. — Não insista, que é inútil.

— Que quer dizer isso? — disse o Sr. Sikes, olhando para ela com ar sombrio.

— Isto mesmo, Guilherme — respondeu tranqüilamente a moça.

— E tu és justamente a pessoa que desejamos — disse Sikes. — Ninguém te conhece no bairro.

— E como eu não me preocupo que me conheçam ou não — disse Nancy com a mesma calma —, recuso.

— Ela há de ir, Fagin — disse Sikes.

— Não — disse Nancy.

— Sim, há de ir — repetiu Sikes.

O Sr. Sikes tinha razão.

À força de ameaças, promessas, carícias, Nancy consentiu em se encarregar da comissão.

Demais, ela não tinha as mesmas considerações da companheira, porque, tendo deixado pouco antes o arrabalde afastado mas elegante de Retclife, para vir habitar os arredores de Fieldlane, não tinha como Betty receio de ser encontrada por alguns dos seus numerosos conhecidos.

Em conseqüência, depois de atar à cintura um avental branco, e metidos os papelotes debaixo de um chapéu de palha, artigos de toalete do inesgotável armazém do judeu, declarou-se pronta Nancy para desempenhar sua missão.

— Espera — disse o judeu, dando-lhe um cestinho. — Leva isto na mão; é para teres um ar mais respeitável.

— Dê-lhe também uma chave, Fagin — disse Sikes. — E mais natural.

— Sim, sim, tem razão — disse o judeu pondo no dedo da moça uma grande chave. — Está perfeita. É soberbo!

— Oh! Meu irmão! Meu querido irmão! — exclamou Nancy, fingindo lágrimas e desespero —, que é feito dele? Oh! Meus senhores, por favor, tenham pena de mim! Digam-me onde pára o meu irmão! Eu lhes suplico meus senhores.

Depois de proferir estas palavras com voz lamentosa e dilacerante a grande aprazimento dos assistentes, Nancy calou-se, piscou o olho, cumprimentou os outros e saiu.

— Boa rapariga — disse o judeu, falando aos rapazes e sacudindo gravemente a cabeça como para os animar a seguir o exemplo.

— Faz honra ao seu sexo — disse Sikes, enchendo o copo e dando um murro na mesa. — A saúde de Nancy!

Enquanto todos elogiam Nancy, a pérola das mulheres, chegou esta à estação da polícia sã e salva, não sem sentir aquele sentimento de timidez natural de uma mulher que se acha nas ruas só e sem proteção.

Entrou por trás, bateu levemente em uma das células e escutou. Nada ouviu; tossiu; nada.

— Oliver — disse ela.

Na célula havia um miserável vagabundo que fora preso por ter cometido o crime de tocar flauta sem licença e que, provado o seu atentado, fora condenado pelo Sr. Fang a um mês de prisão; o Sr. Fang fez esta observação jocosa e apropriada: disse que se ele tinha bons pulmões seria mais justo empregá-los em trabalhar no moinho da prisão que em tocar flauta.

O preso não ouviu.

Nancy passou a outra célula.

— Quem é? — disse uma voz trêmula e fraca.

Está ai um menino?

— Não — disse a voz.

Aquele que falava assim era um vagabundo de 65 anos que fora preso por não ter tocado flauta, isto é, por andar esmolando em vez de ganhar a vida. Na terceira célula havia outro indivíduo, condenado por ter vendido caçarolas sem licença e por conseqüência em detrimento do fisco.

Como nenhum, dos indivíduos respondia ao nome de Oliver, nem podia dar notícias dele, Nancy foi direito ao agente de polícia do colete riscado de que já falamos e, entre soluços e lamentações, reclamou o seu querido irmão.

— Não está aqui — disse o agente.

— Onde está?

— O sujeito levou-o.

— Que sujeito? Oh! Meu Deus! Meu Deus! Que sujeito?

Para responder a estas perguntas incoerentes, o agente explicou que Oliver desmaiara na polícia, fora absolvido, por se ter provado que outrem cometera o roubo, graças a uma testemunha, e que fora levado sem sentidos pelo queixoso para a casa deste, que devia ser do lado de Pentonville.

A moça, em um estado horrível de ansiedade, saiu cambaleando. Apenas se achou na rua, apressou o passo e voltou à casa do judeu pelo caminho mais desviado.

O Sr. Guilherme Sikes apenas soube o resultado da comissão de Nancy, chamou o cão, pôs o chapéu e saiu precipitadamente sem perder tempo em se despedir dos demais.

— É mister saber onde ele está, meus amigos — disse Fagin comovido. — Carlinhos, vai ver se descobres alguma coisa e traze-me notícias. Nancy, é preciso achar Oliver; entrego-me a você e ao Matreiro. Esperem — disse ele, abrindo uma gaveta com as mãos trêmulas. — Aqui tem dinheiro. Hoje de noite fecho a porta; já sabem onde me hão de encontrar; não percam um instante, meus amigos.

Falando assim, conduziu-os o judeu até a escada; depois fechou a porta e tirou do esconderijo o cofre que involuntariamente descobrira a Oliver e escondeu precipitadamente na roupa os relógios e as jóias.

No meio desta ocupação ouviu bater à porta.

— Quem é? — disse ele com medo.

— Sou eu — respondeu o Matreiro pelo buraco da fechadura.

— Que há? — disse o judeu.

— Nancy pergunta se o deve levar a outra casa — perguntou o Matreiro.

— Sim — respondeu o judeu —, descubram-no! É importante. Eu saberei depois o que devo fazer.

O Matreiro murmurou algumas palavras mais e desceu da escada para ir ter com os seus companheiros.

— Até agora ainda ele não falou — disse consigo o judeu. — Se tiver intenção de nos descobrir, há tempo de lhe cortar a língua.

CAPÍTULO XIV

PROFECIA DE UM CERTO SR. GRIMWIG A RESPEITO DE OLIVER NA OCASIÃO EM QUE ELE FOI DAR UM RECADO.

Oliver voltou a si do desmaio que lhe causara a súbita exclamação do Sr. Brownlow; este e a Sra. Bedwin entraram cuidadosamente a falar do retrato, e a conversa não versou mais da história e do futuro de Oliver, mas de coisas próprias para o distraírem.

Ele estava fraco; não se podia levantar para o almoço; mas quando desceu no dia seguinte ao quarto da criada gorda deitou um rápido olhar para a parede com a esperança de lá ver o retrato da bela moça.

O retrato desaparecera.

— Ah! — disse a Sra. Bedwin, notando o olhar de Oliver. — O retrato já não está aqui. —Bem vejo — respondeu Oliver suspirando. —Por que razão o tiraram?

— O Sr. Brownlow disse que a vista deste retrato parecia incomodá-lo e demoraria a sua cura.

— Oh! Não, não me incomodava. Eu gostava tanto dele!

— Ora! — disse a velha. — Fique bom e o retrato virá para o seu lugar; falemos agora de outra coisa.

Não se falou do retrato. A velha contou a Oliver uma longa série de histórias a respeito de um filho e uma irmã que tinha, e depois do marido, até que veio o chá. Depois do chá ela lhe ensinou o cribbage (espécie de jogo de cartas), jogaram ambos, até que o doente tomou um pouco de vinho quente e foi dormir.

Felizes dias foram os da convalescença de Oliver; tudo à roda dele era tranqüilo; e tais eram a afeição e bondade que lhe manifestavam, depois da vida agitada e ruidosa que ele até então tivera, que Oliver supunha estar num paraíso.

Apenas teve forças para se vestir deu-lhe o Sr. Brownlow roupa nova, boné e sapatos.

Disseram-lhe que podia dispor da sua roupa velha; ele a deu a uma criada, que tratara dele com muita solicitude, dizendo que a vendesse a algum judeu e guardasse o dinheiro. Ela não esperou que dissesse outra vez, e Oliver, vendo da janela da sala o judeu enrolar as roupas, metê-las no saco e ir-se embora, sentiu uma grande alegria pensando em que nunca mais as veria. Na verdade, eram uns pobres molambos, e Oliver nunca tinha vestido roupa nova.

Oito dias depois do incidente do retrato, estava ele conversando com a Sra. Bedwin quando o Sr. Brownlow mandou dizer que, se Oliver Twist estava bom, fosse conversar com ele no gabinete.

— Meu Deus! Lave as mãos e deixe-me pentear-lhe os cabelos — disse a Sra. Bedwin. — Se eu soubesse que ele o mandaria chamar tinha-lhe posto um colarinho novo; tinha-o posto belo como um astro.

Oliver obedeceu à velha, e esta achou-o tão galante contemplando-o da cabeça aos pés que chegou a dizer que ele não precisava de nenhum enfeite mais.

Oliver foi bater à porta do gabinete e, quando o Sr. Brownlow disse que entrasse, achou-se em uma pequena saleta cheia de livros, dando uma janela para o jardim. Perto da janela havia uma mesa, ao pé da qual se achava o Sr. Brownlow assentado e lendo.

Vendo Oliver deixou ele o livro e disse à criança que se sentasse perto da mesa. Oliver obedeceu admirando-se que pudesse haver quem lesse tantos volumes, escritos, segundo parecia, para tornar o mundo mais sábio; objeto de espanto continuado para pessoas mais experimentadas que Oliver Twist.

— São muitos livros, não? — perguntou o Sr. Brownlow, observando a curiosidade de Oliver a olhar para as estantes.

— Sim, senhor, muitos — disse Oliver — , nunca vi tantos livros assim.

— Há de lê-los — disse o Sr. Brownlow com bondade — e há de achar mais gosto do que em ver a encadernação; nem sempre, porque há livros cujo valor está todo na capa.

— São talvez aqueles livros grossos — disse Oliver apontando para uns in quarto de encadernação dourada.

— Nem sempre — disse o velho sorrindo. — Há alguns que são muito pesados posto sejam de pequeno formato. Você quer escrever livros?

— Creio que os prefiro ler — disse Oliver.

— Como! — disse o Sr. Brownlow. — Não queria ser autor?

Oliver refletiu um pouco e acabou dizendo que achava melhor ser livreiro. O velho riu muito e disse que a resposta era excelente; o que alegrou Oliver, que se não supunha tão engraçado.

— Descanse — disse o Sr. Brownlow, voltando ao tom sério. — Você não será autor enquanto puder aprender outro oficio, ainda que seja o mais ínfimo.

— Obrigado — disse Oliver.

E a resposta viva de Oliver fez com que o velho se risse muito e dissesse entre os dentes alguma coisa a respeito do instinto; Oliver não deu grande atenção, porque não compreendeu nada.

— Agora — disse o Sr. Brownlow com um tom mais benévolo que nunca, mas ao mesmo tempo mais sério. — Agora peço que preste atenção ao que lhe vou dizer. Vou falar com

franqueza, porque me parece que você pode compreender-me como outras pessoas de mais idade.

— Oh! Senhor eu lhe peço, não me diga que me vai mandar embora — exclamou Oliver, assustado com o tom sério de seu protetor. — Não me ponha outra vez na rua. Deixe-me ficar aqui para o servir. Não me mande ao infame covil donde saí. Não me mande ao infame covil! Tenha piedade de uma pobre criança.

— Meu caro filho — disse o Sr. Brownlow —, não receie que eu mande embora salvo se me obrigar a isso.

— Nunca, nunca.

— Espero-o — disse o velho. — Estou persuadido de que nunca me obrigará a isso. Posto que eu tenha experimentado decepções da parte das pessoas a quem tenho feito bem, estou contudo disposto a ter confiança em você e interesso-me mais do que posso exprimir. As pessoas a quem eu mais estimei estão longe, mortas; mas, posto que elas levassem consigo o encanto e a ventura de minha vida, não fiz de meu coração um féretro e não o fechei para sempre às comoções suaves e boas; uma aflição profunda fez com que eu as tivesse mais fortes; e assim devia ser sempre, porque a desgraça purifica

o nosso coração.

O velho, depois de proferir outras palavras em voz baixa, como se falasse a si mesmo, calou-se alguns instantes, enquanto Oliver, imóvel em sua cadeira, mal ousava respirar.

— Se lhe falo assim — disse o Sr. Brownlow com um tom mais alegre — é porque o seu coração é jovem e, sabendo que eu sofri grandes amargores talvez você evite renová-los. Diz que é órfão e não tem um amigo no mundo. As informações que obtive confirmam esta asserção. Conte-me a sua história; diga-me de onde veio, quem o criou e como se achava com as pessoas com quem o achei. Esteja certo de que enquanto eu viver não deixará de ter um amigo.

Durante alguns instantes os soluços impediram a fala de Oliver; ia ele contar como havia sido criado e levado ao depósito de mendicidade pelo Sr. Bumble, quando duas grandes pancadas, dadas por mão impaciente, soaram na porta da rua. Entrou um criado e anunciou o Sr. Grimwig.

— Vem subindo? — perguntou o Sr. Brownlow.

— Sim, senhor — disse o criado. — Perguntou se havia muffins (doces para tomar com chá) e como eu lhe disse que sim, disse que vinha tomar chá.

O Sr. Brownlow sorriu e, voltando-se para Oliver, disse-lhe que o Sr. Grimwig era um de seus velhos amigos e que não reparasse nas maneiras dele, porque era um homem digno.

— Devo ir embora? — perguntou Oliver.

— Não — respondeu o Sr. Brownlow. — Prefiro que fique aqui.

Neste momento entrou um velho, de bela corpulência, apoiando-se em uma grossa bengala; coxeava de uma perna, trazia casaca azul, colete riscado, calças e polainas e um chapéu de abas largas. Uma larga cadeia de aço, na ponta da qual só havia uma chave, pendia da algibeira do colete. As duas pontas da gravata branca estavam atadas em um laço do tamanho de uma laranja; tinha o aspecto nobre. Quando falava, voltava a cabeça ao lado e olhava com o rabo do olho, o que lhe dava certos ares de papagaio. Foi nesta atitude que ele entrou na sala; e tendo na mão um pedacinho de casca de laranja exclamou com mau humor:

— Olha; não é estranho e prodigioso que eu não possa entrar em casa de alguém sem

achar um pedaço de casca de laranja, que faz a fortuna dos cirurgiões? Foi uma casca de laranja que me fez coxo e estou certo de que há de ser um pedaço de casca de laranja a causa da minha morte. Sim, hei-de morrer de uma casca de laranja; comerei eu a minha cabeça se não for assim!

Esta última expressão era peculiar na boca do Sr. Grimwig quando queria dar peso às suas asserções; e o que havia de extravagante e singular nessa expressão na boca dele é que, admitindo que a ciência se aperfeiçoe a ponto de fazer com que um indivíduo coma a sua própria cabeça, a do Sr. Grimwig era de tamanho tal que não era possível comê-la de uma vez.

— Sim, senhor — repetiu o Sr. Grimwig, batendo com a bengala no assoalho. — Coma eu a minha cabeça! Que é isto? — acrescentou ele vendo Oliver e recuando dois passos.

— É o jovem Oliver Twist, de quem lhe falei — disse o Sr. Brownlow. Oliver fez uma cortesia.

— Espero que não seja o rapaz que esteve com febre — disse o Sr. Grimwig recuando mais. — Aposto — continuou ele —, aposto que foi este pequeno quem comeu a laranja e deixou a casca na escada. Coma eu a minha cabeça e a dele ao mesmo tempo!

— Não, não foi ele — disse o Sr. Brownlow, rindo. — Ande, descanse o chapéu e fale ao meu jovem amigo.

O Sr. Grimwig deixou a bengala, descalçou as luvas, assentou-se, pôs a luneta e contemplou Oliver.

— Este é o rapaz de quem você me falou? — disse ele.

—É — respondeu o Sr. Brownlow, fazendo a Oliver um sinal de cabeça.

— Como vai, pequeno? — disse o Sr. Grimwig.

— Vou melhor, obrigado — respondeu Oliver.

O Sr. Brownlow, receando provavelmente que o seu fantástico amigo acrescentasse alguma palavra desagradável, disse a Oliver que fosse abaixo dizer à Sra. Bedwin que mandasse o chá. Oliver, que não estava muito namorado das maneiras do Sr. Grimwig, aproveitou a ocasião e desceu.

— É um bonito menino, não lhe parece? — disse o Sr. Brownlow.

— Não sei — disse o Sr. Grimwig em tom zangado.

— Que é isso?

— Não sei; para mim todas as crianças se parecem; só conheço duas espécies de meninos: os gorduchos e os magricelas.

— E em que classe põe Oliver?

— Na dos magricelas. Um amigo meu tinha um filho gorducho; chamam aquilo um menino bonito. Bonito! Uma cabeça redonda, faces vermelhas e olhos de fogo. É antes horrível; parece que está a rasgar a roupa pelas costuras. Tem uma voz de piloto e uma fome de lobo; eu bem o conheço!

— Bem — disse o Sr. Brownlow —, não é esse o tipo do jovem Oliver Twist; por isso não há de que se zangar.

— É verdade, mas este cá não vale mais que o outro.

O Sr. Brownlow sorriu com ar de zanga, o que alegrou sumamente o Sr. Grimwig.

— Sim — dizia este —, não vale mais que o outro. Quem é ele? De onde veio?... Teve febre e que tem isso?... Só a gente honesta é que tem febre? Os ratoneiros também têm essa febre... Eu conheci um indivíduo que foi enforcado na Jamaica por ter assassinado o patrão, que teve febre durante seis meses; pensa você que lhe perdoaram o crime por isso? Histórias da carochinha!

O Sr. Grimwig estava perfeitamente convencido de que a presença de Oliver falava em seu favor; mas ele tinha a mania de contradizer os outros, e agora mais que nunca, pois tinha achado uma casca de laranja na escada. Resolvido a não se deixar influir por ninguém para julgar se uma criança tinha ar de velhaco ou não, estava disposto a contradizer o amigo. Quando o Sr. Brownlow lhe disse que nada sabia da vida de Oliver, pois este devia contá-la apenas estivesse restabelecido, o Sr. Grimwig fingiu um ar sonso e maligno e perguntou com ironia se a governanta tinha o costume de contar a prata à noite, porque se um belo dia ela achasse uma ou duas colheres de menos ele era capaz de comer a sua... etc.

O Sr. Brownlow, posto fosse de um caráter ardente, suportou tudo a rir, pois conhecia as extravagâncias do amigo.

De sua parte, o Sr. Grimwig teve a complacência de achar os muffins excelentes, e tudo correu bem. Oliver que tomara chá com eles, começou a achar-se mais a gosto em presença do terrível sujeito.

— E quando teremos a narração completa, minuciosa e verídica da vida e das aventuras de Oliver Twist? — perguntou o Sr. Grimwig depois do chá.

E ao mesmo tempo lançava a Oliver um olhar de esguelha.

— Amanhã de manhã — respondeu o Sr. Brownlow. — Eu prefiro que isto se passe entre mim e ele. Oliver, você há de vir amanhã de manhã às dez horas ao meu gabinete.

— Sim, senhor — disse Oliver.

Oliver deu esta resposta com certa hesitação, porque ficou intimidado vendo o Sr. Grimwig olhar para ele fixamente.

— Quer ouvir uma coisa? — disse baixinho o Sr. Grimwig ao Sr. Brownlow. — Ele não há de vir amanhã de manhã; eu vi que ele hesitou, meu amigo, você está enganado.

— Juro que não — disse o Sr. Brownlow com calor.

— Está! — disse o Sr. Grimwig. — Coma eu a...

E bateu com a bengala no chão.

— Juro pela minha vida em como este menino é sincero — disse o Sr. Brownlow, dando um soco na mesa.

— E eu, pela minha cabeça, eu como... É um tratante!

— Veremos!

— Veremos!

Ambos estavam coléricos.

Quis o acaso que a Sra. Bedwin entrasse nesse momento com um maço de livros que o Sr. Brownlow comprara nessa manhã na casa daquele mesmo livreiro que já figurou nesta história; pô-lo em cima da mesa e ia sair.

— Mande esperar o caixeiro — disse o Sr. Brownlow à Sra. Bedwin. — Tenho de lhe dar uma coisa.

— O caixeiro já se foi embora — disse ela.

— Chame-o — disse o Sr. Brownlow. — O livreiro não é rico eu quero pagar os livros. Demais tem de levar outros.

Correram à porta; Oliver foi até uma esquina, a criada a outra, mas nada conseguiram. O caixeiro desapareceu.

— Sinto isto muito — disse o Sr. Brownlow. — Eu queria que os livros fossem entregues esta noite.

— Mande-os por Oliver — disse o Sr. Grimwig em tom de mofa. — Estou certo de que os entregará conscienciosamente.

— Sim, senhor, eu os levarei — disse Oliver.

O Sr. Brownlow ia dizer que Oliver não devia sair por nenhum motivo; mas o Sr. Grimwig tossiu com um ar tão malicioso que o dono da casa resolveu encarregar Oliver do recado e provar assim ao seu velho amigo quão infundadas eram as suas suspeitas.

Deu ordem a Oliver, que foi buscar os livros e veio com eles ao gabinete esperar as ordens.

Diga-lhe que vai levar os livros da minha parte e pagar os quatro guinéus e meio que lhe devo. Aqui tem um bilhete de cinco guinéus; há de trazer dez xelins de troco.

— Bastam dez minutos — disse Oliver.

Pôs o bilhete no bolso, abotoou o paletó, meteu os livros debaixo do braço, cumprimentou e saiu. A Sra. Bedwin foi levá-lo até a porta da rua para lhe indicar exatamente o caminho mais curto, o nome do livreiro, o nome da rua, coisas que Oliver declarou entender perfeitamente.

Oliver saiu, fez um sinal de adeus da esquina à velha, esta cumprimentou o sorrindo, fechou a porta e entrou.

— Vejamos — disse o Sr. Brownlow, tirando o relógio e pondo-o em Cima da mesa. — Ele estará cá dentro de vinte minutos; daqui até lá é noite.

— Pois você pensa seriamente que ele volta? — perguntou o Sr. Grimwig.

— Duvida disso? — perguntou, ou melhor, replicou o Sr. Brownlow sorrindo. O sorriso deste irritou a contradição do amigo.

— Sim, duvido — disse ele. — O pequeno está de roupa nova, leva alguns livros de preço, um bilhete de cinco libras no bolso; irá ter com os seus amigos camaradas, larápios como ele, e prega-lhe a peça na menina do olho. Se ele puser os pés nesta casa, consinto eu comer a minha cabeça.

Falando assim aproximou a cadeira da mesa, e os dois amigos ali ficaram silenciosos com os olhos no ponteiro do relógio.

Cumpre notar que o Sr. Grimwig, posto não fosse mau e sentisse ver o amigo vítima de um furto, desejava todavia (tal amor tinha às suas opiniões!) que Oliver não voltasse.

Caiu a noite pouco a pouco e mal se podia ver o ponteiro do relógio. Os dois amigos lá ficaram imóveis e silenciosos com os olhos no ponteiro.

CAPÍTULO XV

VÊ-SE O AMOR QUE O JOCOSO JUDEU E MISS NANCY TINHAM A OLIVER.

Na escura sala de uma miserável taverna, situada na parte mais imunda de Little Saffron Hill, covil tenebroso onde durante o inverno um bico de gás ardia todo o dia, e onde jamais, no verão, entrou um raio de sol, estava um homem assentado diante de uma caneca de estanho e um copo, absorvido em pensamentos e impregnado de um forte cheiro de licor.

Pela roupa de veludo grosso e pelos sapatos rasos, um agente experimentado reconheceria logo, apesar da pouca luz, que era o Sr. Guilherme Sikes. Aos pés dele estava um cão branco, de olhos vermelhos, ocupando em piscar o olho para o amo e em lamber o focinho onde se via uma ferida larga e sangrenta, indício de luta recente.

— Fica sossegado! — disse de repente o Sr. Sikes.

Naturalmente estava tão absorvido em suas reflexões que o simples movimento dos olhos do cão bastava para lhe perturbar; ou então a irritação produzida nele por essas reflexões precisava traduzir-se em maus-tratos até com um animal inofensivo. Seja como for Sikes entrou a praguejar contra o cão e ao mesmo tempo lhe deu um pontapé.

Geralmente, o cão não procura vingar-se das pancadas que lhe dá o senhor; mas o do Sr. Sikes tinha, como o seu proprietário, um péssimo caráter e, levado da convicção de sua inocência, atirou-se sem cerimônia ao sapato do Sr. Sikes, sacudiu-o vivamente e fugiu roncando para debaixo do banco, justamente a tempo de evitar a caneca que o Sr. Sikes lhe atirou à cara:

— Querias morder-me, hein? — disse Sikes abrindo uma longa faca que tirou do bolso. — Vem cá, patife!

O cão ouviu perfeitamente, porque o Sr. Sikes gritava como um surdo; mas não parecia disposto a se deixar esfaquear; ficou onde estava, rugindo cada vez mais.

A resistência aumentou a cólera do Sr. Sikes. Ajoelhou-se e começou a atacar o cão com furor. O animal pulava de um lado para outro, ganindo, ladrando, rugindo; o homem praguejava, batia, blasfemava; a luta ia ser crítica para ambos, quando a porta se abriu de repente e o cão deu um pulo para fora, deixando o Sr. Sikes com a faca na mão.

Para brigar diz um rifão que são precisos dois. O Sr. Sikes, desapontado com a fuga do cão, fez cair a sua cólera sobre o recém-chegado.

— Por que razão veio você meter-se entre mim e o cão? — disse ele com um gesto ameaçador.

— Eu não sabia, meu amigo, eu não sabia disso — respondeu Fagin com voz humilde.

Era efetivamente o judeu que acabava de entrar.

— Não sabia, tratante! — disse Sikes. — Não ouviu o barulho?

— Não ouvi nada; juro-lhe pela minha vida! — respondeu o judeu.

— É verdade, não me ouviu — disse Sikes com um riso ameaçador. — Você mete o nariz

em toda a parte sem que ninguém o veja sair ou entrar. Eu quisera que estivesse, há um minuto, no lugar do cão.

— Por quê? — disse o judeu com um riso forçado.

— Porque o governo que protege a vida de criaturas como você deixa um homem matar um cão à sua vontade — respondeu Sikes fechando a faca. — Aí está por quê.

O judeu esfregou as mãos, sentou-se ao pé da mesa e simulou achar graça ao dito do amigo; não obstante, via-se que não estava sossegado.

— Vá rir à outra parte — disse Sikes, olhando com desdém para o judeu. — Não se atreva a rir diante de mim! Olhe que você está nas minhas mãos, e se me perder você também se perderá.

—Bem, bem, meu caro — disse o judeu—, eu sei tudo isso. Nós... nós temos um interesse recíproco...

— Hein? — disse Sikes, como se achasse que o judeu era mais interessado que ele. — Que temos?

— Tudo correu perfeitamente — respondeu Fagin. — Aqui está o seu quinhão; é maior do que devia ser; mas como eu sei que você me levará em conta isso em outra ocasião...

— Cale-se — interrompeu o ladrão. — Dê cá.

— Sim, sim, Guilherme, deixe-me ter tempo de tirar os cobres sãos e salvos.

Dizendo isto, o judeu tirou da algibeira um lenço velho, desfez um nó de uma das pontas e deixou ver um rolo de papel pardo, que Sikes lhe arrancou das mãos. Eram soberanos de ouro; o ladrão contou.

— Não há mais?

— Não — respondeu o judeu.

— Você não abriu o embrulho no caminho para tirar duas ou três moedas? — perguntou Sikes com ar desconfiado. — Não se ponha com essa cara indignada; não seria a primeira vez que me bifaste alguma moeda. Agite o guiso.

Isto queria dizer por outras palavras: toque a campainha. Apareceu outro judeu, mais moço que Fagin, mas quase tão ignóbil e repulsivo como ele.

Sikes apontou para a caneca vazia e o judeu, compreendendo perfeitamente o gesto, saiu para ir enchê-la, depois de trocar um sinal de olhos com Fagin, que levantou a cabeça como se esperasse por isso, e respondeu com um sinal de cabeça, quase imperceptível. Sikes não reparou nisso, ocupado como estava em apertar o cordão do sapato que o cão desarranjara. É provável que, se houvesse percebido o sinal, não houvesse nada bom.

— Haverá aqui alguém, Barney? — perguntou Fagin sem levantar os olhos, agora que Sikes olhava para ele.

— Ninguém — respondeu o outro judeu, cujas palavras, viessem ou não do coração, saíam invariavelmente pelo nariz.

— Ninguém? — perguntou Fagin em tom de surpresa, que significava talvez que Barney podia dizer a verdade sem medo.

— Está apenas Miss Nancy — respondeu Barney.

— Nancy! — exclamou Sikes. — Onde está ela?

— Está comendo um pouco de carne cozida sobre o balcão — disse Barney.

— Mande-a vir — disse Sikes, pondo licor no copo —, mande-a vir.

Barney olhou timidamente para Fagin, como para lhe pedir autorização.

Vendo que o judeu não dizia palavra e tinha os olhos pregados no chão, saiu e voltou logo depois introduzindo Nancy, vestida de cozinheira, com uma touca, um avental, um cestinho e uma chave na mão.

— Descobriste alguma coisa, Nancy? — perguntou Sikes oferecendo-lhe um copo.

— Sim, Guilherme — respondeu a moça bebendo o conteúdo, descobri alguma coisa e estou bem cansada por isso; o peralta estava doente e de cama...

— Ah! Nancy! — disse o judeu erguendo os olhos.

Talvez o judeu, contraindo as sobrancelhas vermelhas e fechando urn pouco os olhos, avisasse a Miss Nancy de que ela já tinha falado demais; isto pouco importa. O certo é que ela não continuou em suas explicações e, depois de alguns sorrisos a Sikes, mudou de conversa.

Dez minutos depois, o Sr. Fagin foi acometido de sua grande tosse; Miss Nancy pôs o xale e declarou que eram horas de ir embora. O Sr. Sikes observou que tinha de ir para o mesmo lado e manifestou o desejo de a acompanhar. Foram juntos, acompanhados pelo cão, que estava fora.

O judeu meteu a cabeça fora da porta depois que Sikes saiu; acompanhou-o com os olhos, ameaçou-o com a mão fechada e murmurou horríveis imprecações; depois, com um sorriso horrível, foi sentar-se outra vez à mesa, onde se entregou à interessante leitura da Gazeta dos Tribunais.

Enquanto se passava a cena anterior Oliver Twist, que não suspeitava estar tão perto do jocoso ancião, caminhava para a livraria.

Chegando a Clerkenvell, entrou distraidamente por uma rua que não estava compreendida em seu itinerário, já ia em meio dela quando reparou no engano; mas, sabendo que essa rua ia ter ao ponto a que ele se dirigia, julgou inútil voltar atrás e continuou a andar com os livros debaixo do braço.

Ia pensando na felicidade da sua atual posição, no prazer que teria em ver, um instante que fosse, o pequeno Ricardo, que talvez a essa hora espancado e faminto chorava amargamente, quando foi arrancado aos seus devaneios por uma mulher que exclamou em voz alta:

— Oh! Maninho!

E apenas Oliver ergueu os olhos para ver o que era, sentiu-se preso por dois braços à roda do pescoço.

— Deixe-me — disse o menino —, deixe-me ir embora. Que é isto? Por que me prende assim?

A resposta da moça que o tinha preso, e trazia na mão uma carta e uma chave, foi desatar em choro e gritos.

— Oh! Meu Deus — dizia ela. — Achei-te outra vez; Oliver! Oliver! Mau! Assustar-me tanto! Anda para casa; Deus seja louvado; achei-te enfim!

Depois destas exclamações incoerentes, a moça continuou a gemer e soluçar, com tão violento acesso nervoso, que muitas mulheres que ali estavam perguntaram a um carniceiro de cabelo luzidio se não seria bom chamar um médico. O carniceiro, que parecia lento, para não ser indolente, respondeu que não era preciso.

— Oh! Não! Não! — disse a moça apertando a mão de Oliver. — Estou melhor. Vamos para casa, pequeno!

— O que é? — perguntou uma das mulheres.

— Oh! — respondeu a moça. — Ele fugiu há perto de um mês de casa de seus pais, que são uns bons operários, com o fim de acompanhar uns ladrões de boa laia, e a mãe quase morreu de pesar.

— Miserável! — disse a mulher.

— Vá, vá para casa, brutinho!

— Não sou eu — respondeu Oliver assustado. — Não conheço esta moça; eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã; sou órfão; moro em Pentonville.

— Vejam que descarado! — disse a moça.

— Ah! É Nancy! — disse Oliver vendo a cara da rapariga, o que até então não conseguira. Recuou espantado.

— Vejam como me conheceu! — disse Nancy, dirigindo-se às outras pessoas. — Não podia deixar de ser assim. Haverá alguém que me queira ajudar a levá-lo para a casa? Se

o não levo o pai e a mãe morrem de desgosto!

— Que diabo é isto? — disse um homem saindo de uma taverna, com um cão branco atrás de si. — Ah! É o Oliver! Anda, salta para casa de tua mãe, peralta! Depressa!

— Não os conheço! Socorro! Socorro! — gritou Oliver, debatendo-se entre os braços do homem.

A estas palavras, o homem arrancou os volumes que a criança trazia e lhe deu com eles na cabeça.

— Bem-feito! — disse do alto de um sótão um espectador desta cena. — É assim que estes patifes devem ser ensinados!

— Tem razão — disse um carpinteiro, olhando com ar de aprovação para o outro que falara.

— Há de fazer-lhe bem — disseram as duas mulheres.

— Está claro! — replicou o homem batendo outra vez com os livros na cabeça de Oliver,

— Anda, peralta! Turco! Aqui! Atenção!

Enfraquecido pela recente moléstia, aturdido pelas pancadas, assustado com o rugido do cão e com a brutalidade do homem, abatido pela convicção em que os espectadores estavam de que ele era realmente um vagabundo que podia fazer o pobre menino?

Era já noite fechada; o bairro estava deserto; não se podia esperar nenhum socorro.

Num fechar de olhos, foi Oliver arrastado por um labirinto de ruas sombrias e estreitas, com rapidez tal que tornava ininteligíveis os poucos gritos que ele ousava soltar. E que valia serem inteligíveis, se ninguém os podia ouvir?

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Os bicos de gás estavam acesos em toda a cidade; a Sra. Bedwin esperava com ansiedade à porta da casa; vinte vezes a criada correu até a esquina a ver se vinha Oliver, e os dois velhos amigos lá estavam obstinadamente no gabinete, no meio do escuro, e os olhos no relógio.

CAPÍTULO XVI

O QUE FOI FEITO DE OLIVER DEPOIS DE SER LEVADO POR NANCY.

Depois de haverem passado por muitas ruas estreitas, becos e passagens, Sikes, Nancy e Oliver chegaram a um vasto espaço descoberto que tinha sinais de ser um mercado de gado.

Aí Sikes afrouxou o passo, porque a moça já não podia correr como corria; voltou-se para Oliver e deu-lhe ordem de que desse a mão a Nancy.

— Ouves? — disse ele, vendo Oliver hesitar e olhar para todos os lados.

Estavam num lugar sombrio, longe de todos, e Oliver viu claramente que não havia resistência possível; estendeu a mão a Nancy, que a apertou com força.

— Dá cá a outra — disse Sikes. — Aqui, Turco!

O cão levantou a cabeça roncando.

— Olha — disse Sikes, pondo a mão no pescoço de Oliver e proferindo uma praga horrível —, se ele disser palavra, atira-te a ele! Entendes?

O cão roncou de novo, lambeu o focinho e olhou para Oliver como se tivesse vontade de lhe saltar em cima sem demora.

— Agora, já sabes o que te espera, meu rapaz, grita, se quiseres; o cão se encarrega de te fazer calar; anda, depressa!

Turco agitou a cauda para agradecer ao amo essas palavras de afago, a que ele estava habituado; depois soltou um novo grunhido e pôs-se a andar na frente dos três.

Atravessaram Smithfield; se fosse Grosvenor-Square era a mesma coisa para Oliver, que não conhecia um nem outro. A noite era sombria, os bicos de gás das lojas mal se percebiam através do nevoeiro, que ia aumentando e envolvendo de trevas as ruas e as casas; o aspecto desses lugares era ainda mais estranho para Oliver e a sua ansiedade, maior.

Caminhavam apressadamente quando o relógio de uma igreja vizinha bateu horas. À primeira badalada Sikes e Nancy pararam e prestaram ouvidos.

— Oito horas, Guilherme — disse Nancy.

— Por que me dizes isso? — respondeu Sikes. — Eu bem ouvi as horas.

— E eles? Poderão eles ouvi-las? — disse Nancy.

— Sem dúvida que sim — respondeu Sikes. — Quando me prenderam, foi no tempo de feira de S. Bartolomeu, e não havia em toda a feira uma trombeta que eu não ouvisse;

quando eu estava fechado de noite, o tumulto de fora tornava tão horrível o silêncio da prisão que eu tentava espedaçar a cabeça contra a fechadura da porta.

— Pobres rapazes! — disse Nancy com os olhos voltados para o ponto donde se ouvira o relógio. — Que pena! Eram tão bonitos!— Aí está o que são mulheres!

Sikes parecia, ao mesmo tempo que dizia isto, reprimir um movimento de ciúme.

— Espera — disse a rapariga. — Eu não passaria tão depressa neste lugar se tu tivesses de morrer amanhã enforcado, às oito horas; não me importaria a neve e, ainda que eu não tivesse xale, demorar-me-ia na praça até tarde.

— E que me fazia isso? — perguntou o brutal Sikes. — Salvo se me pudesses passar uma lima e vinte varas de boa corda; sem isso, quer andasses cinqüenta milhas, quer não andasses nada, era para mim a mesma coisa. Vamos, não fiquemos aqui a dizer palavras sem sentido.

A rapariga deu uma gargalhada, puxou o xale e continuaram a andar; mas Oliver sentia a mão de Nancy tremer; olhou para ela, quando passaram por um bico de gás. Estava pálida como uma defunta.

Caminharam durante meia hora, por umas ruas imundas e pouco freqüentadas, e os raros indivíduos que encontravam tinham ares de ocupar na sociedade posição idêntica à do Sr. Sikes. Finalmente entraram em uma viela mais imunda que as outras e cheia de lojas de belchiores. O cão correu à frente, como se compreendesse que a vigilância era agora inútil, e parou diante de uma loja fechada e aparentemente desocupada, porque a casa caía em ruínas e um escrito pregado na porta anunciava que estava para alugar.

— Tudo vai bem — disse Sikes, depois de lançar à roda de si um olhar indagador.

Nancy puxou por um cordão e Oliver ouviu o som de uma campainha.

Atravessaram a rua e esperaram alguns instantes debaixo de um lampião; ouviu-se daí a pouco abrir a porta vagarosamente.

Sem mais cerimônia, o Sr. Sikes segurou na gola da criança aterrada, e todos os três entraram na casa.

A alameda estava completamente escura. Os três esperaram que a pessoa que os havia introduzido pusesse no seu lugar a barra de ferro que prendia a porta.

— Não há ninguém? — perguntou Sikes.

— Não — respondeu uma voz que Oliver pareceu conhecer.

— O velho está cá?

—Está e parecia triste enquanto esperava. Agora vai ficar contentíssimo.

O estilo de resposta e a voz não eram desconhecidos a Oliver; mas no escuro era impossível ver o interlocutor.

— Alumia — disse Sikes —, quando não quebramos o nariz ou pisamos o cão, o que é pior.

— Espera um instante que eu já arranjo luz.

Ouviram-se passos de alguém que se afastava, e no cabo de um minuto apareceu o Sr. Jack Dawkins, por alcunha o Matreiro, com uma vela metida na ponta rachada de um pau.

O jovem ratoneiro fez uma careta a Oliver e disse aos outros que o acompanhasse; atravessaram a casinha, onde só havia as quatro paredes, e, abrindo a porta de uma sala baixa e úmida, que dava para um pátio lamacento, foram recebidos com grandes gargalhadas.

— Oh! Que boa cara! — exclamou mestre Carlinhos Bates rindo. — Cá vem ele! Olhem! Fagin, veja aquilo; que cara! Já não posso! Não posso! A alegria do mestre Bates já não tinha limites; deixou-se ele cair no chão, agitando convulsivamente as pernas, e durante cinco minutos não pôde moderar os seus transportes.

Afinal levantou-se, pegou na vela e, aproximando-a de Oliver, examinou o dos pés até a cabeça, enquanto o judeu, tirando o boné, cumprimentava repetidas vezes e com todo o respeito a pobre criança espantada.

Quanto ao Matreiro, sonso como era e pouco dado a riso quando podia exercer os seus talentos, examinou as algibeiras de Oliver com apurada minuciosidade.

— Veja, Fagin, como ele vem no trinque! — disse Carlinhos, aproximando a luz do vestuário novo de Oliver. — Olha para isto.

— Fazenda número um; e que belo corte! E livros! Olha, Fagin, é um fidalguinho perfeito!

— Tenho muito gosto em vê-lo assim — disse o judeu cumprimentando ironicamente Oliver. — O Matreiro dar-lhe-á outra roupa, meu caro, para que você não emporcalhe a roupa nova. Por que não escreveu para avisar-nos da sua chegada? Poderíamos oferecer-lhe uma ceia.

A estas palavras mestre Bates foi acometido de novo riso, que se comunicou a Fagin e fez sorrir o Matreiro. Mas como este último tirava ao mesmo tempo do bolso de Oliver o bilhete de cinco guinéus, não se pode saber se o sorriso teve origem na explosão de mestre Bates ou no achado do bilhete.

— Oh! Oh! Que é isso? — perguntou Sikes indo ao judeu, que metia no bolso o bilhete. — Isso me pertence, Fagin.

— Não, meu amigo, não — disse o judeu. — É meu; fique você com os livros.

— Se ousas dizer que isso não é meu — disse Sikes, pondo o chapéu com resolução — isto é, a mim e a Nancy, levo o pequeno outra vez.

O judeu estremeceu, e Oliver também, posto fosse por diferente motivo; esperava que a briga lhe desse a liberdade.

— Vejamos — disse Sikes —, quer dar-me isso?

— Não é justo, Guilherme — disse o judeu. — Não acha, Nancy? Não lhe parece que isto não é justo?

— Seja ou não justo — respondeu Sikes —, dê-me cá isso. Então você pensa que eu e Nancy não temos mais nada que fazer do que perder o nosso tempo a procurar um pequeno preso por sua causa? Dê cá isso, ladrão! Anda!

Fazendo estas amigáveis observações, Sikes segurou o bilhete que o judeu tinha na mão, depois olhou fixamente para Fagin, dobrou o bilhete e meteu-o em um nó que deu na gravata.

— Isto é a paga do nosso trabalho — disse Sikes — e não paga metade dele; fique você com os livros se gosta de ler ou então venda-os.

— É muito interessante — disse Carlinhos Bates, fingindo ler um dos volumes e fazendo mil caretas. — Belo estilo, não é, Oliver?

E vendo o ar triste de Oliver, mestre Bates, que tinha o dom de achar o lado cômico de todas as coisas, entregou-se outra vez a um transporte de alegria mais ruidoso que o primeiro.

— Os livros são do meu velho amigo — disse Oliver, torcendo as mãos. — São do bom e generoso homem que me levou para casa e tratou de mim quando eu estava doente; mande-os que lhe peço, mande os livros e o dinheiro; eu fico aqui por toda a minha vida. Se não forem os livros ele pensa que eu os roubei. A velha e todos os que lá me tratam tão bem pensarão que sou um ladrão. Tenham pena de mim!

Falando assim com a energia de uma dor pungente, Oliver caiu de joelhos aos pés do judeu, juntando as mãos com ar suplicante e desesperado.

— Tem razão o rapaz — observou Fagin, olhando a roda de si com ar sonso. — Tens razão, Oliver, tens razão. Hão de pensar que és um ladrão; Ah! Ah! Tanto melhor!

E dizendo isto o judeu esfregou as mãos.

— Sem dúvida — respondeu Sikes. — Eu pensei nisso desde que o vi entrar em Clerkenwell com os livros debaixo do braço. Era simples; aquela gente por força que há de estar vestida e calçada no reino do céu; se não fosse isso, não teriam recebido o rapaz em casa. Não o virão procurar acredite, por medo de serem obrigados a um processo para darem o pequeno à prisão; o pequeno está seguro.

Durante este diálogo, Oliver olhava ora para Fagin ora para Sikes, como se nem tivesse consciência do que se passava à roda dele; ouvindo as últimas palavras de Guilherme, Oliver levantou-se subitamente e, assustado, correu para fora da sala, pedindo socorro, de maneira que despertava todos os ecos da velha casa arruinada.

— Não deixes sair o teu cão, Guilherme! — exclamou Nancy precipitando-se para a porta e fechando-a.

O judeu e os dois discípulos já haviam saído à cata de Oliver.

— Não deixes sair o teu cão — repetiu a moça. — Olha que ele vai dilacerar o pequeno.

— Pois será bem feito! — disse Sikes lutando para se desvencilhar dos braços da moça.

— Deixa-me ou eu te esmago a cabeça contra a porta.

— É o mesmo, Guilherme, é o mesmo — gritava a rapariga, lutando energicamente com Sikes. — A criança não será mordida pelo cão ou tu me matarás primeiro.

— Vais ver! — respondeu Sikes rangendo os dentes. — Sai daí ou morres!

O ladrão atirou a rapariga para o fundo do quarto... justamente quando o judeu e os seus dois discípulos entraram trazendo Oliver.

— Então, o que há? — perguntou o judeu.

— Creio que esta rapariga enlouqueceu — disse Sikes com ar feroz.

— Não, não estou louca — respondeu Nancy pálida e ofegante. — Afirmo-lhe, Fagin, que não estou louca.

— Pois então cale-se! — disse o judeu com ar ameaçador.

— Não, não me calarei — respondeu Nancy. — Tem alguma coisa com isto?

O Sr. Fagin conhecia perfeitamente o caráter das mulheres e sabia que não era prudente prolongar conversa.

Dirigiu-se a Oliver:

— Então o amiguinho queria esquivar-se?

E dizendo isto lançou mão de um cacete.

Oliver não respondeu, mas observou os movimentos do judeu, e o seu coração batia com força.

— Pedia socorro, queria chamar a polícia, não? — prosseguiu Fagin com um riso zombeteiro e segurando no braço do menino. — Há de passar-lhe esse desejo.

O judeu pespegou uma vigorosa cacetada nas espáduas de Oliver e levantou o braço para repetir a dose, quando a moça correu a ele, tirou-lhe o cacete das mãos e atirou-o ao fogão com força tal que algumas brasas vieram rolar até o meio do quarto.

— Não tolero semelhante coisa — disse Nancy. — Apanhei a criança em caminho e trouxe-a outra vez para cá; que lhe quer mais? Deixe-a sossegada ou eu farei com que me enforquem antes do tempo.

Proferindo estas ameaças, a moça batia com o pé no assoalho; pálida de cólera, lábios cerrados, punhos cerrados, ela olhava ora para o judeu, ora para Sikes.

— Ora, vamos, Nancy — disse o judeu com voz mais doce depois de algum silêncio, durante o qual trocara com Sikes olhares espantados. — Você está hoje... mais admirável que nunca; está representando perfeitamente.

— Deveras? — disse a rapariga. — Peça a Deus que eu me não exceda a mim mesma; será tanto pior para você. Ande, saia daí.

Quando uma mulher se irrita, principalmente quando é infeliz; pode chegar a um ponto tal que poucos homens se atrevam a provocá-la.

O judeu compreendeu que perderia tempo fingindo crer que a cólera de Nancy era brincadeira e, recuando involuntariamente alguns passos, deitou a Sikes um olhar meio receoso, meio suplicante, como para lhe dizer que devia continuar o diálogo.

Ouviu o Sr. Sikes aquele mudo apelo e, sentindo talvez que o seu orgulho pessoal e a sua influência tinham interesse em que Nancy fosse imediatamente obrigada a ceder, proferiu duas ou três dúzias de maldições e ameaças cuja rapidez e variedade muito honravam a fertilidade do seu espírito inventivo.

Como isso não produzisse efeito, recorreu a outros argumentos.

— Que queres dizer com isto? — disse ele. — Não sabes quem és e o que és?

— Oh! Bem sei — replicou a rapariga com um riso nervoso, abanando a cabeça e afetando um ar de indiferença.

— Pois então, deixa-te ficar em paz — acrescentou Sikes rosnando como quando falava ao cão. — Ou eu te obrigarei a isso e por muito tempo.

— Ficam-te muito bem — disse Sikes — estes ares de generosidade! Deste ocasião para

este menino ficar sendo teu amigo.

— Sim, eu sou amiga dele — disse a rapariga com raiva — e agora digo que preferia morrer na rua ou ocupar o lugar daqueles ao pé de quem passamos hoje a ter trazido esta criança para aqui. De hoje em diante fica sendo um larápio, um ladrão, um malvado. E ainda em cima há de aquele velho dar-lhe pancadas?

— Está bom, Sikes — disse o judeu com ar de censura e mostrando-lhe os ratoneiros, que ouviam aquele diálogo com a maior atenção —, acalma-te, Guilherme! Faze as pazes.

— Fazer as pazes! — exclamou Nancy exasperada! — Malvado! Eu ainda não tinha metade da idade desta criança e já roubava para você, e há doze anos estou neste ofício; roubo para você. Não é verdade?

— Está bom — respondeu o judeu, procurando acalmar Nancy. — Mas este ofício é o que te dá de comer.

— Tem razão — respondeu ela, com volubilidade. — É essa a minha vida, como as ruas são a minha casa, apesar do frio, da chuva e da lama. E foi você, miserável, que me deitou a perder e me conserva nestes crimes até que eu morra.

— Acontecer-te-á pior que isso — interrompeu o judeu. — Pior que isso se continuas a falar.

Ela calou-se; mas em sua cólera arrancava os cabelos e rasgava os vestidos. Precipitou se para o judeu e provavelmente lhe deixaria sinais de vingança se Guilherme Sikes não interviesse a tempo segurando-lhe as mãos; ela fez alguns esforços para se desvencilhar e desmaiou.

— Prefiro isso — disse Sikes, deitando-a a um canto do quarto. — Ela tem imensa força nos braços quando se irrita.

O judeu enxugou a testa e sorriu; sentia-se aliviado vendo enfim esta cena terminada; mas nem ele, nem Sikes, nem o cão, nem os discípulos pareciam ver naquilo mais que um incidente ordinário do oficio.

— É o diabo ter-se de tratar com mulheres — disse o judeu. — Mas elas são muito espertas, e nada se consegue sem elas. Carlinhos, leva Oliver para a cama.

— Suponho que ele não vestirá amanhã a roupa nova — disse Carlinhos Bates rindo.

— Não tenhas medo disso — respondeu o judeu, rindo também.

A moça entrou a rir e com mais despejo que dantes; depois, deitando um olhar furtivo a Sikes, desviou a cabeça e mordeu os lábios até deitar sangue.

Mestre Bates levou Oliver para uma cozinha ao pé de onde havia duas ou três camas semelhantes àquela em que Oliver dormira outrora.

Aí o Sr. Bates, depois de rir muito, deu a Oliver a mesma roupa que ele tão contente despira em casa do Sr. Brownlow. Quis o acaso que Fagin a reconhecesse na mão do judeu que a comprara, e essa circunstância fez com que se descobrisse a casa em que Oliver estava.

— Tira a roupa nova — disse Carlinhos —, eu a darei a Fagin. Ah! que boa caçoada!

O pobre Oliver obedeceu contra a vontade; mestre Bates enrolou a roupa nova, pô-la embaixo do braço e saiu; fechou a porta à chave e deixou Oliver em trevas.

As gargalhadas de Carlinhos e a voz de Miss Betty, que chegou a propósito para borrifar com água a cara da amiga desmaiada, bastariam para impedir o sono a pessoas mais felizes que Oliver; mas ele sofria e estava cansado e não tardou que dormisse profundamente.

CAPÍTULO XVII

A MÁ ESTRELA DE OLIVER TRAZ A LONDRES UM GRANDE PERSONAGEM EXPRESSAMENTE PARA LHE MAREAR A REPUTAÇÃO.

É uso, em melodramas que cheirem a sangue, alternar as cenas trágicas e as cenas cômicas. Ora, aparece jazendo em cama ruim o herói acabrunhado pelas desgraças e pelos grilhões que lhe roxeam os pulsos; na cena seguinte, o seu fiel escudeiro, ignorando tamanha desgraça, vem alegrar o público com uma cantiga de escangalhar as pedras.

Vemos a heroína à mercê de um barão cruel e soberbo, exposta a perder a honra ou a vida e arrancando um punhal para salvar uma à custa da outra; e, no momento em que o interesse está vivamente excitado, ouve-se o apito do contra-regra, que nos transporta a uma grande sala de um castelo, onde um sujeito, de empoada cabeleira, canta uma canção alegre. Os vassalos fazem coro com ele; e saem todos cantando.

Parecem ridículas estas mudanças de cena; contudo não são tão inverossímeis como nos parecem à primeira vista. A vida apresenta destes contrastes, festa e morte, luto e alegria, tristeza e folga.

Mas então nós é que somos os atores, e isso faz grande diferença.

As transições súbitas, os acessos de dor, que na cena da vida não nos espantam, parecem ridículos desde que nos convertemos em simples espectadores.

Parecerá inútil este curto preâmbulo. A intenção do autor é prevenir delicadamente o leitor de que vai agora à cidade natal de Oliver, para o que tem boas razões.

Um dia de manhã, logo cedinho, saiu o Sr. Bumble, com a cabeça levantada, do asilo da mendicidade, e subiu a rua com passo majestoso. Estava com todo o esplendor da sua dignidade de bedel.

Os raios do sol nascente brincavam no seu chapéu de três bicos e na casaca, e ele empunhava a bengala com o ar resoluto que se adquire com a saúde e o poder.

O Sr. Bumble sempre andara de cabeça alta, mas naquele dia levava mais alta que nunca.

Havia no seu olhar uma tal ou qual profundidade, e no seu passo uma altivez que anunciava grandes reflexões.

O Sr. Bumble não parava na rua para conversar com os lojistas ou outras pessoas que lhe dirigiam respeitosamente a palavra; mal respondia aos seus cumprimentos, com um gesto rápido. Conservou este ar imponente até chegar à casa da Sra. Mann, aquela que criou Oliver.

— Leve o diabo o bedel — disse a Sra. Mann ouvindo o Sr. Bumble sacudir com impaciência a porta do jardim. — Naturalmente é ele... Ah! Sr. Bumble, eu bem sabia que era o senhor! Que prazer me dá com a sua visita! Entre, faça favor.

As primeiras palavras eram dirigidas a Suzanna e as exclamações de alegria, ao Sr. Bumble, ao passo que a criada abria a porta do jardim e fazia entrar o bedel com todo o respeito.

— Sra. Mann — disse o Sr. Bumble, deixando-se cair lentamente em uma poltrona. — Deus lhe dê muitos bons dias.

— Bom dia, Sr. Bumble — respondeu a Sra. Mann sorrindo. — Está bom, não?

— Assim, assim — respondeu o Sr. Bumble. — A vida paroquial não é cama de rosas.

— A quem o diz o senhor! Se as crianças do asilo os ouvissem fariam coro ambos.

— A vida paroquial — continuou o Sr. Bumble, dando com a bengala na mesa — é uma vida fatigante e agitada; mas todos sabem que o destino dos funcionários públicos é estarem expostos a perseguições.

A Sra. Mann, sem compreender muito o que queria dizer o bedel, levantou as mãos ao céu com ar de compaixão e suspirou.

— Tem razão para suspirar — disse o bedel.

Vendo que tinha razão, a Sra. Mann soltou outro suspiro, com grande satisfação do funcionário, que, reprimindo um gracioso sorriso, olhou gravemente para o chapéu de três bicos e disse:

— Parto amanhã para Londres.

— Como? —disse a Sra. Mann, recuando dois passos.

— Sim, para Londres — respondeu o inflexível bedel. — Vou na diligência e levo dois pobres do asilo. Querem pô-los fora de lá; e o conselho encarregou-me de ir acompanhar

o processo perante o tribunal de Clerkenwell. E eu quero ver se o tribunal de Clerkenwell pode comigo.

— Não seja severo com os pobres — disse a Sra. Mann em tom adocicado.

— Será por culpa do tribunal.

— E vai de diligência; eu cuidava que os pobres iam em carroça.

— Sim, quando estão doentes — disse o bedel. — Vão em carroça descoberta quando chove; é para os não constipar.

— Oh!

— Quanto a estes, vão em diligência, por preço módico. Estão num triste estado e nós calculamos que as despesas de transporte custariam duas libras esterlinas menos que as do enterro... com a condição de que os coloquemos em outra paróquia. Espero que o conseguiremos, salvo se morrerem em caminho para fazer-nos pirraça.

O Sr. Bumble entrou a rir; mas os seus olhos encontraram o chapéu de três bicos, e imediatamente ficou sério.

— Não esqueçamos os negócios — disse ele. — Aqui está o ordenado mensal que a paróquia lhe dá.

O Sr. Bumble tirou da carteira algumas moedas de prata enroladas em papel e pediu recibo, ao que a Sra. Mann obedeceu logo.

— São garatujas — disse ela —, mas está em regra; obrigada, Sr. Bumble.

Este respondeu com um leve aceno de cabeça aos cumprimentos da Sra. Mann e pediu notícias das crianças.

— Coitadinhos! Os meus anjinhos! — respondeu ela. — Gozam de perfeita saúde, exceto dois que morreram na semana passada e o pequeno Ricardo, que está doente.

— Não vai melhor? — perguntou o bedel. A Sra. Mann abanou a cabeça.

— Tem más disposições aquela criança, caráter rebelde, natureza viciosa — acrescentou

o bedel com ar irritado. — Onde está ele?

— Vou buscá-lo — disse a Sra. Mann. — Ricardo! Vem cá!

Saiu a buscar o pequeno, encontrou-o, lavou-lhe a cara com água fria e enxugou o com o seu vestido; depois compareceu o pequeno diante do imponente Bumble.

Estava pálido e magro; tinha as faces cavadas e grandes olhos brilhantes. O miserável uniforme da paróquia, essa libré da miséria, flutuava naquele corpo débil, e o pequeno parecia um velho.

Tal era o pobre menino que tremia em frente do Sr. Bumble, sem ousar erguer os olhos e receando ouvir a voz dele.

— Olhe para este senhor, meu cabeçudo — disse a Sra. Mann. A criança levantou timidamente a cabeça, e os seus olhos encontraram os do Sr. Bumble.

— Filho da paróquia, que manda V.S.? — perguntou o Sr. Bumble com ar de caçoada.

— Nada, senhor — respondeu o pequeno com voz trêmula.

—Bem sei que nada — disse a Sra. Mann, depois de se rir da graça do bedel. — Tu não precisas de nada.

— Eu queria... — balbuciou a criança.

— O quê, miserável? — interrompeu a mulher. — Vás dizer que precisas alguma coisa?

— Espere! — disse o Sr. Bumble, levantando a mão com autoridade. — Que quer o senhor?

— Eu queria — balbuciou a criança — que alguém me escrevesse algumas palavras em um pedaço de papel, fechasse, colasse e guardasse para quando eu estiver enterrado.

— Que quer dizer com isso? — perguntou o Sr. Bumble, algum tanto impressionado com

o ar da criança. — Que quer dizer?

— Eu queria — disse a criança — deixar algumas palavras de amizade ao pobre Oliver Twist e dizer-lhe quanto chorei pensando que andava à toa, sem ninguém que lhe desse a mão... E quisera dizer-lhe também que estou contente por morrer criança, porque se eu vivesse muito, minha irmã que está no céu talvez me não conhecesse mais ou me esquecesse; é melhor que nos encontremos lá em cima.

O Sr. Bumble, admiradíssimo contemplou o pequeno orador dos pés até a cabeça e disse à Sra. Mann:

— São todos talhados pelo mesmo modelo; o descarado do Oliver os desmoralizou a todos.

— Quem tal suporia! — disse a Sra. Mann, erguendo as mãos ao céu. — Nunca vi miserável mais pervertido do que este!

— Leve-o, senhora! — disse o Sr. Bumble com autoridade. — Serei obrigado a dar conta ao conselho de administração.

— Espero que esses senhores me farão a justiça de crer que eu não tenho culpa nisto — disse a Sra. Mann choramingando.

— Fique tranqüila, eles serão informados de tudo — disse com ênfase Sr. Bumble. — Leve este pequeno, que me está causando asco. Que caráter!

Ricardo foi levado e fechado no depósito de carvão; alguns instantes depois saiu o Sr. Bumble para fazer os preparativos de viagem.

No dia seguinte, às seis horas, o Sr. Bumble, depois de trocar o chapéu de três bicos por um chapéu redondo e vestir um paletó azul, subiu à almofada da diligência, em companhia de dois criminosos que a administração queria mandar embora.

Chegou a Londres sem outro incômodo mais que o procedimento dos dois pobres, que teimavam em tiritar e dizer que sentiam frio, e isto fez com que o Sr. Bumble dissesse que semelhante confissão da parte deles é que lhe causava frio, apesar de vir com um grosso paletó no corpo.

Depois de se ter livrado, por toda a noite, daquelas maçantes criaturas, o bedel alugou um quarto no hotel onde parara a diligência e jantou modestamente algumas talhadas de carne assada, com molho de ostras, acompanhado de uma garrafa de Porter.

Acabado o jantar aproximou a cadeira do fogão, pôs sobre a chaminé um copo de grog e, depois de algumas reflexões morais acerca da tendência que os homens têm para se queixarem sempre, dispôs-se a ler um jornal.

O primeiro artigo que lhe caiu debaixo dos olhos foi o seguinte anúncio:

Cinco Guinéus de Alvíssaras

Desapareceu de casa, em Pentonville, quinta-feira, à noite, um rapaz chamado Oliver Twist, e daí para cá não se sabe o que é feito dele: dar-seão os cinco guinéus de alvíssaras a quem ministrar informações tendentes a fazer encontrar o dito Oliver Twist, ou esclarecer a sua história, que o autor do presente anúncio tem grande interesse em saber.

Vinham depois os sinais de Oliver, com todos pormenores do vestuário, e afinal o nome e

o número da casa do Sr. Brownlow.

O bedel arregalou os olhos, leu e releu três vezes este anúncio; cinco minutos depois, dirigia-se a Pentonville sem engolir sequer o grog.

— O Sr. Brownlow está em casa? — perguntou ele à criada que viera abrir a porta.

À esta pergunta, deu a criada a resposta evasiva de costume:

— Não sei; da parte de quem vem?

O Sr. Bumble ainda não tinha acabado de proferir o nome de Oliver e já a Sra. Bedwin, que escutava da porta da sala, correu e veio falar ao bedel.

— Entre, entre — disse ela. — Eu bem sabia que teríamos notícias dele; coitadinho! Eu estava certa disso! Eu bem o disse!

Falando assim, a boa velha entrou para a sala com precipitação, atirou-se a um sofá e entrou a chorar; enquanto a criada, que não era tão dada a sentimentos, foi prevenir o Sr. Brownlow e voltou para dizer ao Sr. Bumble que a seguisse.

Levou-o a um pequeno gabinete onde se achavam o Sr. Brownlow e seu amigo, o Sr. Grimwig, assentados a uma mesa, tendo alguns copos diante de si.

— Um bedel! — exclamou o Sr. Grimwig vendo o Sr. Bumble. — É um bedel de paróquia! Coma eu a minha cabeça...

— Tenha a bondade de nos não interromper agora — disse o Sr. Brownlow. E dirigindo-se ao bedel:

— Queira assentar-se.

O Sr. Bumble obedeceu, não pouco admirado das maneiras do Sr. Grimwig; o Sr. Brownlow pôs o lampião de maneira que a luz batesse em cheio na cara do bedel e disse com alguma impaciência:

— O senhor leu naturalmente o meu anúncio?

— Sim, senhor.

— O senhor é bedel? — perguntou o Sr. Grimwig.

— Sou bedel de paróquia—respondeu o Sr. Bumble com certo orgulho.

— É isso — disse o Sr. Grimwig ao ouvido do seu amigo. — Eu estava certo; aquele paletó cheira à paróquia; é um bedel escrito e escarrado.

O Sr. Brownlow fez um pequeno sinal de cabeça para impor silêncio e continuou:

— Sabe alguma coisa daquele pobre menino?

— Sei tanto como o senhor — respondeu o Sr. Bumble.

— Mas diga sempre o que sabe. Que sabe a respeito dele?

— Naturalmente não vem contar nada que seja bom — observou o Sr. Grimwig em ar de chalaça.

O Sr. Bumble abanou a cabeça com ar profundo.

— Que lhe dizia eu? — exclamou o Sr. Grimwig, olhando para o amigo com ar triunfante.

O Sr. Brownlow pediu que o bedel se explicasse.

O Sr. Bumble pôs o chapéu no chão, desabotoou o paletó, cruzou os braços, deitou a cabeça para trás e, depois de alguns momentos de reflexão, começou a falar.

Seria supérfluo transcrever aqui as próprias palavras do bedel, que levou vinte minutos a discorrer. Em resumo, disse que Oliver era um enjeitado, nascido de pais obscuros e perversos; que desde o seu nascimento revelava hipocrisia, ingratidão e maldade; que terminara a sua curta estada na cidade natal tentando assassinar covardemente um rapaz inofensivo e fugindo de casa de seu amo. Em apoio destas asserções, o Sr. Bumble apresentou uns papéis; cruzou os braços e esperou.

— Receio que tudo isso seja verdade — disse o Sr. Brownlow com tristeza, depois de examinar os papéis. — Aqui estão cinco guinéus pelas suas informações; mas eu dava o triplo desta quantia se as informações fossem favoráveis ao pequeno.

É provável que, se o Sr. Bumble soubesse disso mais cedo, teria dado a sua história uma cor inteiramente diversa. Mas agora era tarde; cumprimentou os dois velhos, meteu no bolso os cinco guinéus e saiu.

Durante alguns minutos o Sr. Brownlow passeou com um ar tão triste que o Sr. Grimwig desistiu de o contrariar. Afinal parou e tocou violentamente a campainha.

— Sra. Bedwin — disse ele, quando a velha apareceu —, Oliver é um impostor!

— Impossível — disse a velha energicamente.

— Repito que é um impostor. Acabamos de saber toda a sua história. Oliver é um peralta.

— Nunca acreditarei semelhante coisa — disse a velha.

O Sr. Grimwig interveio dizendo que desde o princípio os avisara dizendo quem era o menino. A velha defendeu Oliver, mas o Sr. Brownlow impôs-lhe silêncio e mandou-a embora.

Houve nessa noite muitos corações tristes em casa do Sr. Brownlow. Quanto a Oliver, estava desesperado pensando nos seus amigos de Pentonville; felizmente, para ele, ignorava o que lhes contara o bedel; porque, se o soubesse, morreria de desespero.

CAPÍTULO XVIII

COMO OLIVER PASSAVA O TEMPO NA SOCIEDADE DE SEUS RESPEITÁVEIS AMIGOS.

No dia seguinte ao meio-dia, depois de saírem o Matreiro e o mestre Bates para as suas ocupações ordinárias, o Sr. Fagin aproveitou o ensejo e fez a Oliver um longo sermão a respeito do horrendo pecado da ingratidão, no qual pecado Oliver caíra, primeiramente deixando a sociedade dos seus amigos, depois tentando fugir quando eles haviam gasto tanto tempo e dinheiro para o reaver.

O judeu insistiu principalmente na hospitalidade que dera a Oliver e na amizade que lhe manifestara; fez-lhe sentir que, se não fora sua assistência, estaria provavelmente morto de fome.

Depois contou-lhe a história horrível de um rapaz a quem socorrera por caridade, em circunstâncias iguais, mas que se mostrara indigno da sua confiança, manifestara o desejo de entreter relações com a polícia e acabara na forca.

Não dissimulou a Oliver a parte que tivera nessa catástrofe; mas deplorou com lágrimas nos olhos a cruel necessidade a que o rapaz o reduzira.

O judeu acabou a arenga descrevendo os inconvenientes de morrer enforcado e, com um tom pálido e afável, declarou que esperava não ser obrigado a sujeitar Oliver Twist a esta operação.

Ouvindo o discurso do judeu, tremia Oliver da cabeça aos pés, ainda que mal compreendesse o sentido daquelas ameaças.

Sabia por experiência própria que a justiça podia confundir o inocente com o culpado, quando por acaso os acha juntos; lembrando-se das altercações de Fagin com Sikes, acreditou que o judeu mais de uma vez executara aquele meio para reprimir as indiscrições e fazer desaparecer as pessoas muito comunicativas.

Levantou timidamente os olhos e encontrou o olhar penetrante do judeu; compreendeu que o seu medo não havia escapado ao velho ladrão que até parecia regozijar-se com isso.

Passou nos lábios de Fagin um medonho sorriso; bateu ele com a mão na cabeça de Oliver e disse-lhe que, se trabalhasse tranqüilamente, viriam a ser bons amigos; depois pegou no chapéu, vestiu um paletó remendado e saiu, fechando a porta com a chave.

Durante esse dia, e nos dias seguintes, Oliver ficou só, desde a manhã até a meia-noite.

Abandonado durante longas horas aos seus pensamentos, ele os dirigia sempre para os seus amigos de Pentonville e pensava com tristeza na má opinião que deviam ter dele.

Ao cabo de uma semana, o judeu deixou de fechar a porta do quarto, e Oliver teve liberdade para andar na casa toda.

Era um triste prédio. As salas de cima tinham muitas obras de talha, grandes portas e cornijas, que, apesar de enegrecidas pelo tempo e cobertas de pó, mostravam ter esculturas variadas.

Oliver concluiu que outrora, muito antes do nascimento do judeu, aquela casa devia ter pertencido a pessoas de classe elevada e que, talvez por mais triste e estragada que agora estivesse, fosse em outro tempo morada alegre e elegante.

As aranhas tinham estendido as suas teias em todos os ângulos das paredes e ao longo dos tetos; às vezes, quando Oliver andava devagar pelo quarto, um camundongo entrava a passear pelo chão e fugia assustado para o seu buraco. Eram os únicos entes vivos que ele podia ter ou ver.

Muitas vezes, quando a noite caía, e estava cansado de andar de quarto em quarto, ia acocorar-se em um canto da alameda que dava para a porta da rua, a fim de estar mais perto da sociedade dos vivos, e aí ficava, com o ouvido alerta, a contar as horas até que voltasse o judeu com os seus discípulos.

Todos os quartos tinham as janelas trancadas; a luz penetrava por alguns buracos apenas, o que dava aos quartos um aspecto ainda mais sinistro e o povoava de sombras singulares.

Havia, é verdade, uma espécie de sótão ao fundo da casa, com uma janela gradeada; muitas vezes Oliver ia passar ali horas inteiras e olhava para longe, com ar pensativo; mas apenas via uma massa confusa de tetos e chaminés negras; às vezes alguma cabeça branca lhe aparecia em uma ou outra casa afastada; mas logo desaparecia. Demais, como a janela estava tapada por gradil de ferro e tinha os vidros sujos, ele mal podia perceber os objetos externos.

Um dia, que o Matreiro e mestre Bates deviam passar a noite fora, o primeiro destes jovens ratoneiros teve idéia de cuidar mais da toalete do que costumava fazer; cumpre dizer que ele não era dado a estas fraquezas; chamou Oliver em seu auxílio.

Oliver tinha grande prazer em ser útil; alegrava-se de ver caras humanas, por piores que elas fossem.

Não hesitou em servir o Matreiro.

Assentou-si este em cima da mesa, e Oliver, com um joelho em terra, entrou a escovar as botas do Sr. Dawkins, o que este chamava: lustrar as andarilhas.

Ou porque o Matreiro experimentasse o sentimento de liberdade e independência própria de todo animal racional quando está assentado em cima de uma mesa, fumando cachimbo, balançando uma perna, enquanto se lhe escovam as botas que nem teve o trabalho de tirar; ou porque a bondade do tabaco lhe despertasse a sensibilidade, ou porque a boa qualidade da cerveja influísse em seu espírito, o certo é que o Matreiro revelou um movimento de entusiasmo contrário ao seu habitual caráter; com ar pensativo abaixou os olhos para Oliver, depois levantou a cabeça e disse com um suspiro, metade a si, metade a mestre Bates:

— É pena que ele não seja do ofício!

— Ah! É verdade — disse Carlinhos —, ele recusa a sua felicidade.

O Matreiro soltou outro suspiro e pegou outra vez no cachimbo. Fez o mesmo Carlinhos e ambos fumaram em silêncio durante alguns instantes.

— Aposto que tu nem sabes o que é o nosso ofício. — disse o Matreiro com ar de compaixão.

— Creio que sei — respondeu Oliver levantando a cabeça. — Quer dizer roub... Em suma, é o ofício dos senhores...

— Sim — respondeu o Matreiro —, e eu teria asco de mim se tivesse outro ofício.

Ao mesmo tempo pôs o chapéu na cabeça e convidou mestre Bates a dizer o contrário, se ousasse.

— Sim, é o meu ofício; e é também o de Carlinhos, o de Fagin, o de Sikes — e Nancy e o de Betty, e o ofício de nós todos, começando no velho e acabando no cão.

— O qual é o menos disposto a trair os companheiros. — acrescentou Carlinhos Bates.

— Não seria ele que nos comprometesse ladrando no banco das testemunhas; podia prendê-lo lá, quinze dias sem comer, que ele se não mexeria.

— Não tenhas medo disso — observou Carlinhos.

— É um cão esquisito! — continuou o Matreiro. — Não gosta de ouvir cantar ou rir e gosta de ouvir rabeca. Dos outros cães não parece fazer caso.

— É um perfeito cristão — disse Carlinhos.

Mestre Bates queria dizer com isto que era um cão dotado de todas as qualidades e não reparava que a sua frase tinha outro sentido igualmente justo; porque há homens e mulheres que se têm por verdadeiros cristãos e não se parecem com o cão do Sr. Sikes.

— Deste pateta nunca se há de fazer nada — disse o Matreiro.

— É verdade — respondeu Bates. — Oliver, por que não te pões ao serviço do Sr. Fagin?

— Tinhas a fortuna feita — disse o Matreiro.

— Viverias das tuas rendas como eu hei de viver das minhas.

— Não me agrada isso — respondeu timidamente Oliver. — Prefiro ir-me embora.

— E Fagin prefere que fiques — replicou Carlinhos.

— Mas tu não tens amor próprio? — disse o Matreiro. — Queres viver à custa dos teus amigos?

— Oh! — disse o Sr. Bates, tirando dois ou três lenços do bolso e pondo-os no armário. — Seria infame viver assim!

— Isso não impede que os senhores abandonem os seus amigos e os deixem ir à polícia

— disse Oliver.

— Foi simples consideração para com Fagin — respondeu o Matreiro —, porque os policiais sabem que nós trabalhamos com ele e, se não fugíssemos, ele estaria perdido. Não foi assim, Carlinhos?

Carlinhos fez um gesto afirmativo; mas lembrando-se da fuga de Oliver, deitou a rir, engoliu a fumaça e durante cinco minutos levou a tossir e a bater com o pé.

— Olha para isto — disse o Matreiro, tirando do bolso um punhado de xelins e pence —, isto é que se chama uma bela vida! E como se ganha isto? Hás de aprendê-lo, se quiseres. A fonte donde tirei esta melgueira ainda não está seca. E tu não queres fazer o mesmo, idiota?

— É feio, não te parece, Oliver? — disse o Carlinhos. — Ele acaba esperneando do alto.

—Não entendo — disse Oliver.

— Aqui está o que é — respondeu Carlinhos.

E ao mesmo tempo segurando uma das pontas da gravata e puxando-a para cima, inclinou a cabeça sobre o ombro e rangeu os dentes de um modo significativo, como para exprimir que espernear do alto e morrer na forca era a mesma coisa.

— Compreendes agora o que é — disse Carlinhos. — Olha, Matreiro, como ele me olha espantado. Nunca vi inocência semelhante! Há de matar-me este rapaz à força de me fazer rir.

E mestre Bates, depois de rir às gargalhadas, continuou a cachimbar.

— Fagin há de fazer de ti alguma coisa — disse o Matreiro a Oliver.

Mestre Bates apoiou esta opinião com muitas reflexões morais; depois, ele e o Matreiro travaram um diálogo a respeito da vida que levavam; insinuaram a Oliver que procurasse quanto antes cair nas boas graças de Fagin.

Pouco depois entrou o judeu em companhia de Miss Betty e de um rapaz que Oliver não conhecia, e a quem o Matreiro cumprimentou pelo nome de Tom Chitling.

O Sr. Chitling era três anos mais velho que o Matreiro; mas tratava o seu jovem companheiro com uma deferência que parecia indicar o reconhecimento de que se dava por inferior em gênio e habilidade no exercício da comum profissão.

Tinha olhos pequenos; piscava-os de contínuo; o rosto estava lavrado de bexigas. Trazia na cabeça um boné de lontra, uma jaqueta grossa, calças da mesma qualidade e um avental. Desculpou-se dizendo que acabara o tempo uma hora antes e que, tendo usado seis semanas a roupa do regulamento celular, não lhe sobrara tempo para cuidar de melhores adornos.

Acrescentou o Sr. Chitling, e com ar irritado, que lá haviam adotado um sistema de fumigação para a roupa, sistema infernal e inconstitucional, que queimava a roupa sem nenhum recurso; protestou contra o uso de se cortar o cabelo à gente e declarou que era ilegal; concluiu dizendo que durante quarenta e duas horas de trabalhos forçados não engolira uma gota d'água e tinha a goela tão seca como um forno.

— Oliver — perguntou o judeu, enquanto os jovens ratoneiros punham na mesa uma garrafa de aguardente —, donde pensas tu que vem este senhor?

— Não... Não sei — respondeu o menino.

— Quem é este? — perguntou Tom Chitling, deitando a Oliver um olhar de desdém.

— Um dos meus jovens amigos — replicou o judeu.

— Tem boa cara — disse o rapaz, olhando para Fagin com ar inteligente. — Não te importes donde eu venho, meu rapaz. Tu lá irás ter.

Os jovens ratoneiros riram desta graçola e, depois de algumas outras neste gosto, trocaram duas palavras em voz baixa com o judeu e saíram do quarto.

O judeu, Chitling e Oliver foram sentar-se depois junto ao fogão, e ai conversou longamente o judeu a respeito da habilidade do Matreiro, das graças de Bates e da liberdade dele.

Depois cada um foi para sua cama.

Desse dia em diante, nunca Oliver ficou só; estava sempre em comunicação com os dois ratoneiros, que ensaiavam de manhã a cena do costume. Seria para os fazer mais destros ou para educar pouco a pouco Oliver? Só o judeu podia responder cabalmente. Às vezes o malvado contava a Oliver histórias de seus furtos de rapaz, tão originais e interessantes que Oliver não podia conter o riso.

Em uma palavra, o miserável judeu apanhara na rede a criança; depois de a levar pela solidão e pela tristeza a preferir uma sociedade qualquer ia sentindo pouco a pouco em seu coração o veneno com que contava para o corromper e aviltar.

CAPÍTULO XIX

ADOÇÃO DE UM PLANO DE CAMPANHA.

Era noite escura, chuvosa e fria. O judeu, depois de abotoar até o pescoço o paletó e levantar a gola de maneira que lhe tapasse parte da cara, saiu do seu covil. Parou um instante na soleira, enquanto por dentro fechavam cuidadosamente a porta com a chave; e deitou a andar apressadamente.

A casa onde Oliver estava ficava na vizinhança de Whitechapel. Chegando à esquina da rua, o judeu parou outra vez, olhou desconfiado para todos os lados, passou ao lado oposto e dirigiu-se para Spitafields.

Espessa lama cobria a calçada; o nevoeiro enchia as ruas; a chuva caía lentamente; o ar estava frio; o chão, escorregadio. Numa palavra, era noite própria para aquele judeu.

Enquanto caminhava mansamente, encostado às paredes, o velho parecia um hediondo réptil saindo da lama e das trevas, resvalando nas sombras, à busca de imundo alimento.

Percorreu grande número de ruas estreitas e tortuosas, até chegar a Bethnal Green. Depois, voltando de repente para a esquerda, meteu-se por um dédalo de ruas pequenas e sujas, como se encontravam muitas naquele bairro populoso de Londres.

O judeu parecia conhecer perfeitamente aquele lugar que ia atravessando; entrou por uma rua alumiada por um só lampião, colocado no fim. Bateu à porta de uma casa e, depois de trocar algumas palavras em voz baixa com a pessoa que a abriu, subiu a escada.

No momento em que punha a mão no ferrolho, rosnou um cão e ouviu-se um homem dizer:

— Quem é?

— Sou eu, Guilherme, sou eu — disse o judeu abrindo a porta.

— Entre — disse Sikes. — Abaixo, cão! Não reconhecer o diabo com aquele grande paletó?

Naturalmente o vestuário de Fagin tinha iludido o cão; mas desde que o judeu desabotoou o paletó, o animal voltou para seu antro.

— Então? — disse Sikes.

— Então, meu amigo? — disse o judeu. — Ah! Boa noite, Nancy.

O judeu dirigiu-se à rapariga com certo enleio e como se duvidasse do recebimento que teria, porque era a primeira vez que a via depois que ela defendera Oliver. Mas as suas dúvidas, se as tinha, foram logo dissipadas pela própria Nancy; ela tirou os pés do fogão, recuou a cadeira e disse ao judeu que aproximasse a dele; a noite estava glacial.

— Dá-lhe de beber, Nancy — disse Sikes.

Nancy correu a tirar do armário uma garrafa. Sikes encheu um copo de aguardente e convidou o judeu a beber.

— Basta — disse o judeu, depois de torcer apenas os lábios.

— Pois você tem medo? — disse Sikes.

E com ar de desprezo deitou fora o líquido, encheu outra vez o copo e bebeu de um trago.

Durante esse tempo, Fagin olhava para todos os lados e recantos do quarto, não por curiosidade, pois que conhecia o lugar, mas com aquela expressão de desconfiança que lhe era natural.

— Vamos — disse Sikes, batendo com a língua —, o que me quer?

— Falemos de negócio, sim?

— Sim — respondeu Sikes. — Diga o que me quer?

— Venho falar daquela empresa à casa de Chertsey — disse o judeu, aproximando a cadeira e falando em voz baixa.

— Hein? O quê? — perguntou Sikes.

— Você bem sabe o que eu quero dizer, meu caro — disse o judeu. — Não é verdade, Nancy, que ele sabe o que eu quero dizer?

— Não sabe, não senhor — disse Sikes ironicamente em terceira pessoa — Não sabe ou não quer saber, o que é a mesma coisa; fale e chame as coisas pelo seu nome. Não me esteja aí a piscar o olho e a falar por enigma, como se não fosse você o primeiro que teve a idéia desse roubo. Explique-se!

— Está bom, Guilherme — disse o judeu, que tentara inutilmente moderar a indignação do Sr. Sikes. — Podem ouvir-nos.

— Pois que nos ouçam! — disse Sikes. — Importa-me pouco. Sikes compreendia que o judeu tinha razão e proferiu as últimas palavras em voz baixa.

— Ora vamos — disse o judeu com voz adocicada —, eu falava assim por prudência... nada mais. Agora, meu caro, falemos da casa de Chertsey; quando daremos o bote? Que

prataria, meus amigos, que prataria! — acrescentou ele esfregando as mãos e arregalando os olhos como se já possuísse o tesouro.

— Não, por ora não se faz nada — disse Sikes.

— Então é que andaram mal — disse o judeu, pálido de cólera. — Bem! Não falemos mais.

— Falemos sim — respondeu Sikes. — Quem é você para me tapar a boca? Digo-lhe que há quinze dias Tobias Crackit anda rodeando a casa e não pode vencer um só criado.

— Quererá você dizer — perguntou o judeu, que se ia amansando à proporção que Sikes se animava —, quererá você dizer que nenhum dos dois criados deu à língua?

— Justo — disse Sikes. — Servem a velha há vinte anos e nem por quinhentas libras esterlinas são capazes de se venderem.

— Mas, meu caro — observou o judeu —, e as mulheres? Nada se fez por aí?

— Nada.

— Nem por intermédio do sedutor Tobias Crackit? — perguntou o judeu, com certo ar de incredulidade. — Você bem sabe o que são mulheres.

— Nada, meu caro, o sedutor Tobias perdeu o tempo — respondeu Sikes. — Não lhe valeram as suíças postiças nem o colete de ganga.

— Devia ter posto bigodes — disse o judeu, depois de alguns instantes de reflexão.

— Pôs os bigodes, mas não arranjou nada.

Ouvindo isto, o judeu ficou desapontado e, depois de alguma reflexão, levantou a cabeça e disse que, se a exposição de Tobias era exata, o negócio estava gorado.

— E contudo — acrescentou ele pondo as mãos nos joelhos — é de lastimar perdermos tantas riquezas que já supúnhamos em nossas mãos.

—É verdade — disse Sikes —, só por grande caiporismo.

Longo silêncio houve, durante o qual o judeu ficou mergulhado em profunda meditação; as suas feições tinham uma expressão verdadeiramente diabólica. De quando em quando, Sikes o observava com o rabo do olho e Nancy, receando irritar o bandido, ficava imóvel, com os olhos pregados na chaminé, como se não tivera ouvido uma palavra da conversa.

— Fagin — disse Sikes rompendo o silêncio —, ganharei eu de quebra cinqüenta soberanos, se pusermos a mão na melgueira?

— Sim — disse o judeu como se saísse de um sonho.

— Está dito — repetiu o judeu, apertando as mãos de Sikes.

Os olhos dele fuzilavam, e todos os músculos da cara traíam a comoção que semelhante proposta lhe causava.

— Neste caso — disse Sikes, repelindo a mão do judeu com desdém —, estará feito quando você quiser. Anteontem de noite, eu e o Tobias escalamos o muro do jardim e sondamos as portas. A casa de noite está fechada como se fosse uma prisão; mas há um lugar que podemos romper sem bulha.

— Onde, Guilherme? — perguntou o judeu.

— Apenas se atravessar...

— Sim, sim — disse o judeu arregalando os olhos.

— Olé! — disse Sikes parando de repente ao ver um sinal de cabeça feito por Nancy que chamara a atenção dele para a cara do judeu. — Que lhe importa saber onde é? Bem sei que você nada pode fazer sem mim! Mas toda a cautela é pouca com um homem da sua laia.

— Como quiser, meu caro — respondeu o judeu mordendo os beiços. — E não é preciso mais ninguém além de você e Tobias?

— Não — disse Sikes —, isto é, precisamos de uma criança.

— Uma criança! — disse o judeu. — Oh! então é preciso entrar por algum buraco pequeno?

— Que lhe importa isso? — replicou Sikes. — Quero uma criança e não gorda. Ah! Se eu tivesse o pequeno do Ned... Ele costumava alugá-lo para estes e outros serviços; mas o pai deixou-se agravar e a sociedade dos jovens delinqüentes levou o pequeno para lhe ensinar um ofício. Aí está como eles procedem! Graças a Deus que eles não têm muito dinheiro; senão, nem teríamos meia dúzia de crianças por ano.

— É verdade — observou o judeu. — Guilherme?

— Que é?

O judeu fez um gesto de cabeça indicando Nancy, que estava imóvel diante do fogo; queria que ele a mandasse embora; Sikes levantou os ombros, mas cedeu e disse a Nancy que fosse buscar uma garrafa de cerveja.

— Tu não queres cerveja — disse a rapariga.

— Quero — disse Sikes.

— Qual! — replicou ela com sangue frio. — Continue, Fagin. Eu sei o que ele vai dizer, Guilherme; não precisa mandar-me embora.

O judeu hesitava, e Sikes olhou para ambos com alguma surpresa.

— Em que é que esta rapariga o pode incomodar, Fagin? — perguntou ele. — Há muito que você a conhece, pode fiar-se nela. Ela não é rapariga de dar à língua.

— Creio que não — disse Nancy, aproximando a cadeira e fincando na mesa os cotovelos.

— Não, não, eu não desconfio — disse o judeu. — Mas... E parou.

— Mas o quê? — perguntou Sikes.

— Eu não sabia se ela estava zangada comigo pelo que outro dia aconteceu.

Nancy soltou uma gargalhada e, bebendo um cálice de aguardente, sacudiu a cabeça com ar de desafio e entrou a soltar exclamações incoerentes, o que pareceu tranqüilizar os dois homens.

O judeu abanou a cabeça com satisfação e sentou-se. Sikes fez o mesmo.

— Agora, Fagin — disse Nancy rindo —, conte a Guilherme os seus projetos acerca de Oliver.

— Ah! Tu és uma grande finória, és a rapariga mais esperta que eu conheço, disse o judeu, batendo-lhe no pescoço. — Era justamente de Oliver que ia falar.

— Para quê? — perguntou Sikes.

— É a criança de quem você precisa, meu caro — respondeu o judeu em voz baixa, pondo o dedo no nariz e fazendo uma atroz careta.

— Ele? — disse Sikes.

— Leva-o, Guilherme — disse Nancy. — No teu lugar não hesitava; ele não está tão adestrado como os outros, mas que importa isso, se só se trata de abrir uma porta? Podes contar com ele.

— É verdade — respondeu o judeu. — Ele precisa ganhar a vida. Além disso, os outros são gordos demais para o caso.

— Oliver tem justamente as dimensões que eu preciso — disse Sikes.

— E fará tudo o que você quiser, meu caro — interrompeu o judeu — Contanto que você lhe meta medo.

— Meter-lhe medo! — disse Sikes. — Ele há de ter medo naturalmente. Se der com a língua nos dentes, não volta vivo. Fagin, reflita antes de mandar o pequeno. Olhe que se ele não portar bem, dou-lhe cabo do canastro.

— Já refleti em tudo isso — respondeu o judeu com energia. — Eu o tenho observado de perto; se ele se convencer de que é dos nossos, de que roubou... está conosco por toda a sua vida. Oh! Não podia vir mais a propósito!

E o velho cruzou os braços, enterrou a cabeça entre os ombros e estremeceu de alegria.

— Nosso? — perguntou Sikes. — Diga seu. Oliver ficará sendo seu.

— Pois seja isso — disse o judeu.

— Mas — disse Sikes encarando o seu jovial amigo — não me dirás por que razão se interessa tanto por aquele fedelho, quando sabe que todas as noites há cinqüenta como ele nos arredores de Comon-Garden, entre os quais não há mais que escolher?

— Porque esses não prestam para nada, meu caro — respondeu o judeu um pouco atrapalhado. — Não vale a pena educá-los; quando a polícia os fila ficam logo com uma cara de confissão e lá os perco todos. Oliver não é assim; quando estiver bem educado posso fazer mais com ele que com vinte. Depois, se ele nos fugir, estamos perdidos; é indispensável conservá-lo conosco. Basta que ele entre num roubo para ficar eternamente conosco e é o que eu quero. Isto é melhor que desfazermos dele; perderíamos com isso e correríamos perigo.

— Quando é a empresa? — perguntou Nancy, no momento em que o Sr. Sikes ia exprimir

o profundo enojo que lhe inspirava a humanidade de Fagin.

— Ah! É verdade, quando é? — disse o judeu.

— Depois de amanhã — respondeu Sikes com voz sombria. — Está tratado com Tobias, a menos de lhe dar contra-ordem.

— Bom — disse o judeu —, não há luar.

— Não — disse Sikes.

— E tudo está disposto para levar o pequeno? — perguntou Fagin.

Sikes fez um sinal afirmativo.

— E já se lembrou você...

— Oh! Tudo está previsto, basta de falar nisto. Traga o pequeno amanhã de noite; eu saio de madrugada e o roubo é de noite.

Depois de uma discussão em que os três personagens entraram, ficou assentado que no dia seguinte, de noite, Nancy iria à casa do judeu buscar Oliver. Fagin observou com finura que, se o pequeno mostrasse repugnância, acompanharia mais depressa a Nancy que a qualquer outra pessoa, pois que ela se interessava em favor dele.

Ficou estipulado formalmente que Oliver seria abandonado, sem reserva, aos cuidados e guarda do Sr. Guilherme Sikes, e, além disso, que o dito Sikes tratá-lo-ia conforme lhe aprouvesse, sem se responsabilizar com o judeu do que acontecesse ao pequeno, nem do castigo que julgasse necessário aplicar, com a condição porém de que as asserções de Sikes seriam confirmadas em todos os pontos pelo testemunho do galante Tobias Crackit.

Assentados todos estes pontos, Sikes entrou a beber aguardente, a cantar e a praguejar. Num acesso de entusiasmo, quis examinar a sua caixa de ferramentas; apenas a tinha aberto e ia explicar o uso dos vários instrumentos, caiu no assoalho e dormiu imediatamente.

— Boa noite, Nancy — disse o judeu, vestindo o sobretudo.

— Boa noite.

Os olhos de ambos se encontraram, e Fagin lançou à rapariga um olhar penetrante e interrogativo. Ele afrontou o olhar. O judeu deu um pontapé no bêbado e desceu as escadas às apalpadelas.

— Sempre a mesma coisa — dizia o judeu entre dentes quando se achou na rua. — O que há de pior nas mulheres é que um nada lhes lembra um sentimento esquecido desde muito; mas o que vale é que isso não dura. Ah! Ah! O homem contra o menino, por um saco de ouro!

Distraindo-se com estas agradáveis reflexões, o Sr. Fagin voltou para o covil, onde o Matreiro ainda estava a pé, esperando com impaciência a volta do patrão.

— Oliver já está deitado? Preciso falar-lhe — disse o judeu entrando.

— Há muito tempo — respondeu o Matreiro, abrindo uma porta. — Está ali.

A criança dormia profundamente, deitada em um grosseiro colchão estendido no assoalho. A inquietação, a tristeza, o tédio do cativeiro, o tinham feito pálido como a morte, não como ela se nos mostra com uma mortalha e num féretro, mas tal qual se nos depara logo que a vida se extingue, quando uma alma jovem e pura voa para o céu, sem que o ar grosseiro do mundo haja manchado o rosto que ela animava e santificava.

— Hoje, não — disse o judeu, afastando-se sem rumor. — Amanhã, amanhã.

CAPÍTULO XX

OLIVER É ENTREGUE AO SR. GUILHERME SIKES.

De manhã quando acordou, teve Oliver a surpresa de achar ao pé da cama, em vez dos sapatos velhos, um par de sapatos novos, com boas solas. A descoberta o alegrou na esperança de que era talvez o prelúdio de sua liberdade, mas essa esperança depressa desapareceu. Na ocasião do almoço, estando só com o judeu, este lhe disse, com um tom e um ar que lhe aumentaram os receios, que nessa mesma noite iriam buscá-lo para o levar à casa de Guilherme Sikes.

— É para... para ficar lá? — perguntou Oliver com ansiedade.

— Não, não, meu amigo, não é para ficar — respondeu o judeu. — Não queremos perder-te. Não tenhas medo, hás de voltar. Oh! Não havemos de ser tão cruéis que te abandonemos. Oh! Não!

O velho, zombando assim com o pequeno, estava sentado diante do fogo, ocupado em torrar uma fatia de pão. Pôs-se a rir para mostrar que sabia perfeitamente ser do gosto do pequeno ver-se livre dele.

— Suponho — disse ele olhando fixamente para Oliver —, suponho que desejes saber por que motivo vais à casa de Guilherme.

— Sim, senhor, desejava saber.

— Não desconfias para o que será? — disse Fagin.

— Não, senhor.

— Bem — disse o judeu, voltando-se com ar desapontado depois de ter examinado o rosto do pequeno —, Guilherme te dirá o que é.

O judeu pareceu zangar-se por não ver mais curiosidade em Oliver; mas a verdade é que

o pequeno, posto estivesse devorado de inquietação, ficou tão perturbado com o olhar do judeu que não ousou perguntar mais nada.

O judeu ficou silencioso até a noite.

Depois preparou se para sair.

— Podes acender uma vela — disse o judeu — e aqui tens um livro para te distraíres até que eu venha buscar-te.

— Boa noite — disse Oliver.

O judeu dirigiu-se até a porta, olhando sempre para o pequeno às furtadelas; depois parou repentinamente e disse:

— Oliver.

Oliver levantou a cabeça; o judeu mostrou-lhe a vela, fez-lhe sinal para que o alumiasse. Ele obedeceu e, ao pôr a vela na mesa, viu que o judeu olhava para ele com as sobrancelhas carregadas e o examinava atentamente.

— Toma cautela, Oliver! — disse o velho com um gesto que dizia ainda mais que as palavras. — Ele é um brutamontes capaz de tudo. Aconteça o que acontecer, não digas nada e faze o que ele mandar. Reflete bem no que te digo!

Carregou nestas últimas palavras; passou-lhe pelos lábios um terrível sorriso; fez um sinal de cabeça e saiu.

Apenas Oliver ficou só, pôs a cabeça nas mãos e refletiu com angústia nas palavras que acabava de ouvir; quanto mais pensava na recomendação do judeu, mais se perdia em conjeturas acerca do alcance e do sentido daquele conselho. Se havia a seu respeito intenções criminosas, não as podiam executar em casa de Fagin como em casa de Sikes? Quando considerou largamente, concluiu que ele era mandado para desempenhar em casa de Sikes algumas funções domésticas, até que se encontrasse criado.

Sofrera tanto que não lhe doía uma mudança, qualquer que fosse. Ficou mergulhado nestes pensamentos, depois espevitou a vela suspirando e, abrindo o livro que Fagin deixara, entrou a folheá-lo. Folheou-o a princípio com ar distraído; mas para logo deu com um trecho que lhe chamou a atenção e acabou por ficar completamente absorvido na leitura.

Era a história da vida e do processo dos grandes criminosos. O livro servira tanto que as páginas estavam sujas e enegrecidas. Leu a narração de horríveis crimes, crimes de arrepiar os cabelos, assassinatos cometidos secretamente de emboscada, histórias de cadáveres lançados dentro de poços, que apesar de profundos não os puderam guardar muito tempo; ao cabo de alguns anos foram achados, e os assassinos, ao vê-los, confessaram tudo e por isso foram ter à forca.

Adiante havia a história de homens que pouco a pouco se haviam familiarizado com a idéia do crime e acabavam cometendo horrores.

Todos esses quadros eram traçados com tal verdade que as páginas do livro aos olhos de Oliver pareciam ter uma cor de sangue.

A criança aterrada atirou o livro para longe; caiu de joelhos e pediu a Deus que o deixasse puro de semelhantes crimes e lhe mandasse antes a morte do que lhe permitisse ficar assassino.

Oliver foi se acalmando pouco a pouco e, com voz fraca, pediu ao céu que o socorresse no meio dos perigos que o ameaçavam, que tivesse pena de uma criança enjeitada, que nunca conhecera a afeição de um parente nem de um amigo, e que lhe desse a mão no meio dos homens perversos que o rodeavam.

Acabada esta rogativa, ainda Oliver estava ajoelhado, com a cabeça nas mãos, quando um rumor o veio despertar.

— Quem é? — disse ele levantando-se e vendo alguém ao pé da porta.

— Sou eu, eu só — respondeu uma voz trêmula.

Oliver levantou a vela acima da cabeça e olhou para o lado da porta.

Era Nancy.

— Abaixa a vela que me faz mal aos olhos — disse a moça, desviando a cabeça.

Oliver viu que ela estava muito pálida e perguntou afetuosamente se estava doente. Nancy deixou-se cair em uma cadeira, voltando-lhe as costas e torcendo as mãos; mas não respondeu.

— Deus me perdoe! — disse ela depois de algum tempo — Mas isto é incrível.

— Aconteceu-lhe alguma coisa? — perguntou Oliver. — Precisa de mim? Fale.

— Nancy! — disse Oliver inquieto. — Que tem?

Nancy agitou-se na cadeira, levou a mão à garganta, soltou um surdo gemido e fez um esforço para respirar.

A rapariga bateu com as mãos nos joelhos e com os pés no assoalho; depois envolveu se no xale e tiritou de frio.

Oliver atiçou o fogo; ela aproximou-se do fogão e ficou alguns minutos sem dizer palavra; afinal levantou a cabeça e olhou à roda de si.

— Não sei o que é isto que me dá, de quando em quando — disse ela, procurando tranqüilizar-se. — Creio que é efeito deste quarto úmido. Estás pronto, Oliver?

— Eu vou com a senhora? — perguntou o pequeno.

— Sim — respondeu ela. — Venho da parte de Guilherme; é necessário que venhas comigo.

— Para quê? — perguntou Oliver, recuando dois passos.

— Para quê? — repetiu Nancy, olhando para o menino, mas apenas deu com os olhos dele, abaixou os seus. — Oh! Não é para nada de mal!

— Duvido — disse Oliver, que a observava.

— Como quiseres — disse Nancy com um riso afetado. — Será então para nada de bom.

Oliver percebeu que tinha alguma influência na sensibilidade de Nancy e teve a idéia de apelar para a sua comiseração; mas lembrou-se de repente que eram apenas onze horas e que na rua acharia alguém que desse fé às suas palavras. Desde que esta reflexão se lhe apresentou ao espírito, Oliver caminhou para a porta e disse que estava pronto.

Nem a reflexão, nem o projeto de Oliver deixaram de ser notados por Nancy. Enquanto ele falava, ela o observava atentamente e deitou-lhe um olhar que mostrava conhecer o que se passava dentro do pequeno.

— Silêncio! — disse ela, inclinando-se para Oliver e apontando-lhe para a porta, enquanto olhava à roda de si com precaução. — Tu não podes fugir. Eu fiz em teu favor tudo o que pude, mas não houve meio. Estás cercado por todos os lados e se alguma vez puderes fugir, não é agora.

Oliver olhou pasmado para a moça. Evidentemente ela falava sério. Estava pálida e agitada; tremia.

— Já fiz com que cessassem os maus-tratos de que sofrias — disse ela — e o continuarei a fazer; é por isso que eu estou aqui; porque, se os outros viessem buscar-te, tratar-teiam com aspereza. Prometi que tu terias juízo; se assim não acontecer, padecerás tu, e eu também, e tu serás causa talvez da minha morte. Olha o que eu já sofri por tua causa!

Ao mesmo tempo ela mostrava a Oliver o pescoço e os braços cobertos de arranhões e contusões.

Nancy continuou:

— Não esqueças isso e não faças com que eu tenha agora novos padecimentos; eu quisera ajudar-te nesta ocasião, mas está acima do meu poder. Ninguém te quer fazer mal, e tu não és responsável pelo que exigirem de ti. Cala-te! Cada palavra que proferires me fará mal. Dá cá a mão. Anda depressa!

Nancy pegou na mão que Oliver lhe estendeu maquinalmente, apagou a vela e levou o pequeno para o alto da escada. A porta foi aberta por uma pessoa escondida na escuridão e fechada apenas eles saíram. Esperava os um carro de aluguel; Nancy e Oliver entraram nele e fecharam as portinholas. O cocheiro não perguntou para onde iam, e em menos de um segundo o cavalo partiu como um raio.

Nancy apertava a mão de Oliver e lhe repetia em voz baixa as suas recomendações.

Tudo isto foi objeto de um instante; e Oliver mal tinha tempo de pensar onde se achava, quando o carro parou à porta da casa onde o judeu fora na véspera.

Oliver lançou um olhar rápido para a rua deserta e esteve quase a gritar por socorro. Mas a rapariga falava ao ouvido dele e pedia que a não comprometesse, com tal modo que Oliver perdeu o ânimo. Demais, passara o tempo; estavam dentro de casa; fechara-se a porta.

— Por aqui! — disse Nancy largando a mão de Oliver. — Guilherme!

—Lá vou! — respondeu Sikes, ajoelhando no alto da escada com uma vela na mão. — Tudo vai bem! Sobe! Para um indivíduo da têmpera de Sikes aquelas palavras eram de satisfação e

singularmente cordiais. Nancy pareceu muito sensível a isso e deu amigavelmente as boas-noites.

— Mandei o cão com o Tomás — observou Sikes, alumiando-os. — Podiam atrapalhar o negócio.

— Tens razão — respondeu Nancy.

— Onde está o pequeno? — perguntou Sikes, fechando a porta.

— Aqui está — disse Nancy.

— Mostrou-se manso?

— Como um cordeiro.

— É bom sabê-lo — disse Sikes, olhando para Oliver com ar feroz. — Tanto melhor para ti; quando não, dava-te cabo do canastro. Vem cá e ouve bem. Melhor é que te diga tudo de uma vez.

Falando assim ao seu novo protegido, o Sr. Sikes tirou-lhe o boné e o atirou para um canto; depois, puxando Oliver pelo ombro, sentou-se ao pé da mesa e fê-lo conservar-se direito diante de si.

— Conheces isto? — perguntou Sikes, tirando de cima da mesa uma pistola de algibeira. Oliver respondeu afirmativamente.

— Nesse caso, atenção! — continuou Sikes. — Aqui está pólvora, aqui está uma bala e um pedaço de chapéu velho para servir de bucha.

Oliver murmurou em voz baixa que conhecia aqueles vários objetos, e o Sr. Sikes começou a carregar a pistola com muito cuidado.

— Está carregada — disse ele.

— Sim, senhor, estou vendo — disse Oliver, trêmulo.

— Pois bem — disse o bandido, apertando o pulso de Oliver e aplicando-lhe o cano da pistola a uma das fontes e tão perto que a criança não pôde reter um grito. — Se, depois

que sairmos de casa, tiveres a desgraça de dizer uma só palavra sem que eu te fale antes, meto-te uma bala na cabeça, sem mais preâmbulo. Ora, pois, se for de teu capricho falar sem licença minha, encomenda a alma a Deus.

Para dar mais força às suas palavras, o Sr. Sikes proferiu uma horrível praga e continuou:

— Pelo que me consta, se eu te mandasse para o outro mundo, ninguém viria saber notícias tuas; portanto, só em teu benefício é que eu te dei estas explicações. Entendes?

— Isto significa simplesmente — disse Nancy, carregando em cada palavra para despertar a atenção de Oliver — que se ele te resistir no negócio que vais tratar, tu lhe taparás a boca para sempre metendo uma bala nos miolos e corres o risco de ser enforcado por isso, como te expões a cada instante no teu ofício.

— Justo! — observou Sikes com ar de aprovação. — As mulheres sabem sempre dizer as coisas em poucas palavras, exceto quando se enfurecem... porque então não acabam mais. Agora que o fedelho está instruído, vamos cear e dormir um pouco antes de partir.

Imediatamente, Nancy estendeu a toalha na mesa e, depois de sair alguns instantes, voltou com um canjirão de cerveja e um prato de cabeça de carneiro, o qual inspirou ao Sr. Sikes alguns ditos picantes. Aquele honestíssimo sujeito, estimulado talvez com a perspectiva de uma imediata expedição, mostrou-se alegre e folgazão. Por exemplo, achou que era muito engraçado beber toda a cerveja de um trago e praguejou mais de cem vezes durante a ceia.

Acabada a ceia (compreende-se facilmente que Oliver não tivesse muita fome), o Sr. Sikes rebateu a comida com dois cálices de aguardente e deitou-se na cama, ordenando a Nancy, com ameaça, que o acordasse às cinco horas em ponto. Intimou a Oliver que se deitasse vestido no colchão. A rapariga atiçou o fogo e sentou-se diante da lareira para acordar o ladrão à hora marcada.

Oliver esteve muito tempo acordado; pensava talvez que Nancy procuraria ensejo de lhe dar algum conselho em voz baixa; mas ela ficou imóvel diante do fogo. Exausto de fadiga e de medo, o menino adormeceu profundamente.

Quando acordou, o bule do chá estava na mesa, e Sikes metia vários objetos na algibeira de um grande paletó, estendido nas costas de uma cadeira, enquanto Nancy arranjava o almoço apressadamente. Ainda não era dia; a vela estava acesa, e fora tudo parecia escuro. Violenta chuva batia nos vidros, e o céu estava alastrado de nuvens.

— Vamos! Vamos! — resmungava Sikes enquanto Oliver se levantava — São cinco horas e meia! Anda ou não tens tempo de almoçar; precisamos sair quanto antes.

Oliver não gastou muito tempo em aperfeiçoar a toalete; comeu um bocadinho e disse que estava pronto.

Nancy, sem olhar para ele, atirou-lhe um lenço para enrolar no pescoço por causa do frio; das mãos de Sikes recebeu um grande colete de pano grosso para cobrir os ombros.

Assim arranjado, o menino deu a mão ao salteador, que parou um instante para lhe mostrar, com gesto de ameaça, a pistola que tinha na algibeira do paletó; depois apertou a mão de Oliver, disse adeus a Nancy e saiu.

Quando transpunham a soleira da porta, Oliver voltou a cabeça, na esperança de encontrar o olhar de Nancy; mas ela voltara ao seu lugar diante da lareira e parecia completamente imóvel.

CAPÍTULO XXI

A EXPEDIÇÃO.

Era triste a madrugada em que eles saíram; o vento soprava com força e a chuva caía a cântaros; nuvens sombrias e espessas velavam o céu; a noite toda fora chuvosa, porque grandes correntes de água sulcavam a rua. Tênue clarão anunciava a proximidade do dia, entristecendo ainda mais a cena; a pálida luz da aurora enfraquecia a luz dos lampiões, sem clarear os tetos sombrios e as ruas solitárias; não havia sinal de vida no bairro; todas as janelas estavam cuidadosamente fechadas e as ruas que eles iam atravessando, desertas e silenciosas.

Quando atravessaram Bethnal Green, era já dia claro. Muitos lampiões estavam apagados; algumas carroças se dirigiam lentamente para Londres; de quando em quando, passava uma diligência coberta de lama, e o cocheiro, por divertimento, dava uma lambada no carroceiro, que, não tendo tomado a direita da rua, expunha a diligência a chegar meio minuto mais tarde.

Os botequins, interiormente iluminados a gás, já estavam abertos. Pouco a pouco, se foram abrindo outras lojas, e algumas pessoas passavam na rua; grupos de operários iam para o seu trabalho; homens e mulheres levavam à cabeça cestos de peixe; carroças de legumes puxadas por burros; carrinhos à mão cheios de carne; mulheres leiteiras com as celhas nos braços; em suma, uma fila contínua de gente que se dirigia com a sua mercadoria para os arrabaldes a leste da capital.

À proporção que se aproximavam da City, o rumor e o movimento iam aumentando, e quando enfiaram pelas ruas situadas entre Sboreditch e Smithfield atiraram-se no meio de um verdadeiro tumulto de gente; era dia claro, tanto quanto pode ser claro em Londres um dia de inverno, e já metade da população estava entregue aos seus negócios matutinos.

Depois de deixarem Sun-Street e Crown-Street e atravessarem Finsburg Square, o Sr. Sikes entrou em Christwellt-Square, Barbican e Long-Lane, e chegaram a Smithfield, donde saiu um sussurro tal que surpreendeu a Oliver.

Era dia de mercado; a lama dava pelos tornozelos; espesso vapor saía do corpo dos animais e se confundia com o nevoeiro em que desapareciam as chaminés. Todos os parques no meio daquele vasto recinto estavam cheios de carneiros; havia até alguns parques provisórios, e uma multidão de bois e animais de toda a espécie estavam presos, em filas intermináveis, a umas estacas fincadas no chão; campônios, carniceiros, mercadores ambulantes, crianças, ladrões, vadios, vagabundos de toda a espécie, misturados e confundidos, formavam uma massa confusa.

O latir dos cães, o balir dos carneiros, o grunhir dos porcos, os gritos dos mascates, as exclamações, as pragas, as rusgas, os sinos e as conversas que se ouviam de todas as tavernas, o rumor da gente que ia e vinha, o movimento de tantos homens de aspecto repelente e barba inculta, andando de um lado para outro, acotovelando-se, esbarrando-se, tudo contribuía para ensurdecer e tontear um espectador.

O Sr. Sikes, arrastando Oliver consigo, abria caminho por meio da chusma compacta e dava pouca atenção ao tumulto, que era para a criança coisa nova e surpreendente. Duas ou três vezes fez um sinal de cabeça a amigos que encontrava, mas de cada vez recusava matar o bicho e continuava a andar o mais depressa que podia, até que saiu do mercado e entrou em Hovier-Lane e Holburn.

— Anda, pequeno! — disse ele, olhando para o relógio da igreja de Santo André. — São quase sete horas! Dá sebo nas canelas; não fiques atrás, preguiçoso!

Dizendo isto, o Sr. Sikes sacudiu rudemente o braço de Oliver, e este, apressando o passo, regulou como pôde o seu andar pelas grandes pernadas do salteador.

Conservaram este passo rápido até além de Hyde Park, no caminho de Kensington.

Sikes afrouxou o passo e esperou que uma carroça vazia que vinha atrás deles os alcançasse; vendo escrito na carroça: Hounslow, perguntou ao carroceiro, com toda a polidez de que era capaz, se os podia levar até Isleworth.

— Suba — disse o homem. — Este pequeno é seu?

— É — respondeu Sikes, olhando para Oliver e pondo a mão no bolso onde tinha a pistola.

— Teu pai anda muito depressa, não? — perguntou o carroceiro, vendo Oliver ofegante.

— Qual! — respondeu Sikes. — Ele já está acostumado. Dá cá a mão, Eduardo, sobe depressa.

Ao mesmo tempo fez com que o pequeno subisse para a carroça; o carroceiro apontou para um monte de sacos e disse ao pequeno que se deitasse neles.

Vendo passar, uns após outros, na estrada, os marcos que indicavam as milhas, Oliver perguntava a si mesmo, e com pasmo, onde é que o seu companheiro o ia levar. Já eles haviam passado Kensington, Hammer-smith, Chiswick, Kew-Bripge, Brentford, e iam sempre para diante. Afinal chegaram a uma hospedaria cuja tabuleta dizia: “Diligência de quatro cavalos”; um pouco adiante a estrada era cortada por um caminho transversal. A carroça parou.

Sikes desceu com precipitação, sem largar a mão de Oliver; depois ajudou-o a descer, lançando-lhe um olhar furioso e levando a mão à algibeira onde tinha a pistola.

— Até mais ver, meu menino — disse o homem.

— Não repare — disse Sikes —, meu filho é muito vexado.

— Qual reparar! — disse o homem. — Olhe, vamos ter um bonito dia. O céu está limpando.

Chicoteou o cavalo e continuou viagem.

Sikes esperou que ele estivesse longe e continuaram os dois a andar.

A pouca distância da hospedaria voltaram à esquerda, depois à direita, e andaram muito tempo. A estrada era orlada de bonitas casas e jardins elegantes. Lá pararam para tomar um pouco de cerveja e chegaram enfim a uma cidade onde Oliver leu em grandes letras pintadas em um muro: “Hampton”. Andaram nos campos algumas horas; afinal voltaram à cidade, entraram em uma hospedaria e foram jantar à cozinha.

Era uma espécie de sala baixa, com uma grande trave no meio do teto, e diante da lareira bancos com costas altas, nos quais estavam assentados muitos homens vestidos de blusa, bebendo e fumando; olharam rapidamente para Sikes e nem deram fé de Oliver.

Sikes nenhuma atenção lhes prestou e foi assentar-se num canto com o seu companheiro.

Foram servidos de carne fria. Depois do jantar o Sr. Sikes fumou três ou quatro cachimbos e acreditou que não iriam mais longe.

Cansado de tamanha viagem e atordoado com o fumo, Oliver adormeceu profundamente.

Era noite fechada quando Sikes o acordou. Abrindo os olhos, Oliver viu o seu companheiro em conferência íntima com um campônio.

— Você vai portanto ao Baixo Halliford, não? — perguntou Sikes.

— Sim — respondeu o homem, que parecia um pouco aquecido pelo licor que bebia em companhia de Sikes. — Não é longe. O meu cavalo não leva tanta carga como trouxe efará a viagem rapidamente. É um soberbo animal.

— Pode levar-me até lá e bem assim o meu pequeno?

— Sim — se forem já; vão a Halliford?

— Vou a Sheperton.

— Irá comigo até onde eu for — disse o homem. — Tudo está pago, Rebecca?

— Este senhor pagou tudo.

— Ora vamos! — disse ele. — Isto não pode ser assim.

— Por quê? — disse Sikes. — Você faz-nos um obséquio; não vale isto um ou dois tragos?

O estrangeiro pesou maduramente o valor deste argumento, depois apertou a mão de Sikes, declarando que era um homem digno. Sikes respondeu modestamente que o elogio era brincadeira, o que seria fácil de crer, se o homem estivesse em seu juízo.

Depois de trocarem algumas cortesias, deram as boas noites e saíram, enquanto a criada arranjava os canjirões e os copos e, com as mãos cheias, ia vê-los passar pela porta.

O cavalo, a cuja saúde haviam bebido, estava diante da porta, atrelado à carroça. Oliver e Sikes subiram sem mais cerimônia, o campônio, depois deter elogiado outra vez o cavalo, subiu também à carroça. O criado da hospedaria segurou na arreata do cavalo e o levou para o meio da estrada; mas apenas o animal se viu solto entrou a fazer um mau uso da liberdade, dando saltos mortais, até que disparou a galope.

A noite estava escura; do rio e das lagoas próximas subia um espesso nevoeiro que se espalhava pelos campos. O frio era intenso. Tudo era sinistro; os viajantes não trocaram uma palavra, o condutor adormeceu e Sikes não tinha vontade de começar nenhuma conversa; Oliver, encolhido em um canto, cuidava ver nas árvores, cujos galhos se balançavam tristemente, outros tantos fantasmas no meio daquela natureza triste.

Quando passaram pela igreja de Lumbury, o relógio bateu sete horas. Brilhava a alguma distância uma casa, uma luzinha que se projetava na estrada, quanto bastava para alumiar uma árvore que cobrira uma sepultura. Ouvia-se perto o rumor monstruoso de uma cascata, e a folhagem da árvore balançava docemente ao vento da noite. Disse-se uma música para descanso dos mortos.

Depois de atravessarem Sunburg, acharam-se na estrada solitária. Duas ou três milhas adiante parou a carroça. Sikes desceu, levando Oliver pela mão, e começaram a andar.

Em Sheperton, não pararam em nenhuma parte, como desejava a criança, exausta de fadiga; mas continuaram a andar por maus caminhos, no meio da lama e das trevas, até que viu que o rio corria ao pé deles e que eles se iam aproximando de uma ponte.

No momento em que iam atravessar a ponte, Sikes voltou repentinamente à esquerda e desceu para o rio.

— O rio! — pensou Oliver meio morto de medo. — Trouxe-me aqui para me atirar ao rio!

Ia atirar-se ao chão e tentar um supremo esforço para salvar a vida,quando viu que paravam diante de uma casa isolada e arruinada. Havia uma janela de cada lado da porta e um só andar por cima; nenhuma aparência de luz; a casa tinha ares de não ser habitada por ninguém.

Sikes, segurando sempre a mão de Oliver, dirigiu-se lentamente para a porta e empurrou a tronqueira, a porta cedeu e entraram ambos.

CAPÍTULO XXII

ARROMBAR PARA ROUBAR.

— Quem vem lá? — perguntou uma voz grossa apenas eles entraram na casa.

— Não faças bulha — disse Sikes, correndo o ferrolho da porta. —Acende uma vela, Tobias.

— Ah! És tu, camarada — disse a mesma voz. — Traze luz, Barney. Mostra o caminho ao senhor; e trata de acordar, se te for possível.

A pessoa que falava atirou provavelmente uma descalçadeira, ou qualquer outro objeto semelhante, contra a pessoa a quem falava, para arrancá-la do sono em que jazia. Ouviu-se o som de um pedaço de pau com força no chão e o resmungar de um sujeito meio acordado.

— Ouves? — disse a mesma voz. — Guilherme Sikes está no corredor, sem ninguém para

o receber; e tu está aí a dormir, como se houvesse bebido laudanum! Tens os olhos abertos, ou será preciso que eu te deite aos olhos o castiçal de ferro?

Ouviu-se um rumor de tamancos no assoalho, depois uma vela acesa nesse momento apareceu numa porta da direita, e por fim apareceu um indivíduo, que já apresentamos endefluxado e empregado como caixeiro na taverna de Saffron-Hill.

— O Sr. Sikes! — exclamou Barney com uma alegria real ou fingida. — Entre, entre!

— Passa para a frente — disse Sikes, empurrando Oliver —, vamos ligeiro!

Praguejando contra a lentidão do menino, o Sr. Sikes empurrou-o para a porta, e entraram ambos numa sala baixa, sombria e enfumada, ornada com duas ou três cadeiras quebradas, uma mesa e um velho canapé, no qual um indivíduo, com os pés muito mais altos que a cabeça, estava fumando um comprido cachimbo.

Vestia o tal sujeito uma casaca cor de castanha, cortada à última moda, com grandes botões luzidios, gravata cor de laranja, colete de rebuço de cor muito vistosa e calças pardas. O Sr. Tobias Crackit (era ele) tinha poucos cabelos; mas os poucos que tinha eram ruivos e encaracolados à maneira de saca-rolhas, e ele metia-lhes muitas vezes as mãos sujas e ornadas de grossos anéis. Era acima de meão e parecia ter as pernas fracas; o que lhe não impedia de admirar as botas.

— Muito estimo ver-te, meu Guilherme — disse ele, voltando a cabeça para a porta. — Eu receava quase que renunciasses à expedição e nesse caso arriscar-me-ia só... Que é isto?

Fez esta pergunta de surpresa ao ver Oliver; sentou-se e esperou resposta.

— É o pequeno — respondeu Sikes, aproximando a cadeira do fogo.

— Um dos aprendizes do Sr. Fagin — disse Barney rindo.

— De Fagin? — disse Tobias, contemplando Oliver. — Há de ser um rapagão sem rival para limpar as algibeiras de velhos na igreja; tem pinta de ir longe.

— Basta... Basta... — interrompeu Sikes com impaciência. E inclinando-se para o seu amigo, disse-lhe algumas palavras que fizeram rir o Sr. Crackit, que ao mesmo tempo olhava admirado para Oliver.

— Agora — disse Sikes, sentando-se —, se puderes dar alguma coisa que se beba e coma, não será mau; senta-te aí perto do fogo, pequeno, e descansa; hoje sairás conosco, mas não para longe.

Oliver olhou timidamente para Sikes com ar de surpresa, mas não disse palavra. Aproximou a sua cadeira do fogo, pôs a cabeça nas mãos e ficou imóvel, sem reparar no que se passava à roda dele.

— Vamos — disse Tobias, enquanto o jovem judeu punha na mesa uma garrafa e alguma comida —, bebamos ao bom sucesso da empresa!

Levantou-se para fazer honra ao brinde, pôs a um lado o cachimbo, aproximou-se da mesa, encheu um copo de aguardente e o esvaziou de um trago.

Sikes fez outro tanto.

— Um trago para o pequeno — disse Tobias, enchendo um copo até a metade. — Engole isto, simplório!

— Na verdade, eu... — disse Oliver olhando para Tobias.

— Bebe — repetiu Tobias. — Pensas que eu não sei o que te faz bem? dize-lhe que beba, Guilherme.

— Melhor será que ele não faça cerimônias — disse Sikes, levando a mão à algibeira. — Com os diabos, só este diabrete é mais difícil de governar que um grupo de Matreiros. Anda, bebe, pelintra!

Assustando com os gestos ameaçadores dos dois homens, Oliver bebeu de um trago a aguardente contida no copo e entrou a tossir, o que divertiu muito a Tobias e Barney e fez sorrir o feroz Sikes.

Feito isto, e tendo o Sr. Sikes morto a fome (Oliver apenas comeu um pedaço de pão), os dois sujeitos trataram de dormir um pouco nas cadeiras. Oliver ficou ao pé do fogo e Barney, envolvido em uma coberta, estendeu-se no chão.

Dormiram ou fingiram dormir; só Barney, se levantou duas vezes para pôr carvão no fogo.

Oliver caiu em profundo abatimento e sono; imaginava que ainda percorria as ruas escuras, ou errava no cemitério; foi acordado repentinamente pelo Sr. Tobias Crackit, que se levantou dizendo que era hora e meia.

Num instante, os outros dois estavam de pé e todos trataram de fazer os preparativos.

Sikes e seu companheiro enrolaram no pescoço grossas gravatas e vestiram os sobretudos, enquanto Barney, abrindo um armário, tirava vários objetos que metia no bolso.

— Dá cá as berradeiras, Barney — disse Tobias.

— Aqui estão — respondeu Barney, dando-lhe um par de pistolas. — Carregou-as o senhor mesmo.

— Bom! — disse Tobias, pondo as pistolas no bolso. — E as persuadeiras?

— Já as tenho — disse Sikes.

— E as gazuas, as lanternas surdas, nada se esqueceu? — perguntou Tobias, metendo uma pinça dentro do paletó.

— Tudo está em regra — respondeu o companheiro. — Só nos faltamos cacetes. Dizendo isto tirou um cacete das mãos de Barney; Tobias fez o mesmo.

— Vamos! — disse Sikes, estendendo a mão a Oliver.

Este, abatido pela fadiga da jornada, aturdido pelo ar livre e o licor que tomara, pôs maquinalmente a mão na que Sikes lhe estendera.

— Segura-lhe a outra mão, Tobias — disse Sikes. — Dá uma olhadela aí fora, Barney.

Barney foi à porta e veio anunciar que tudo estava quieto.

Os dois ladrões saíram com Oliver; e Barney, depois de fechar cuidadosamente a porta, enrolou-se no cobertor e continuou a dormir.

A obscuridade era profunda, o nevoeiro muito mais espesso que no começo da noite, e a atmosfera tão úmida que, posto não chovesse, os cabelos de Oliver ficaram cheios de água dentro de pouco tempo.

Galgaram a ponte e dirigiram-se na direção das luzes que precedentemente tinham visto; não estavam longe e, como andavam depressa, chegaram a Chertsey.

— Atravessemos a aldeia — disse Sikes em voz baixa —, não haverá viva alma que nos

veja passar. Tobias não fez objeção nenhuma e os três enfiaram precipitadamente pela grande rua da aldeia, completamente deserta àquela hora da noite.

De quando em quando aparecia uma fraca luz na janela de um quarto de dormir, e às vezes o ladrar dos cães vinha perturbar o silêncio da noite; mas não havia ninguém fora. Ao saírem da aldeia, bateram duas horas na igreja.

Apressaram o passo e entraram por um atalho à esquerda. Depois de terem andado mais ou menos um quarto de milha, pararam diante de uma casa isolada, cujo jardim era cercado de muros.

Sem tomar fôlego, Tobias Crackit escalou o muro em um abrir e fechar de olhos.

— Dá cá o pequeno — disse ele a Sikes.

Antes que Oliver tivesse tempo de fazer um movimento qualquer, sentiu-se agarrado pelos braços. Dentro de um segundo, estava ele com Tobias sobre a relva, do outro lado do muro. Sikes pulou e foi ter com eles imediatamente. Dirigiram-se devagarinho para a casa. Foi então que, pela primeira vez, Oliver, desvairado de dor e de medo,compreendeu que

o arrombamento, o roubo e talvez o assassinato eram o fim da expedição.

Torceu as mãos e deixou escapar involuntariamente um grito de dor.

Passou-lhe pelos olhos uma nuvem, um suor frio lhe cobriu o rosto, as pernas lhe enfraqueceram e ele caiu de joelhos.

— De pé! Levanta-te! — murmurou Sikes, tremendo de cólera e puxando a pistola da algibeira. — Levanta-te ou eu te faço saltar os miolos fora.

— Oh! Pelo amor de Deus! Deixe-me ir embora! — disse Oliver. — Deixe-me ir para bem longe, morrer no meio dos campos; não voltarei para Londres; nunca! Nunca! Tenham piedade de mim! Não façam de mim ladrão; por todos os anjos do céu, tenham pena de mim!

O homem a quem estas palavras eram ditas proferiu uma horrível praga e já havia engatilhado a pistola, quando Tobias lhe arrancou a arma da mão, tapou a boca da criança e arrastou-a para a casa.

— Silêncio! — disse ele. — Isto é nada. Dize ainda uma palavra e eu quebro-te a cabeça com este cacete; não faz bulha e o efeito é o mesmo.

— Basta, basta, Guilherme — disse Tobias. — Já vi outros mais velhos que ele terem medo em uma noite destas.

Praguejando contra o judeu que tivera a idéia de mandar Oliver com ele, Sikes pôs o pau por baixo da porta de uma janela, carregou vigorosamente sobre ele, mas sem fazer bulha; foi ajudado por Tobias na operação, a porta cedeu.

Era uma pequena janela colocada atrás da casa, a cinco pés acima do solo e dando pra um celeiro no fim da alameda.

A abertura era tão estreita que os donos da casa tinham julgado inútil pôr-lhe traves de ferro; não obstante, um menino do tamanho de Oliver podia passar por ela.

Sikes fez saltar o ferrolho que prendia a janela.

— Agora, meu peralta, atende bem ao que te vou dizer — murmurou ele em voz baixa, tirando da algibeira uma lanterna surda, cuja luz dirigiu para a cara de Oliver. — Vou fazer-te passar por esta janela; tu pegas na lanterna, sobes devagarinho os degraus que ali estão, atravessas o vestíbulo e vais abrir-nos a porta de entrada.

— Há lá um ferrolho onde não podes chegar — observou Tobias. Subirás a uma cadeira; há três cadeiras no vestíbulo, com os brasões da velha.

— Cala-te — disse Sikes com ar ameaçador. — A porta do quarto está aberta, não?

— Escancarada — respondeu Tobias, depois de lançar um olhar pela janela para verificar.

— O que há de bom é que essa porta sempre fica aberta para que o cão possa andar a seu gosto quando não durma. Ah! Ah! Barney já nos livrou do cão!

Posto que o Sr. Crackit risse baixinho e pronunciasse estas palavras em tom quase ininteligível, Sikes ordenou-lhe imperiosamente que se calasse e trabalhasse.

Tobias obedeceu.

Pôs a lanterna no chão; depois, encostou-se à parede, debaixo da janela, com as mãos apoiadas nos joelhos, de maneira que as suas costas lhe servissem de escada.

Imediatamente Sikes trepou em cima dele, fez passar Oliver pela janela e só o largou quando ele tomou pé no inferior.

— Toma esta lanterna — disse-lhe, lançando um olhar para o quarto. — Vês a escada na frente?

Sikes designou-lhe a porta de entrada com o cano da pistola e advertiu-o de que pensasse em que ficava ao alcance da arma e poderia cair morto.

— É negócio de um minuto — disse Sikes, sempre em voz baixa — e vou largar-te; vai direito; atenção!

— O que é? — perguntou Tobias. Escutaram atentamente.

— Não é nada — disse Sikes. — Vamos! à obra!

No pouco tempo que tivera para reunir as suas idéias, o menino tomara a resolução. Sim, ainda que lhe custasse a vida, iria subir a escada e dar alarma à gente da casa. Com esta idéia, dirigiu-se para os degraus, mas devagarinho.

— Aqui! — disse de repente Sikes. — Vem cá!

Esta súbita exclamação e um grito agudo que se lhe seguiu, assustaram Oliver a ponto de deixar cair a lanterna e não saber se devia continuar ou recuar. Ouviu-se outro grito. Apareceu uma luz no alto da escada. Dois homens aterrados apareceram em cima meio vestidos. A criança viu uma luz... fumo... uma detonação... depois vacilou e caiu para trás. Sikes tinha desaparecido um instante; mas tinha se levantado e antes que o fumo se

houvesse dissipado segurou Oliver pela gola. Descarregou a pistola nos dois homens, que já batiam em retirada, e carregou Oliver.

— Aperta-me — disse Sikes passando pela janela. — Dá cá um xale, Tobias. Eles feriram

o pequeno. Depressa! está deitando sangue!

O ruído de uma sineta veio juntar-se ao das armas de fogo e aos gritos da gente da casa. Oliver sentiu que o levavam rapidamente. Pouco a pouco o ruído esmoreceu; o pequeno desmaiou.

CAPÍTULO XXIII

DE COMO UM BEDEL PODE TER BOM SENTIMENTOS. CURIOSA CONVERSA DO SR. BUMBLE E UMA SENHORA.

A noite era glacial; cobria a terra uma espessa camada de neve; o vento que soprava de rijo ia arrojando os bocados da mesma neve acumulada nos cantos das ruas ou ao longo das casas.

Era uma dessas noites sombrias, em que a gente que tem de seu vai colocar-se à roda de um bom fogo e dá graças a Deus não estar fora; em que os desgraçados sem abrigo e sem pão adormecem para nunca mais acordar; em que mais de um pária das nossas cidades, magros de fome, fecham os olhos na calçada da rua para só os abrir em um mundo que não lhes pode ser pior, quaisquer que sejam os crimes que cometeram neste.

Tal era a situação da rua, quando a Sra. Corney, a matrona do asilo de mendicidade onde já levamos o leitor, foi sentar-se ao pé de um bom fogão no seu quarto e entrou a contemplar uma bandeja com todos os objetos necessários à mais agradável colação que pode fazer uma matrona.

Efetivamente, a Sra. Corney estava prestes a confortar-se com uma xícara de chá; olhava para a mesa, depois para o fogo, onde a água chiava em uma pequena chaleira, e tinha a cara cada vez mais satisfeita.

Em suma, a Sra. Barney chegou a sorrir com aquele espetáculo.

— Na verdade — disse ela, pondo o cotovelo na mesa —, ninguém neste mundo pode deixar de abençoar a providência se refletir nos benefícios que ela faz. Ai! Ai!

A Sra. Corney abanou a cabeça, e este gesto, como o suspiro que soltara, era prova de que ela deplorava a cegueira dos pobres que desconhecem os benefícios da providência.

Depois, introduzindo uma colher de prata (que era dela) em uma latinha de chá, continuou os seus preparativos.

— Bem pouco é necessário para perturbar a serenidade da nossa alma!

A chaleira, que era muito pequena, entrou a ferver e transbordou, quando a Sra. Corney estava fazendo as suas reflexões morais, e algumas gotas de água fervendo caíram na mão da matrona.

— Leve o diabo a chaleira! — disse ela, pondo-a depois sobre a chaminé. — Que tola invenção foi esta das chaleiras pequenas para uma ou duas xícaras somente! A quem podem servir senão a uma desgraçada como eu?

A estas palavras, a matrona deixou-se cair na cadeira, tornou a pôr o cotovelo na mesa e pensou na sua existência solitária.

A chaleira lhe despertou a lembrança do defunto Sr. Corney, que ela teria enterrado vinte e cinco anos atrás.

Caiu em profunda melancolia.

— Não hei de ter igual — dizia ela. — Não! Nunca mais hei de ter coisa semelhante.

Não se pode dizer se a exclamação da Sra. Corney era feita ao marido ou à chaleira; talvez fosse à chaleira, porque, depois de a contemplar um instante, trouxe-a para a mesa.

Ao aproximar a xícara dos lábios, ouviu bater à porta.

— Entre! — disse ela zangada. — Há de ser alguma velha que está a expirar; morrem todos quando eu estou à mesa; entre e feche a porta para que não entre o ar frio. Então?

— Não é nada — disse uma voz de homem.

— Santo Deus! — disse a matrona, com voz muito mais doce. — E o Sr. Bumble?

— Um seu criado — respondeu o Sr. Bumble que ficara fora a enxugar os pés no capacho e a sacudir a neve que lhe cobria a casaca, mas que neste momento fazia a sua entrada, trazendo em uma mão o chapéu de três bicos e na outra um embrulho. — Devo fechar a porta?

A dama hesitou modestamente em responder com o receio de que houvesse alguma inconveniência em conversar fechada com o Sr. Bumble. Este aproveitou a hesitação e, como estava gelado, fechou a porta sem esperar a licença.

— Que terrível tempo, Sr. Bumble!

— Horrível, na verdade — respondeu o bedel. — É um tempo antiparoquial. Acredita que hoje, neste abençoado dia, distribuímos vinte e cinco pães de quatro libras e um queijo e meio? E os mendigos não estão contentes.

— Grande admiração! Os mendigos nunca estão contentes! — disse a matrona, saboreando o chá.

— É verdade, minha senhora — continuou Bumble. — Olhe, há um indivíduo a quem em consideração da sua numerosa família foi concedido um pão de quatro libras e meia libra de queijo, bem pesado; acredita que esse homem é grato? Espere por isso! Sabe o que ele fez? Pediu um pouco de carvão, ainda que fosse um pouco dentro de um lenço. Carvão! Para que quer ele carvão? Queria talvez assar o queijo para depois pedir mais. Estes mendigos são todos os mesmos; dá-se-lhe hoje um avental de carvão; daí a dois dias vem pedir outro tanto; são descarados como macacos!

A matrona aprovou esta bela comparação.

O bedel continuou:

— Não se pode calcular até onde chega a insolência deles; ainda anteontem, um homem... a senhora foi casada, posso exprimir-me assim, um homem levemente vestido (a Sra. Corney abaixou os olhos) com alguns farrapos apresentou-se à porta de um de nossos funcionários e pediu alguns socorros. Como recusasse ir-se embora, e estivesse num traje que ofendia a reunião, o funcionário mandou que se lhe desse uma libra de batatas e um pouco de mingau.

“Meu Deus! (exclamou aquele monstro de ingratidão) O que querem que eu faça com isso?” — “Pois bem”, disse o funcionário, tirando-lhe as provisões, “não terá nada”. — “Devo então morrer na rua?”, perguntou o vagabundo. — “Oh! Não, não há de morrer!”, disse o funcionário.

— Ah! Ah! Soberbo! — interrompeu a matrona. — Esse foi naturalmente com o Sr. Grannet. E depois?

— Depois — disse o bedel — saiu e morreu na rua. Veja que teimoso!

— Isto é incrível — observou a matrona com dignidade. — Mas não lhe parece, Sr. Bumble, que os auxílios dados fora do asilo dos mendigos não têm bom resultado? O senhor é homem de experiência e pode decidira este respeito.

— Sra. Corney — disse o bedel, sorrindo como um homem que tem consciência da sua superioridade —, os socorros distribuídos fora do asilo, quando são dados com discernimento, são a defesa natural da paróquia. O princípio fundamental dos socorros dados fora do asilo é ministrar aos pobres unicamente aquilo que lhes não pode servir de nada, e então, cansados com isso, cessam as importunações.

— Tens razão — disse a Sra. Corney —, a idéia é luminosa.

— Sim. Seja dito entre nós, é esse o grande princípio da coisa — continuou o Sr. Bumble,

— Em virtude desse princípio é que se socorrem as famílias doentes, fazendo-lhes uma distribuição de queijo, como dizem os imprudentes jornalistas que metem o bedelho onde não são chamados. Este princípio está agora em vigor no Reino. Entretanto — acrescentou ele, abrindo o embrulho que trazia na mão —, há segredos administrativos, a cujo respeito não devemos piar, exceto entre colegas de paróquia, como nós, por

exemplo. Aqui está o Porto que a administração destina à enfermaria; é excelente, puro, metido de fresco na garrafa.

Depois de ter aproximado uma das duas garrafas da luz e tê-la agitado para mostrar a boa qualidade do vinho, o Sr. Bumble levou-as ambas para a cômoda, dobrou o lenço que as envolvia, pô-lo na algibeira e pegou no chapéu como para se ir embora.

— O senhor vai sentir frio — disse a matrona.

— Está um vento de cortar a cara — respondeu o Sr. Bumble, levantando a gola da casaca.

A Sra. Corney olhou para a chaleira, depois para o bedel que se dirigia para a porta; e, como este tossisse e estivesse para dar-lhe as boas-noites, ela perguntou timidamente... se ele aceitaria uma xícara de chá.

Imediatamente o Sr. Bumble dobrou a gola, pôs o chapéu e a bengala em uma cadeira e aproximou outra cadeira da mesa, assentou se lenta-mente, contemplando a matrona, que abaixou os olhos.

O Sr. Bumble tossiu outra vez e sorriu.

A Sra. Corney levantou-se para tirar do armário uma xícara e um pires. Ao sentar-se encontraram os seus olhos com os do bedel; corou e começou a preparar o chá.

Sr. Bumble tossiu pela terceira vez e mais forte do que das outras.

— Gosta de muito açúcar? — disse a matrona, pegando no açucareiro.

— Sim, muito açúcar respondeu o Sr. Bumble com os olhos sempre, cravados na Sra. Corney.

Se jamais houve bedel que parecesse terno, esse foi o Sr. Bumble naquele instante. Fez-se o chá.

— O Sr. Bumble pôs um lenço nos joelhos, para que as migalhas de pão não lhe emporcalhassem as calças, e começou a beber e a comer. No meio desse exercício, soltava às vezes um profundo suspiro que não lhe impedia as dentadas que dava no pão; pelo contrário, parecia destinado a facilitar-lhe as funções digestivas.

— A senhora tem uma gata, creio eu — disse o Sr. Bumble, vendo uma gata rodeada de gatinhos diante do fogão —, e gatinhos também, senão me engano.

— Gosto tanto desses animais — respondeu a matrona —, não pode fazer idéia. São tão ágeis, tão divertidos! E uma verdadeira sociedade para mim.

— São excelentes animais — disse o Sr. Bumble com um tom aprovador. Ficam muito amigos da casa.

— Oh! Sim! — disse a Sra. Corney com entusiasmo. — Gostam do que é seu.

— Sra. Corney — disse o bedel, batendo o compasso com a colher —, ouso dizer que se um gato, ou qualquer outro animal que pudesse viver com a senhora, não tomasse amor à casa, necessariamente seria um burro.

— Oh! Sr. Bumble! — disse a Sra. Corney.

— Não ocultemos a verdade — continuou o Sr. Bumble, balançando a colher, com um ar ao mesmo tempo digno e terno que dava mais peso às suas palavras. — Um animal que

se mostrasse tão ingrato seria esmagado por mim.

— O senhor é cruel — disse vivamente a matrona, estendendo o braço para pegar na xícara do bedel. — Deve ter um coração de pedra.

— Coração de pedra, senhora, coração de pedra!

Estendeu a xícara à Sra. Corney e aproveitou o momento em que ela a recebia para apertar-lhe o dedo mínimo; depois pondo a mão no colete agaloado, soltou um profundo suspiro e afastou um pouco a cadeira do fogão.

A mesa era redonda, e como a Sra. Corney e o Sr. Bumble estavam sentados diante do fogo, em frente um do outro e assaz próximos, facilmente se compreende que o Sr. Bumble, afastando-se da lareira, separava-se mais da Sra. Corney.

Este ato do bedel excitará a admiração do leitor, que verá nele um ato de heroísmo da parte do Sr. Bumble; a hora, o lugar, a ocasião poderiam levá-lo a conversar de amor, posto que as expressões namoradas, próprias na boca de um estouvado, estão acima da dignidade de um magistrado, de um membro do parlamento, de um ministro de estado, de um lord-mayor e, com maior razão, são indignas de um bedel, que (ninguém o ignora) de todos os magistrados deve ser o mais severo e inflexível.

Quaisquer que fossem as intenções do Sr. Bumble (e sem dúvida eram excelentes), quis a desgraça que a mesa fosse redonda, como dissemos. Deste modo, aproximando pouco a pouco a cadeira, o Sr. Bumble diminuiu sensivelmente a distância que o separava da matrona e, à força de viajar à roda da mesa, chegou a ficar juntinho da cadeira da Sra. Corney.

Aí parou o Sr. Bumble.

Nesta situação, se a matrona recuasse a cadeira para a direita, caía no fogo; se fizesse um movimento para a esquerda, caía nos braços do Sr. Bumble.

Não escapou esta alternativa à sua perspicácia e, como mulher de juízo, não se mexeu e ofereceu ao Sr. Bumble outra xícara de chá.

— Coração de pedra! — repetiu o bedel, olhando para a matrona. — E a senhora terá coração de pedra?

— Oh! Meu Deus! — disse ela, que simples pergunta na boca de um celibatário! — Que lhe importa isso, Sr. Bumble?

Este, sem responder, bebeu o chá todo da xícara, engoliu uma torrada, enxugou a boca.., e deu um beijo na matrona.

— Sr. Bumble — disse baixinho a discreta dama, porque o medo lhe embargara a voz —, olhe que eu grito!

O bedel não respondeu e, com lentidão e dignidade, passou o braço à roda da cintura da matrona.

Ia sem dúvida a boa senhora executar a ameaça do grito, quando ouviu bater na porta; num fechar de olhos o Sr. Bumble correu às garrafas e começou a sacuda-las enquanto a matrona perguntava secamente:

— Quem está aí?

— É a velha Sally que vai bater a bota.

— Que quer que lhe faça? — perguntou a matrona. — Posso eu evitar que morra?

— Não — respondeu a velha —, ninguém o pode; já não há remédio. Tenho visto morrer muita gente e bem sei quando a morte é infalível. Mas ela está agitada; quando os acessos lhe deixam algum descanso, diz que tem uma coisa para lhe contar. Não morre tranqüila enquanto a senhora não for lá.

É de notar que sua voz adquiriu subitamente a habitual aspereza.

Respondeu uma velha mendiga metendo a cabeça pela porta: A digna Sra. Corney proferiu algumas invectivas contra as velhas que podem morrer sem incomodar as superioras, pôs um xale aos ombros, pediu ao Sr. Bumble que a esperasse até a volta e, intimando a velha mensageira que andasse depressa, saiu de má vontade e foi ao quarto da moribunda.

Ficando só, teve o Sr. Bumble um procedimento singular. Abriu o armário, contou as colheres do chá, sopesou a pinça do açúcar, examinou uma grande colher de prata para ver a qualidade do metal; depois de satisfazer a sua curiosidade neste ponto, pôs o chapéu de três bicos com a frente para trás e andou muitas vezes à roda da mesa, dançando na ponta dos pés. Depois deste extravagante exercício, tirou o chapéu de três bicos e sentou-se com as costas para a lareira, com ar de um homem que estivesse ocupado em inventariar a mobília.

CAPÍTULO XXIV

PORMENORES DOLOROSOS, MAS CURTOS, CUJO CONHECIMENTO É NECESSÁRIO PARA A INTELIGÊNCIA DESTA HISTÓRIA.

Era uma real mensageira da morte a que fora perturbar os amáveis colóquios da matrona. Estava curvada pelos anos; contínuo tremor lhe agitava os membros, e o rosto, contraído por movimentos convulsivos, parecia antes uma caricatura que um rosto humano.

Quão poucas fisionomias conservam o primeiro encanto! Os pesares, os cuidados, os sofrimentos laceram as feições ao mesmo tempo que mudam o coração; e só quando as paixões dormitam e perdem para sempre a sua força é que a nuvem se dissipa e restitui à fronte a sua serenidade celeste. Tal é muita vez o conceito da morte: frio e gelado, o rosto encontra a expressão serena e plácida que tinha na manhã da vida. O homem fica tão calmo então que aqueles que o conheceram na sua infância se ajoelham ao pé do túmulo, cheios de respeito pelo anjo que acreditam ver na terra.

A velha subiu a escada vacilando e, caminhando ao longo dos corredores, resmungava algumas palavras ininteligíveis, em resposta às censuras que a sua companheira lhe fazia. Afinal, foi obrigada a parar para tomar fôlego e entregou a luz à matrona, que rapidamente se dirigiu para o quarto onde jazia a moribunda.

O quarto era iluminado por um péssimo candeeiro. Outra velha vigiava perto da cama, enquanto o aprendiz do boticário da paróquia, ao pé da lareira, aparava um palito.

— Que noite glacial! — disse o rapaz, vendo entrar a matrona.

— Glacial, na verdade — respondeu a dama, com a sua voz mais benévola e fazendo uma cortesia.

— A senhora devia exigir dos seus fornecedores melhor carvão — disse o aprendiz, atiçando o fogo. — Este não convém ao frio que está fazendo.

— A administração é que o escolhe — respondeu a matrona. — Pois devia dar-nos melhor carvão; basta já o trabalho que temos.

Aqui foi a conversa interrompida por um gemido de moribundo.

— Oh! — disse o rapaz, olhando para a cama, como se o grito lhe lembrasse que ali havia uma doente. — Está a expirar.

— Parece-lhe? — perguntou a matrona.

— Muito me admirará se isto durar algumas horas — disse o rapaz,afinando a ponta do palito. Toda ela está por um triz. Olá, velha, a doente dorme?

A enfermeira inclinou-se para o leito e disse que sim.

— Pois se não fizerem bulha, ela morre assim desse modo — disse o rapaz. — Ponham a luz no chão a fim de que ela não veja.

A velha obedeceu, sacudindo a cabeça como para dizer que a doente não morreria tão tranqüilamente; depois foi sentar-se ao pé da outra velha que acabava de entrar.

A matrona, com ar de impaciência, embrulhou-se no xale e sentou-se ao pé da cama.

O aprendiz de boticário, depois de aparar o palito, sentou-se diante do fogão; mas ao fim de dez minutos ficou aborrecido, deu boas noites à Sra. Corney e saiu na ponta dos pés.

As duas velhas, depois de ficarem algum tempo imóveis, afastaram-se da cama e foram para o fogão, pondo as mãos perto das brasas.

A chama projetava um clarão sinistro nos seus rostos lívidos e parecia aumentar-lhes a hediondez; entraram a conversar em voz baixa.

— Disse ela alguma palavra enquanto eu estava fora? — perguntou a mensageira.

— Nem palavra — respondeu a outra. — Torceu os braços, mas eu segurei-lhe as mãos, e ela tranqüilizou-se logo; não é difícil conservá-la sossegada; faltam-lhe forças. E eu, apesar de velha e do passadio cá do asilo, ainda tenho pulsos.

— Bebeu ela o vinho quente que o médico mandou?

— Tentei fazer com que o bebesse, mas ela tinha os dentes tão cerrados que não consegui nada. De maneira que eu bebi o vinho, o que me fez bem.

Depois de olhar à roda de si com precaução para ver se não as ouviam,as duas velhas aproximaram-se ainda mais do fogo e continuaram a falar.

— Lembra-me de um tempo — disse a primeira — em que ela faria o mesmo e riria do caso.

— Sem dúvida — disse a outra. — Ela era muito alegre. Quantos cadáveres ela amortalhou! E todos brancos como cera! Quantas vezes ajudei nesse trabalho!

Dizendo isto, a velha tirou da algibeira uma velha boceta de estanho, ofereceu uma pitada à outra e tomou outra.

Nesse momento, a matrona, que até então esperava impacientemente que a moribunda saísse do letargo em que estava, aproximou-se do fogo e perguntou com voz áspera se era preciso esperar.

— Não muito tempo — respondeu a segunda mulher, levantando os olhos. — A morte nunca deixa esperar muito tempo uma de nós.

— Cale-se, velha rabugenta— disse a matrona com tom severo. — Diga-me, Marta, ela já esteve neste estado?

— Muitas vezes.

— Mas esta é a última — disse a outra velha. — Agora só acordará uma vez; e isto não tarda muito.

— Muito ou pouco — disse a matrona —, não me achará aqui quando acordar, e tomem cuidado, não me vão incomodar outra vez por coisas que não valem a pena. Não é da minha obrigação ver morrer todas as velhas da casa; realmente, é demais. Lembrem-se bem do que lhes digo; se me fizerem outra, eu lhes darei o pago.

A Sra. Corney ia a sair quando um grito das duas velhas chamou a atenção dela.

A moribunda estava sentada na cama e estendia os braços para ela.

— Que é? — disse a matrona com voz sepulcral.

— Deite-se, deite-se — disse uma das velhas inclinando-se sobre o leito.

— Só me deitarei quando expirar — disse a doente. — Preciso falar-lhe. Aproxime-se... mais perto, quero falar-lhe ao ouvido.

Separou o braço da matrona e fê-la sentar na cadeira ao pé da cama. Ia falar quando viu as duas velhas de pé junto dela, com o corpo inclinado na atitude de mulheres que escutam com todos os ouvidos.

— Mande-as sair — disse a moribunda com voz fraca.

As duas velhas começaram a lamentar que a pobre doente já não conhecesse as suas melhores amigas e a protestar que não a abandonariam; mas a matrona fê-las sair, fechou a porta e voltou para junto da cama.

Apenas se viram fora do quarto, as duas velhas mudaram o tom e gritaram pelo buraco da fechadura que a velha Sally estava bêbada; o que na realidade não era impossível; porque, além de uma fraca dose de ópio, receitado pelo boticário, ela tinha de lutar contra os efeitos de um grog, que as velhas, por bondade d'alma, e de autoridade própria, pespegaram-lhe no bucho.

— Agora ouça — disse a moribunda.

A velha fez um grande esforço.

— Neste mesmo quarto — disse ela —, nesta mesma cama... velei outrora por uma bela moça, que fora trazia ao asilo com os pés dilacerados pela fadiga de uma longa caminhada e toda manchada de sangue e coberta de poeira... Ela deu à luz uma criança e correu. Deixe-me ver se me lembro em que ano foi...

— Pouco importa o ano — disse a impaciente matrona. — Que me quer dizer?

— Ah! Sim — murmurou a doente caindo na sua sonolência. — Eu queria dizer... Ah! Lembra-me!

E levantou-se convulsivamente. Tinha o rosto animado e os olhos pareciam sair das órbitas.

— Roubei-a! Sim! Roubei-a! Ela ainda não estava fria. Não, não estava fria, quando eu a roubei.

— Roubou o quê? Fale, pelo amor de Deus — disse a matrona, fazendo um gesto como para chamar socorro.

— A única coisa — disse a moribunda —, a única coisa que ela possuía. Não tinha roupa contra o frio, nem pão para comer; e conservava aquilo sobre o coração; era ouro, ouro verdadeiro, que podia ter-lhe salvado a vida dando-lhe com que comer.

— Ouro! — repetiu a matrona, inclinando-se vivamente para a moribunda que caíra no leito... — Continue... continue... E depois? Quem era essa moça? Quando foi isso?

— Ela tinha pedido que eu lhe guardasse aquilo precisamente — continuou a velha em tom lamentoso. — Confiara a mim porque não tinha mais ninguém ao pé de si. Mas eu já

o tinha roubado na intenção, desde que o vi no pescoço dela. E da morte da criança,.. Fui eu talvez a causa. Tratá-lo-iam melhor se soubessem de tudo.

— Soubessem o quê? Fala!

— O menino era tão parecido com a mãe — continuou a moribunda sem fazer caso da pergunta — que eu não podia olhar para ele sem pensar na pobre mãe! Pobre mulher! Tão meiga! Tão moça! Espere, ainda não acabei. Não é verdade que eu ainda não acabei?

— Não — disse a matrona, prestando ouvidos para apanhar todas as palavras da doente.

— Anda depressa ou não poderás falar mais.

— A mãe — disse a mulher, fazendo um esforço mais violento que os outros —, a mãe, quando sentiu que ia morrer, me disse ao ouvido que, se o filho vivesse, se o pudessem educar, viria um dia, em que ele poderia ouvir sem corar o nome de sua pobre mãe. “Oh! meu Deus!” dizia ela pondo as mãos, “dai-lhe alguns amigos neste mundo de miséria e tende compaixão de uma criança que não tem ninguém por si!”

— O nome do menino? — perguntou a matrona.

— O nome era Oliver... — respondeu a moribunda. — O ouro que eu roubei era...

— Sim, sim, o que era?

A matrona inclinou-se para a moribunda a fim de ouvir a resposta, mas recuou logo instintivamente vendo-a levantar-se ainda uma vez, lentamente, e apertar com as mãos

o cobertor, murmurar alguns sons inarticulados e cair morta na cama.

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— Morta! — disse uma das velhas precipitando-se no quarto desde que a porta foi aberta.

— E tudo isto para não dizer nada — disse a matrona, afastando-se.

As duas feiticeiras estavam provavelmente muito ocupadas com os seus deveres e ficaram sós ao pé do cadáver.

CAPÍTULO XXV

ENCONTRAMOS OUTRA VEZ FAGIN E A SUA TROÇA.

Enquanto estes acontecimentos se passavam no asilo de mendicidade, o Sr. Fagin estava no seu covil (o mesmo onde Nancy fora buscar Oliver).

Estava sentado diante da lareira e tinha nos joelhos um fole com o qual se servira naturalmente para ativar o fogo; mas caíra em um profundo devaneio e parecia distraído.

Atrás dele, o Matreiro, o mestre Carlinhos Bates e o Sr. Chitling, sentados diante de uma mesa, jogavam atentamente o whist; o Matreiro fazia o morto contra o Sr. Bates e o Sr. Chitling.

A sua fisionomia, sempre inteligente, estava mais interessante que nunca, por causa da atenção que ele dava ao jogo e do cuidado de regular o seu jogo pelas observações que fazia.

Como estivesse frio, o Matreiro conservou o chapéu na cabeça, costume que, aliás, era-lhe familiar; tinha na boca um cachimbo de barro, que tirava quando bebia um trago de gim misturado com água, líquido posto num canjirão e no meio da mesa para refrescar a sociedade.

Também o Carlinhos estava muito atento ao jogo, mas, como ele era mais agitado que o seu amigo, recorria mais vezes ao canjirão e soltava de quando em quando uma graçola, indigna de um jogador de whist que se respeite.

Prevalecendo-se da estreita amizade que os ligava, o Matreiro tomava a liberdade de repreender o amigo a este respeito; repreensão que mestre Bates ouvia com a melhor cara deste mundo, limitando-se a dizer que o seu amigo fosse bugiar ou pentear monos.

O cabimento destas e outras respostas espirituosas excitava vivamente a admiração do Sr. Chitling.

E de notar que este e seu parceiro perdiam invariavelmente; esta circunstância, longe de fazer zangar o mestre Bates, parecia diverti-lo muito; no fim de cada partida ria mais forte que de costume e declarou que nunca jogara com tanto prazer.

— Perdemos a partida dupla — disse o Sr. Chitling um tanto enfiado e tirando do bolso do colete uma meia coroa. — Nunca vi fortuna como atua de hoje, Jack: ganhas sempre; qualquer que sejam as minhas cartas e as de Carlinhos, ganhas sempre.

Esta observação, ou talvez o tom em que foi feita, excitou o entusiasmo de Carlinhos Bates, que entrou a rir às gargalhadas, a ponto de despertar o judeu, que perguntou o que havia.

— Ah! Fagin! — disse o Carlinhos. — Se você visse a partida! Tom Chitling não fez um ponto e eu era seu parceiro contra o Matreiro e o morto.

— Ah! Ah! — disse o judeu, com um sorriso que mostrava conhecer a razão daquilo. — Meta-se com eles, Chitling, meta-se com eles!

— Basta — respondeu Chitling. — Já perdi bastante. O Matreiro tem uma veia diabólica.

— Ah! Ah! — disse o judeu. — É preciso acordar muito cedo para ganhar ao Matreiro.

— Cedo! — disse Carlinhos Bates. — É preciso calçar as botas na véspera, pôr um telescópio em cada olho, para ganhar ao Matreiro.

O Matreiro recebeu estes cumprimentos com muita modéstia e ofereceu-se para tirar do baralho de cartas a figura que se lhe pedisse, a um xelim por cada vez.

Como ninguém lhe aceitasse o desafio, e o cachimbo estava acabado, o Matreiro divertiu-se em desenhar na mesa um plano da prisão de Newgate com um pedaço de giz com que se servira para marcar os pontos; e, desenhando, assobiava como uma cobra.

— Tu és aborrecido como a chuva, Tom — disse ele, dirigindo-se ao Sr. Chitling. — Sabes em que pensa ele, Fagin?

— Como hei de sabê-lo? — respondeu o judeu, pondo de lado o fole. — Pensa no que perdeu, talvez, ou na chácara donde há pouco saiu. Ah! Ah! Será isso?

— Qual! — disse o Matreiro sem deixar que o Sr. Chitling respondesse. — E tu, que dizes, Carlinhos?

— Eu digo — respondeu mestre Bates rindo — que ele andá simplesmente terno com Betsy; olhem como ficou vermelho! Pois será possível! Tom Chitling apaixonado! Fagin! Fagin! Veja!

Sufocado à força de rir, o Sr. Carlinhos Bates caiu da cadeira abaixo sem que o acidente lhe interrompesse o riso. Quando se levantou ria como um doido.

— Não faças caso do que eles dizem — observou o judeu, deitando um olhar no Matreiro e batendo com o foles, no jovem Bates — Betsy é uma rapariga bonita; namora, Tom, namora.

— Só uma coisa direi, Fagin — disse o Sr. Chitling, corando. — É que isso não é da conta de ninguém.

— Está claro — disse o judeu —, o Carlinhos é um tagarela, não te importes com o que ele diz; Betsy é uma rapariga bonita; faze o que ela te disser e serás feliz.

— A prova de que eu faço tudo o que ela quer — respondeu o Sr.Chitling — é que foi por obedecer aos seus conselhos que eu me deixei filar; e bom negócio foi para você, Fagin. E, demais, que são seis semanas na cadeia? Lá havemos de ir mais tarde ou mais cedo; melhor é que seja no inverno, quando você tem menos ocasião de sair a passeio.

— Sem dúvida — disse o judeu.

— E não te importarás se lá fores outra vez, não é — perguntou o Matreiro fazendo um sinal ao judeu e ao Carlinhos —, contanto que estejas às boas com Betsy?

— Sim, pouco me importará isso — respondeu Tom encolerizado. — Eu quisera saber quem é que pode dizer o mesmo.

— Ninguém, meu caro — respondeu o judeu —, nenhum deles é capaz; tu és o único.

— Não é verdade que se eu quisesse falar dela sairia bem do negócio— continuou o pobre joguete. — Bastava dizer uma sua palavra, não é, Fagin?

— É, é, meu caro — disse o judeu.

— Mas eu não disse palavra, não é, Fagin? — perguntou Tom, acumulando pergunta sobre pergunta.

— Não, não, tu tens alma para fazer essas coisas; tens alma demais.

— Talvez — disse Tom olhando à roda de si — e, se eu tenho alma para isso, não sei por que se há de rir de mim, não acha, Fagin?

O judeu, reparando que o mostarda ia subindo ao nariz de Chitling, apressou-se a afirmar que ninguém estava caçoando com ele, e como prova disso apelava para o testemunho de mestre Bates, o principal agressor; mas desgraçadamente, no momento em que Carlinhos abria a boca para declarar que nunca estivera disposto a rir de Chitling, foi acometido de um frouxo de riso, por modo que Chitling, julgando-se injuriado, abotoou sem cerimônia nenhuma o alegre rapaz e pespegou-lhe um soco, que este teve o talento de evitar, indo o soco parar em cheio no peito do velho judeu, que foi parar à parede, onde ficou algum tempo a tomar fôlego, enquanto Chitling aparentava a cara mais triste deste mundo.

— Atenção! — disse de repente o Matreiro. — Ouvi o guiso.

Pegou na vela e subiu vagarosamente a escada. A campainha foi agitada outra vez por uma mão impaciente. Daí a pouco o Matreiro entrou e, com ar misterioso, disse algumas palavras ao ouvido do judeu.

— Como! — exclamou Fagin. — Vem só?

O Matreiro fez sinal que sim e, pondo a mão diante da vela, avisou a Carlinhos Bates que era tempo de pôr termo às suas gargalhadas.

Depois de executar este dever de amigo, cravou os olhos no judeu e esperou as suas ordens.

O velho ficou alguns instantes a morder os dentes com ar pensativo. A agitação do rosto anunciava que ele temia alguma notícia má.

Enfim, levantou a cabeça.

— Onde está ele? — perguntou.

O Matreiro levantou o dedo para o teto e tratou de afastar-se.

— Sim — disse o judeu, como respondendo a uma pergunta subentendida. — Manda-o cá para baixo. Silêncio! Carlinhos, Chitling, saiam devagarinho.

O Carlinhos Bates e o seu recente antagonista obedeceram imediatamente à intimação. Tudo estava silencioso quando o Matreiro desceu a escada com uma vela na mão, acompanhado por um homem vestido de blusa, que, depois de lançar um olhar assustado à roda do quarto, tirou uma grande gravata que lhe escondia a parte superior da cara e mostrou as feições do flamejante Tobias Crackit, mas pálido, desfigurado, barba comprida e cabelos em desordem.

— Como estás, Fagin? — disse o formoso Tobias, fazendo um sinal de cabeça ao judeu. — Olha, Matreiro, mete esta manta dentro do meu chapéu, a fim de que eu saiba onde está quando me for embora. Bem! Tu hás de ser um mestre da arte, hás de meter num chinelo todos os mestres.

Falando assim, levantou a blusa, meteu as mãos na algibeira, aproximou uma cadeira do fogo e pôs os pés na grade para aquecer-se.

— Veja lá, Fagin — disse ele, mostrando tristemente as botas —, nem uma gota de graxa desde... você sabe quando... Mas não me olhe assim, tudo virá a seu tempo; não posso falar do negócio sem ter bebido e comido. Dê-me alguma coisa.

O judeu fez sinal ao Matreiro para que pusesse alguns víveres na mesa; depois, sentando-se diante do ladrão, esperou que este começasse a conversa.

Julgando pelas aparências, Tobias não estava disposto a começá-la. O judeu contentou-se com observar pacientemente a sua fisionomia, na esperança de descobrir nela alguma notícia; foi em vão.

Tobias parecia estar fatigado, mas o rosto estava tão calmo como era de costume e, apesar da desordem do vestuário, parecia estar contente. O judeu ardia por saber alguma coisa e passeava de um lado para outro; mas Tobias continuava a comer sem lhe prestar atenção.

Quando acabou, fez sair o Matreiro, fechou a porta, deitou um pouco de grog e tratou de começar a narração.

— Começando pelo princípio — disse ele.

— Sim, sim — interrompeu o judeu, sentando-se perto dele.

O Sr. Crackit fez uma pausa, bebeu o grog e declarou que o gin era excelente; depois, pondo os pés na chaminé, de maneira que as botas ficassem ao nível dos os olhos, disse tranqüilamente:

— Começando pelo princípio, como está Guilherme?

— O quê? — disse o judeu, dando um pulo da cadeira.

— Não tem então notícias dele? — disse Tobias, empalidecendo.

— Notícias! — disse o judeu batendo o pé no chão com furor... — Onde estão eles? Sikes e o menino? Por que não vieram? Onde estão? Que é feito deles?

— O negócio falhou — disse timidamente Tobias.

— Bem sei — respondeu o judeu, tirando um jornal do bolso. — E depois?

— Fizeram fogo e feriram o pequeno; fugimos pelo campo afora, indo o pequeno conosco... vínhamos pulando cercas e valados. Corriam atrás de nós. Misericórdia! Toda a gente do lugar estava fora, e os cães ladravam em busca dos fugitivos.

— E o pequeno? — disse o judeu com voz abafada.

— Guilherme pô-lo às costas, e voava como o vento. Paramos para pôr o pequeno entre nós; tinha a cabeça pendente a um lado e estava gelado. Os nossos perseguidores estavam perto de nós. Cada qual por si, quando se trata da força; fugimos e deixamos o pequeno num fosso; se morto ou vivo, não sei.

O judeu não ouviu mais nem uma palavra; soltou urro tremendo, puxou pelos cabelos e de um salto estava na rua.

CAPÍTULO XXVI

ENTRA EM CENA UM PERSONAGEM MISTERIOSO IMPORTANTES PORMENORES ESTREITAMENTE LIGADOS COM ESTA HISTÓRIA.

O amável ancião chegou à esquina da rua antes que lhe houvesse passado a comoção produzida pelas notícias trazidas por Tobias Crackit.

Não só deixara de demorar o passo ordinário, como até o apressara mais que de costume, com ar de homem assustado e dominado por violenta agitação; um carro que vinha a galope quase o derrubou, e os gritos da gente que passava, à vista do perigo que ele corria, fizeram com que ele passasse à calçada.

Depois de ter evitado quanto possível as grandes ruas, e caminhando por vielas e passagens obscuras, chegou a Snow-Hill.

Aí entrou a caminhar ainda mais depressa que dantes e não afrouxou o passo senão depois que entrou em uma passagem, onde, como se enfim estivesse no seu elemento, readquiriu o seu passo ordinário e pareceu respirar mais livremente.

No ponto de junção entre Snow-Hill e Holborn Hill, à mão direita saindo da City, há uma passagem estreita e suja que vai ter a Saffron Hill.

Ali, em miseráveis casinholas, pode-se ver enormes montes de lenços de todas as cores e tamanhos. Moram ali os sujeitos que os compram aos ratoneiros. Centenas desses lenços ali estão às janelas e portas; no interior estão em pilhas. Essa passagem, ou antes essa colônia comercial, tem uma existência que lhe é própria, o seu barbeiro, o seu botequim, a sua taverna. Para todos os larápios de baixa escala, é um verdadeiro mercado, visitado de manhã, ou à noite, por mercadores silenciosos, que tratam os seus negócios em obscuros recantos e vão embora, como vieram, às escondidas.

Nessa passagem entrara o judeu; ele era conhecido da imunda gente do lugar, porque todos os que estavam à porta, vendedores ou mercadores, o cumprimentaram familiarmente com um sinal de cabeça quando ele passou. Respondeu ele do mesmo modo, mas não parou senão no fim, para dirigir a palavra a um sujeito de baixa estatura, que estava sentado como podia em uma cadeira de criança e fumava um cachimbo diante da sua loja.

— Na verdade, Sr. Fagin, basta vê-lo para sarar da oftalmia — respondeu o respeitável negociante ao judeu, que lhe pedia notícias da saúde.

—A vizinhança estava um pouco quente — disse Fagin, levantando as sobrancelhas e cruzando os braços.

— É verdade! Tenho ouvido muita gente queixar-se — respondeu o sujeito —, mas isto há de refrescar, não lhe parece?

Fagin fez um sinal de cabeça e, estendendo a mão na direção de Saffron Hill, disse:

— Há alguém lá hoje?

— Nos Três-Coxos?

O judeu fez um sinal afirmativo.

— Ora, espere — continuou o mercador procurando lembrar-se. — Estão lá uns seis, creio eu, e não penso que o seu amigo também esteja.

— Sikes estará? — perguntou o judeu.

—Non est ventus, não veio, como dizem os homens da lei — respondeu o sujeito, sacudindo a cabeça e com ar singularmente velhaco. — Tem alguma hoje que me sirva?

— Não — respondeu o judeu, afastando-se.

— Vai aos Três-Coxos? — disse o homem. — Espere, tenho vontade de ir com o senhor.

O judeu voltou a cara e fez um gesto de quem desejava ir só; e demais, como o sujeito não podia facilmente sair da cadeira, a tabuleta dos Três-Coxos ficou dessa vez privada da presença do Sr. Lively; enquanto ele se levantou, o judeu havia desaparecido.

O Sr. Lively, depois de se ter levantado inutilmente na ponta dos pés, tornou a sentar-se na cadeira e, após trocar com uma dama que morava na loja fronteira um olhar de dúvida e desconfiança, tornou a pôr o cachimbo na boca.

Os Três-Coxos, ou antes os Coxos, tabuleta bem conhecida de todos os freqüentadores do lugar, era aquela mesma taverna em que já figuraram o Sr. Sikes e o seu cão. Fagin fez um sinal rápido a um homem sentado no balcão, subiu a escada, abriu uma porta, entrou na sala e deitou um olhar inquieto à roda de si pondo a mão por cima dos olhos, como se procurasse alguém.

A sala era iluminada por dois bicos de gás, cuja luz não se podia ver de fora, graças às portas fechadas e cortinas cuidadosamente corridas às janelas.

A sala estava cheia de uma nuvem de tabaco tão espesso que, ao entrar, quase se não podia distinguir nada. Quando a porta se abria e saía um pouco de fumaça, podia ver-se uma extravagante reunião de cabeças, tão confusa como o som que chegava aos ouvidos.

Pouco a pouco, iam-se os olhos acostumando àquele espetáculo e acabavam distinguindo uma numerosa sociedade de homens e mulheres, aglomerados à roda de uma grande mesa, em cuja extremidade estava o presidente, com um martelo na mão, insígnia de suas funções.

Num canto, defronte a um piano, estava uma espécie de artista, de nariz vermelho, com

o rosto todo coberto por causa do defluxo.

Na ocasião em que Fagin entrava na sala, o artista, passando os dedos pelo teclado a modo de prelúdio, deu lugar a um rumor geral. Todos pediam uma canção; quando o barulho cessou, uma rapariga veio divertir o público cantando uma balada em quatro coplas, entre as quais o acompanhador repetia o estribilho com toda a força.

Quando isto acabou, o presidente fez um sinal de aprovação; depois os artistas, colocados à direita e à esquerda, começaram um dueto que foi aplaudido por toda a reunião.

Era curioso observar algumas das caras daquele grupo.

O presidente, que era o dono da locanda, era sujeito de formas atléticas, que acompanhava o canto com um movimento de tijolos em todos os sentidos, e, parecendo estar enlevado na música, vigiava tudo o que se passava à roda dele e prestava ouvidos ao que se dizia. Tinha ouvido fino e olhar sagaz.

Ao pé dele estavam os cantores, recebendo com indiferença os elogios e bebendo uma dúzia de grogs que os seus admiradores mais veementes lhes iam passando.

As outras caras tinham o cunho dos mais abjetos vícios e chamavam a atenção à força de serem repelentes.

A astúcia, a ferocidade, a embriaguez em todos os sentidos, ali se mostravam em seu mais hediondo aspecto. Mulheres, moças na flor da idade, mas já secas pelo vício, manchadas de crimes e devassidões, formavam a parte mais triste e sombria do quadro.

Fagin, a quem nada disto admirava nem comovia, passava todas as caras em revista, sem achar a que procurava. Atraiu a atenção do sujeito que presidia, fez-lhe um sinal com a mão e saiu da sala devagar corno entrara.

O homem foi atrás dele.

— Que quer, Sr. Fagin? — perguntou o homem. — Não quer ficar em nossa companhia?

O judeu sacudiu a cabeça com ar de impaciência e disse em voz baixa:

— Ele está cá?

— Não.

— E não há notícias de Barney?

— Nenhuma — respondeu o dono da taverna dos Três-Coxos. — Ele não dará sinal de si, senão depois que tudo estiver calmo. Andam em busca dele, e se ele aparecesse seria logo engaiolado. Barney está livre; se assim não fosse, já eu teria ouvido falar dele; sou capaz de jurá-lo.

— Virá ele esta noite? — perguntou o judeu, insistindo particularmente na palavra dele.

— Monks? — perguntou o homem.

— Caluda! — disse o judeu. — Ele mesmo, sim.

— Sem dúvida — respondeu o homem, tirando do bolso um relógio de ouro. — Eu até pensava que viria mais cedo; se quiser esperar dez minutos, ele cá estará...

— Não, não — disse o judeu, como se, apesar do seu desejo de ver a pessoa em questão, sentisse algum alívio em não encontrá-la. — Diga-lhe que o vim ver e que ele vá hoje à minha casa. Não, amanhã é melhor.

— Bem; isso só?

— Só, por enquanto. E o judeu desceu a escada.

— É verdade — disse o outro em voz baixa e inclinando a cabeça —, que boa ocasião para essa venda! Philipe Barker está cá e tão bêbado que uma criança pode com ele...

— Ah! Ah! — disse o judeu. Mas não é ocasião de acabar com ele agora, deve fazer ainda alguma coisa antes que lhe tiremos as contas a limpo; vá ter com os seus amigos e diga-lhes que se alegrem enquanto estão neste mundo.

O judeu soltou uma risada, e o dono da taverna o imitou, e foi ter com os seus amigos.

Fagin apenas ficou só readquiriu a fisionomia inquieta e agitada. Depois de um instante de reflexão, meteu-se num cabriolé é mandou tocar para o lado de Bethnal Green.

Desceu a um quarto de milha da casa do Sr. Sikes e fez a pé o resto do trajeto.

— Agora — murmurou ele, batendo na porta —, agora nós, minha filha, e se cá se trama alguma conspiração tenebrosa, saberei obrigar-te a falar.

Disseram a Fagin que Nancy estava no seu quarto; o judeu subiu a escada e entrou sem falar; a rapariga estava só, com a cabeça apoiada na mesa e os cabelos esparsos.

— Está bêbada ou triste — disse o judeu. Fazendo esta reflexão, voltou-se o judeu para fechar a porta, e esse rumor despertou a moça. Esta olhou para ele, perguntou-lhe se havia novidade e ouviu a narração que ele

lhe fez das aventuras de Tobias Crackit; quando ele acabou, Nancy voltou à sua primeira posição e não deu palavra. Durante esse silêncio, o judeu olhava à roda do quarto, como para assegurar-se de que

Sikes não voltaria às escondidas.

Satisfeito do exame, tossiu duas ou três vezes e procurou começar a conversação; mas Nancy não lhe prestou atenção nenhuma. Era como se ele ali não estivesse. Fagin tentou um último esforço. Esfregou as mãos e disse em tom ameno:

— Onde crês tu que esteja o Guilherme a esta hora?

A moça murmurou em voz lamentosa e quase ininteligível que não sabia; parecia soluçar.

— E o menino? — Disse o judeu, fixando os olhos nela como para lhe ler no rosto. — Coitadinho! Abandonado num fosso! Nancy, que dizes disto?

— O menino! — disse ela, levantando vivamente a cabeça. — Esse está melhor onde está do que entre nós; e contanto que Guilherme escape à polícia, desejo que o menino lá tenha morrido no fosso, e ali alvejem os seus pobres ossos.

— Que dizes?

— Digo isto mesmo — repetiu a moça, olhando fixamente para o judeu. Estimo que o não veja mais — e que as suas provanças neste mundo estejam acabadas. Não posso vê-lo entre nós; quando o vejo fico com ódio de mim e de todos vocês.

— Estás bêbada!

— Eu! — disse ela com amargura. — Não é culpa sua, se o não estou; sua vontade é que eu sempre estivesse ébria, exceto talvez agora. Parece que lhe não agrada muito este meu ar de hoje?

— Não, nada.

— Pois que lhe hei de eu fazer? — disse ela rindo.

— Que lhe há de fazer? — disse o judeu exasperado, com a obstinação da moça. — Vais sabê-lo. Ouve-me bem, a mim que em três palavras posso fazer estrangular Sikes com tanta certeza como se tivesse agora entre as minhas mãos o seu pescoço de touro. Se ele vier e não trouxer o pequeno, se o deixou escapar se o não trouxer morto ou vivo, assassina-o tu mesma, se queres que ele escape à forca, e isso apenas ele aqui entrar; do contrário será tarde!

— Que quer dizer isso? disse Nancy.

— O que quer dizer? — continuou Fagin, encolerizado. — Ouve. Quando essa criança pode valer-me centenas de libras esterlinas, devo eu perder uma ocasião de felicidade, um proveito seguro, por culpa de um punhado de bêbados a quem podia cortar o gasnete, e pôr-me à mercê de um bandido a quem só falta a vontade.., mas que tem poder de... de...

O velho estava ofegante e balbuciava.

De repente cessou o acesso de cólera; o seu aspecto mudou completamente.

Pouco antes torcia as mãos, respirava a custo, tinha os olhos desvairados, o rosto pálido, e já agora se deixava cair em uma cadeira, tremendo com a idéia de se haver traído.

Depois de um curto silêncio, arriscou-se a deitar um olhar sobre a sua companheira e pareceu um pouco mais tranqüilo, quando a viu na posição em que a viera achar.

— Nancy, meu anjinho — disse ele. — Deste atenção ao que eu disse?

— Não me fatigue, Fagin — respondeu a rapariga levantando a cabeça. — Se Guilherme não obtiver nada desta vez, alcançará tudo em outra ocasião; tem feito bons serviços, e ainda os fará quando puder. Ninguém é obrigado a fazer o impossível; assim, pois, não fale mais.

— E aquele menino?

— O menino deve correr os mesmos riscos que os outros — disse Nancy. — Eu espero que esteja morto ou ao abrigo de todos os males... Contanto que nada aconteça a Guilherme! Mas visto que Tobias está salvo, também ele há de estar. Ele vale por dois Tobias.

— E aquilo que eu dizia ainda agora? — perguntou o judeu, cravando na rapariga o seu olhar penetrante.

— Se é alguma coisa que eu devo fazer — disse ela — então repita; que eu não ouvi nada; e ainda assim, há de esperar até amanhã, porque eu estou estúpida.

Fagin fez ainda outra pergunta para ter certeza de que ela não se ia aproveitar de suas imprudentes insinuações.

Mas Nancy respondeu com tanta naturalidade e suportou tão impassivelmente os seus olhos que o judeu voltou à sua primeira opinião e disse consigo que Nancy estava embriagada.

Nancy não era isenta desse defeito, assaz comum entre os discípulos de Fagin.

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CAPÍTULO XXVII

PARA REPARAR UMA DESCORTESIA DE OUTRO CAPÍTULO EM QUE SE ABANDONOU SEM MAIS CERIMÔNIA UMA SENHORA.

Não sendo por nenhum modo conveniente a um humilde autor fazer esperar um personagem tão importante como é um bedel, com as costas voltadas à lareira e as abas da casaca nos braços, e sendo assaz descortês e indigno da polidez de um escritor tratar com a mesma negligência uma dama a quem o dito bedel deitou um olhar afetuoso e terno, e a cujos ouvidos murmurou doces expressões que, vindas de semelhante personagem, deviam comover agradavelmente o coração de uma senhora de qualquer condição que fosse, o historiador consciencioso que estas linhas escreve, fiel aos seus sentimentos de respeito e de veneração para com aqueles que exercem neste mundo uma grande e importante autoridade, vem fazer completa confissão do erro, prestar-lhes a homenagem que a posição dessas pessoas reclama e tratá-las com todos os respeitos que a sua elevadíssima posição e grandes qualidades pessoais estão a exigir.

Para isto era intenção do autor fazer aqui uma dissertação a respeito do direito divino dos bedéis e demonstrar que um bedel nunca pode fazer mal, tudo isto para recreio e utilidade do leitor consciencioso; mas infelizmente, por falta de tempo e de lugar, o autor é obrigado a adiar este projeto para melhor ocasião.

Quando essa ocasião aparecer, o autor demonstrará que um bedel, na plenitude de suas funções, isto é um bedel paroquial, empregado num asilo de mendicidade paroquial e numa igreja paroquial, possui todas as qualidades, ou antes todas as perfeições da natureza humana, e que os bedéis empregados nas administrações, nos tribunais e outros estão a cem léguas dessas perfeições.

O Sr. Bumble tinha contado e recontado as colheres de chá, pesado e repesado a pinça de açúcar, examinado escrupulosamente a leiteira e procedido à inspeção minuciosa da mobília, ao a ponto de examinar de que eram estofadas as cadeiras.

Renovara esse exame cinco ou seis vezes antes de pensar que a Sra. Corney devia voltar.

Uma idéia traz outra; e, como nenhum rumor indicava a volta da Sra. Corney, o Sr.

Bumble imaginou que não podia melhor passar o tempo do que satisfazer completamente a sua curiosidade e lançar um olhar ao conteúdo da cômoda da Sra. Corney.

Aproximou o ouvido do buraco da fechadura para ter a certeza de que ninguém vinha e começou a visita de três grandes gavetas, cheias de roupa em bom estado, cuidadosamente cobertas de uma camada de jornais.

Vendo isto, o Sr. Bumble pareceu contentíssimo.

No curso de suas indagações, chegou à gaveta de cima, à mão direita, onde estava a chave, e viu uma caixinha fechada; sacudiu-a e ouviu um som metálico assaz agradável; feito isto, o Sr. Bumble voltou para a lareira, sentou-se e disse com ar grave e resoluto:

— Minha resolução está tomada!

Depois desta notável exclamação, entrou a balançar a cabeça como um homem contente de si e a contemplar as pernas, de perfil, com ar extremamente alegre.

Ainda ele se estava a admirar, quando a Sra. Corney entrou precipitadamente no quarto e caiu em uma cadeira perto da lareira, pôs uma mão nos olhos e a outra no coração, como uma mulher que estava sufocada.

— Que tem? — perguntou o Sr. Bumble, inclinando-se para a matrona. — Aconteceu-lhe alguma coisa? Responda-me; veja que estou sobre... sobre... sobre...

Na sua perturbação, o Sr. Bumble, não se lembrou da palavra “brasas” e disse:

— Estou sobre garrafas quebradas.

— Oh! Sr. Bumble — disse a dama —, fiquei pasmada!

— Pasmada! — exclamou o Sr. Bumble. — Quem ousaria, quem teria a audácia... Compreendo! Foram essas endiabradas mendigas.

— Faz horror pensar nisso! — disse a dama.

— Pois não pense mais.

— Não posso deixar de pensar — disse a dama choramingando.

— Nesse caso tome alguma coisa — disse o Sr. Bumble com a sua voz mais doce. — Um pouco de vinho?

— Isso nunca! Nunca! — respondeu a Sra. Corney. — Impossível... Oh! Na prateleira de cima.

Ao mesmo tempo a boa senhora apontava para o armário e caía em espasmos.

O Sr. Bumble correu ao armário, tirou uma garrafa verde da prateleira indicada, encheu uma xícara com o conteúdo da garrafa e levou-a aos lábios da matrona.

— Estou melhor — disse a Sra. Corney, tornando a cair na cadeira, depois de ter bebido metade da xícara.

O Sr. Bumble levantou os olhos para o teto em sinal de ação de graças, olhou depois para a xícara e cheirou o licor.

— Prove — disse a Sra. Corney. O Sr. Bumble provou o licor com ar indeciso, deu um estalo com a língua, tornou a provar

e esgotou a xícara.

— Conforta muito — disse a matrona.

— Muito, na verdade — disse o bedel —, aproximando a sua cadeira da cadeira da matrona.

Depois perguntou com voz terna se alguma coisa lhe havia acontecido.

— Nada — respondeu a Sra. Corney. — É que eu sou uma criatura tão imprevisível, tão insensível, tão fraca!

— Oh! Não, fraca não! — disse o Sr. Bumble, aproximando a sua cadeira. — Pois a senhora será fraca criatura, Sra. Corney?

— Todos nós somos fracas criaturas — disse a Sra. Corney, emitindo um principio geral.

— Tens razão — disse o bedel.

Durante um ou dois minutos houve silêncio de parte a parte, e ao cabo desse tempo o Sr. Bumble deu razão ao princípio mudando o braço esquerdo das costas da cadeira para a cintura da matrona.

— Somos todos fracas criaturas — disse o Sr. Bumble. A Sra. Corney suspirou.

— Não suspire — disse o Sr. Bumble.

— Não posso resistir — disse a Sra. Corney, e soltou novo suspiro.

— Este quarto é assaz confortável — disse o Sr. Bumble, olhando à roda de si. — Se tivesse outro quarto ao pé seria excelente.

— Seria demais para uma pessoa — murmurou a dama.

— Sim, mas não para duas — disse o Sr. Bumble com voz terna. — Que diz?

A estas palavras a Sra. Corney abaixou a cabeça e o bedel abaixou também a sua para ver a da matrona. Esta, com muita presença de espírito desviou a cabeça e tirou a mão para procurar o lenço e depois tornou a pô-la na do Sr. Bumble.

— A administração dá-lhe o carvão necessário – disse o Sr. Bumble apertando afetuosamente a mão da Sra. Corney.

— E velas — disse a Sra. Corney, respondendo levemente ao aperto de mão.

— Carvão, velas e casa — disse o Sr. Bumble. — Oh! A senhora é um anjo!

A dama não pôde resistir. Caiu nos braços do bedel, e este depôs um apaixonado beijo no nariz da matrona.

— Que perfeição paroquial! Exclamou o Sr. Bumble! O Sr. Bumble continuou:

— Sabe, minha querida, que o Sr, Slout está pior?

— Sei — Respondeu tristemente a Sra. Corney.

— Pelo que diz o médico — continuou o Sr. Bumble —, espicha a canela nesta semana. Ele está à testa desta casa; a sua morte produzirá uma vaga e será necessário preenchê-la. Oh! Sra. Corney! Que perspectiva! Que ensejo para unir dois corações e fazer uma só família!

A Sra. Corney soluçava.

— Diga essa doce palavra — continuou o Sr. Bumble inclinando-se para aquela beleza tímida. — Pronuncie essa doce palavrinha, minha bela Corney.

— S...i...m... — suspirou a matrona.

— Outra vez — disse o bedel.

— Sim...

— Outra pergunta — disse o Sr. Bumble. — Vença a sua comoção e responda: quando serão as bodas?

Duas vezes a Sra. Corney tentou falar e duas vezes lhe faltou a voz.

Afinal, reunindo toda a sua coragem, lançou os braços à roda do pescoço do Sr. Bumble, dizendo-lhe:

— Quando quiser, porque é impossível resistir-lhe.

Regulados assim amigavelmente os negócios, e para satisfação de ambas as partes contratantes, ratificou-se solenemente a convenção esvaziando se uma nova taça de licor, que não podia vir mais a propósito no estado de agitação em que se achava a dama.

A Sra. Corney informou o noivo da morte da velha.

— Muito bem — disse o bedel, saboreando o líquido —, vou passar por casa de Sowerberry para encomendar o caixão. Foi isso que lhe meteu medo, meu amor?

— Não foi bem isso — respondeu evasivamente a matrona.

— Mas alguma foi decerto — disse o Sr. Bumble insistindo. — Não o quer dizer ao seu Bumble?

— Agora não — respondeu ela. — Um destes dias; depois que nos casarmos.

— Quando nos casarmos! — disse o Sr. Bumble. — Dar-se-á acaso que algum desses mendigos ousasse...

— Não, não — disse a matrona.

— Se eu pudesse acreditar nisso — disse o Sr. Bumble —, se eu pudesse supor que um desses miseráveis teve a audácia de lançar um olhar atrevido para este amável rosto...

— Não ousariam isso! — disse a dama.

— E fazem bem — disse o Sr. Bumble, mostrando o punho fechado. —Tomara eu que qualquer indivíduo, paroquial ou extraparoquial, tivesse semelhante liberdade! Ouso dizer que o não faria segunda vez.

Se estas palavras não fossem acompanhadas de gestos violentos, a dama poderia achá-las pouco lisonjeiras; mas, como o Sr. Bumble proferia esta ameaça com ar belicoso, ficou vivamente impressionada com tamanha prova de dedicação.

O Sr. Bumble levantou a gola da casaca, pôs o chapéu de três bicos, deu na sua futura metade um longo e terno beijo e saiu para ir afrontar segunda vez o vento glacial da noite. Apenas se demorou alguns instantes na sala dos indigentes para os maltratar um pouco, a fim de ver se tinha toda a rudeza necessária ao cargo de diretor de um asilo de mendicidade. Convencido de possuir essa aptidão, o Sr. Bumble saiu do asilo com o coração leve e todo ocupado com a brilhante perspectiva de uma promoção próxima; outra idéia não teve em todo o caminho que ia do asilo à casa do empresário de enterros.

O Sr. e a Sra. Sowerberry tinham ido tomar chá fora de casa e, como o Sr. Noé Claypole nunca se agitava mais do que era preciso para desempenhar as suas funções digestivas, a loja ainda não estava fechada, posto que a hora ordinária de se fechar já houvesse passado.

O bedel bateu muitas vezes com a bengala no balcão, mas ninguém veio; descobriu uma pequena luz por trás da porta de vidro do fundo e resolveu ir ver o que lá se passava.

Quando o viu, ficou admiradíssimo.

A mesa tinha toalha, e sobre a toalha havia pão, manteiga, pratos, copos, cerveja e vinho.

Na cabeceira da mesa estava o Sr. Noé Claypole sentado molemente em uma cadeira de braços, com as pernas pendentes em um dos braços da cadeira, uma faca na mão e uma longa fatia na outra.

Ao pé dele estava Carlota, ocupada em abrir ostras que o Sr. Claypole lhe fazia o obséquio de engolir rapidamente.

Tinha ele o nariz mais vermelho que de costume e um certo piscar dos olhos mostrava que ele estava um pouco alegrete. Engoliu as ostras com pressa tal que bem indicava conhecer as suas propriedades refrigerantes no caso de inflamação interna.

— Olhe, Noé — disse Carlota —, esta é boa, está gorda. Coma esta; ande.

— Deliciosa coisa é a ostra! — observou o Sr. Claypole depois de a ter engolido. — É pena que se não possam comer muitas sem fazer mal! Não é, Carlota?

— É uma crueldade que não possa ser assim — disse Carlota.

— Tem razão! — continuou o Sr. Claypole. — Não gostas de ostras?

— Não, muito — disse Carlota. — Prefiro vê-las comer.

— É singular!

— Mais esta — disse Carlota. — Olhe como é bonita!

— Não, senhora — disse Noé. — É impossível e tenho pena Carlota, deixas dar-te um beijo!

— Que é isto? — disse o Sr. Bumble entrando na saleta. — Repita isso!

Carlota soltou um grito e escondeu a cara no avental, enquanto o Sr. Claypole, tendo-se posto em pé, contemplava o bedel com ar de bêbado assustado.

— Repita isso, miserável, atrevido! — disse o Sr. Bumble. — Ousas tu dizer semelhante coisa! E tu atreves-te a animá-lo? Mulher! Dar-lhe um beijo! Que tal!

— Eu não tencionava fazê-lo — disse Noé, com lágrimas nos olhos. — É ela quem quer

sempre dar-me um beijo.

— Oh! Noé! — disse Carlota, em tom de exprobação.

— Você bem sabe que é assim — disse Noé —, é ela quem me faz sempre muitos afagos, Sr. Bumble.

— Silêncio! — disse severamente o bedel. — Vá para a cozinha, Carlota. E você, Noé, feche a loja e não me resmungue. Quando o patrão entrar, diga lhe que veio cá o Sr. Bumble preveni-lo de que amanhã de manhã, depois de almoçar, deve mandar um caixão para uma velha, ouviu? Um beijo! — acrescentou ele erguendo as mãos. — A perversidade, a imoralidade das classes baixas é horrível neste distrito paroquial. Se o parlamento não tomar em consideração estes horrores, o país está perdido e os antigos costumes desaparecem.

Dizendo isto, saiu o bedel com ar sombrio e majestoso.

E agora que o acompanhamos quase até a porta e fizemos os preparativos para o enterro da velha, vamos ver o que aconteceu ao jovem Oliver Twist e saber se ainda está no fosso onde Tobias Crackit o deixou.

CAPÍTULO XXVIII

PROSSEGUEM AS AVENTURAS DE OLIVER.

— Que o diabo os leve! — murmurou Sikes, rangendo os dentes. — Oxalá que eu os pudesse ter, uns ou outros; fá-los-ia gritar ainda mais.

Proferindo estas imprecações com todo o furor que comportava a sua natureza feroz, pôs no joelho o menino ferido e voltou a cabeça para ver se descobria as pessoas que iam em perseguição dele.

Não era possível vê-los no meio das trevas e do nevoeiro; mas de todos os lados soavam gritos de homens, latidos de cães, toques de rebate:

— Pára, medroso! — disse o salteador apontando a arma contra Tobias Crackit, que, tirando vantagem das longas pernas, já estava adiante.

Tobias parou; não estava fora do alcance da pistola, e Sikes não estava em maré de brincar.

— Anda dar a mão ao pequeno — gritou Sikes, fazendo um gesto furioso ao seu cúmplice —, anda depressa!

Tobias obedeceu, mas resmungando e sem muita pressa.

— Mais depressa! — disse Sikes, pondo o menino num fosso sem água e apontando a pistola. — Não te faças de tolo comigo!

Nesse momento o rumor era mais forte, e Sikes, deitando os olhos à roda de si, pode entrever que os que o perseguiam já haviam entrado no campo em que ele se achava, e deitaram dois cães contra ele.

— Salve-se quem puder — disse Tobias. — Deixa aí o pequeno e mostra-lhe os calcanhares.

Ao mesmo tempo o Sr. Crackit, preferindo a hipótese de ser morto pelo amigo à certeza de ser apanhado pelos inimigos, voltou as costas e disparou pelo campo afora.

Sikes, rangendo os dentes, lançou um rápido olhar à roda de si, atirou sobre Oliver inanimado o pano em que o envolvera, correu ao longo da cerca, como para desviar a atenção daqueles que o perseguiam do lugar onde jazia a criança, parou um segundo diante de outra cerca, que prendia com a primeira em ângulo reto, descarregou a pistola no ar e fugiu.

— Olá, olá — gritou ao longe uma voz trêmula. — Netuno! Aqui!

Os cães, que não pareciam ter mais gosto do que os homens nesta cor-rida, obedeceram logo e três homens pararam para deliberar.

— Minha opinião, ou antes a minha ordem — disse o mais gordo dos três —, é que voltemos para casa imediatamente.

— Tudo o que convir ao Sr. Giles é o que me convém — respondeu um sujeitinho repolhudo, muito pálido e também muito cortês, como são em geral as pessoas medrosas.

— Não serei tão grosseiro que me oponha aos senhores — disse o terceiro, que tinha chamado os cães. — O Sr. Giles sabe o que faz.

— Sem dúvida — disse o sujeitinho —, e não devemos contradizer o Sr. Giles; não, não; eu, graças a Deus, conheço a minha posição.

A falar verdade, o sujeitinho parecia conhecer bem a sua posição e saber perfeitamente que não era invejável, porque o medo fazia com que lhe rangessem os dentes.

— Você está com medo, Brittles — disse o Sr. Giles.

— Não — disse Brittles.

— Está — disse Giles.

— E falso, Sr. Giles — disse Brittles.

— Mente você, Brittles — disse o Sr. Giles.

Foi a observação zombeteira do Sr. Giles que lhe atraiu estas respostas azedas, e, se o Sr. Giles zombou de Brittles, foi por ver que atiravam para cima dele, em forma de cumprimento, a responsabilidade da retirada.

O terceiro indivíduo pôs termo à discussão com uma observação filosófica:

— Querem que lhes diga uma coisa? Todos nós estamos com medo.

— Fale por si — disse o Sr. Giles, que era o mais pálido dos três.

— E o que eu faço — disse ele. — Nada mais simples do que ter medo em circunstâncias tais; eu tenho medo.

— E eu também — disse Brittles. — Mas isso não se deve dizer na cara da gente.

Estas confissões francas aplacaram a cólera do Sr. Giles, que reconheceu estar com medo igual ao dos outros.

Imediatamente todos os três deram as costas e entraram a fugir, com a mais comovente unanimidade, até que o Sr. Giles, que tinha a respiração curta e que não podia correr bem por causa de um forcado que levava, pediu polidamente um momento de demora para pedir desculpa das palavras azedas que dissera.

— Faz admirar — disse ele, depois que lhe aceitaram as explicações —, faz admirar de quanto a gente é capaz quando lhe sobe a mostarda ao nariz; eu era capaz de matar um daqueles pelintras, se o apanhasse.

Como os outros dois companheiros eram da mesma opinião e estavam como o Sr. Giles completamente acalmados, entraram a indagar qual a causa que tão depressa lhes mudara o temperamento.

— Eu sei o que foi — disse o Sr. Giles —, foi a cerca.

— Não me admira — disse Brittles, aceitando a idéia.

— Fiquem certos — disse Giles — de que a barreira é que refreou o nosso ardor; eu sentia que perdia o meu quando transpus a cerca.

Por uma coincidência digna de nota, os outros dois tinham sentido uma impressão desagradável na mesma ocasião. Para todos eles era pois evidente que a cerca foi a causa do esfriamento; tanto mais que nenhum deles tinha dúvida acerca do instante preciso em que tal mudança se produziu; todos os três se lembravam que fora ao saltarem a cerca que viram os ladrões.

Travava-se este diálogo entre os dois homens que tinham surpreendido os ladrões e um caldeireiro que dormia debaixo de um telheiro e fora despertado para tomar parte na perseguição.

O Sr. Giles era intendente na casa da velha proprietária onde o roubo se ia dar e Brittles não tinha funções definidas; como entrara muito criança para lá, era tratado como um rapaz que prometia, posto já contasse trinta anos passados.

Conversavam pois, como vimos, para criar coragem; mas caminhavam juntinhos uns dos outros e lançavam à roda de si um olhar inquieto, apenas o vento agitara as folhas; precipitaram-se para uma árvore ao pé da qual haviam deixado a lanterna, a qual levaram consigo.

Depois continuaram a andar, ou antes a correr na direção da casa, e, neste tempo, depois ainda a sua sombra móbil se agitava e dançava ao longe, semelhante a um vapor que sobe do solo úmido.

O ar ficava mais frio à proporção que o dia se aproximava lentamente, e o nevoeiro cobriu a terra de uma espessa camada de fumo. A relva estava úmida, os caminhos, lamacentos; soprava um vento frio de chuva.

Oliver continuava imóvel e privado da vida, no lugar em que Sikes o deixara.

Levantava-se lentamente o dia; pálido clarão iluminava o céu, marcando antes o fim da noite que o começo da manhã. Os objetos que, na escuridão, pareciam medonhos e terríveis tornavam-se cada vez mais distintos e reassumiam pouco a pouco o seu aspecto habitual. Um forte chuvisco banhava as árvores sem folhas; mas Oliver não o sentia e continuava a estar sem sentidos e longe de todo o auxílio na sua cama de argila.

Afinal, um fraco grito de dor rompeu aquele longo silêncio e, ao soltá-lo acordou a criança.

O seu braço esquerdo, grosseiramente envolvido em um xale, pendia sem força e estava coberto de sangue. O menino estava tão fraco que mal se pôde sentar, e, quando o conseguiu fazer, olhou languidamente à volta de si como para procurar socorro.

A dor fê-lo gemer.

Tremendo de frio e de fraqueza, fez um esforço para se levantar; mas entrou a tiritar da cabeça até os pés e caiu no chão.

Depois de ter voltado alguns instantes ao estado em que estivera tanto tempo, Oliver, sentindo uma horrível impressão, presságio de uma morte certa se ficasse onde estava, conseguiu erguer-se e procurou andar.

Tinha a cabeça abrasada e cambaleava como um homem ébrio; conseguiu não obstante ter-se em pé e, com a cabeça pendente sobre o peito, caminhou com passo incerto, sem saber aonde ia.

Conservavam-se-lhe no espírito uma multidão de idéias singulares e confusas. Parecia-lhe que ainda estava entre Sikes e Crackit, que discutiam violentamente, e que as palavras deles lhes feriam aos ouvidos.

Se no seu delírio fazia um violento esforço para não cair, achava-se de repente em conversa com eles; depois, estava só, com Sikes, caminhando como fizera na véspera, e parecia-lhe sentir o aperto do ladrão quando alguém passava por eles.

De repente estremeceu ao rumor de uma detonação de arma de fogo e ouviu grandes gritos; viu luzes diante de si; tudo era rumor e tumulto; parecia-lhe estar preso por uma força invisível.

A essas visões rápidas vinha juntar-se um sentimento vago e penoso do sofrimento que o atormentava sem cessar.

Caminhou assim cambaleando, abrindo maquinalmente por entre as cercas que encontrava, até que chegou a uma estrada; aí começou a chuva a engrossar tanta que Oliver voltou a si.

Olhou à roda e viu a pouca distância uma casa, até a qual podia ir.

Vendo o seu estado teriam pena dele e, no caso contrário, mais valia (pensava Oliver) morrer ao pé de um teto habitado por criaturas humanas que na solidão dos campos.

Reuniu as poucas forças que lhe restavam para esta última tentativa e caminhou para casa.

Ao aproximar-se da casa, parecia-lhe vagamente que já a tinha visto; não se lembrava de nenhuma circunstância, mas a forma e o aspecto da casa não lhe eram desconhecidos.

Aquele muro do jardim! Na relva, do outro lado, caíra ele de joelhos, na porta interior, e implorava a dois salteadores; era aquela a casa que eles tentaram roubar.

Reconhecendo onde estava, Oliver sentiu um receio tal que esqueceu por alguns instantes as dores e só pensou em fugir.

Fugir! Ele mal se podia ter em pé; e quanto tivesse toda a agilidade da mocidade, para onde fugiria? Empurrou portanto a porta do jardim; não estava fechada à chave e abriu facilmente; caminhou, subiu os degraus, bateu devagar à porta e, faltando-lhe as forças, encostou-se a um dos pilares da entrada.

Nessa ocasião, o Sr. Giles, Brittles e o caldeireiro estavam na cozinha, restaurando-se das fadigas e terrores da noite passada, com chá e doces; não que estivesse nos hábitos do Sr. Giles de entrar em grande familiaridade com os criados inferiores, para os quais ele mostrava antes uma benevolência altiva, de maneira a não lhes deixar esquecer a superioridade da sua posição social; mas diante da morte, incêndios e ataques à mão armada, todos os homens são iguais.

Estava pois o Sr. Giles sentado na cozinha, com as pernas cruzadas diante do fogão, o braço esquerdo apoiado na mesa, ao passo que gesticulava com o braço direito e fazia do ataque noturno uma narração minuciosa, que todos os seus auditores, e principalmente a cozinheira e a criada, ouviam com avidez.

— Eram pouco mais ou menos duas horas e meia — disse o Sr. Giles —, e eu não juraria que fossem três, quando eu acordei, e voltando-me na cama assim (o Sr. Giles voltou-se na cadeira puxando a ponta da toalha para simular os lençóis), parecia-me que ouvia certo barulho.

Neste ponto da narração, a cozinheira empalideceu e pediu à criada que fosse fechar a porta; a criada dirigiu-se a Brittles, e este ao caldeireiro, que fingiu não ouvir.

— Pareceu-me que ouvia certo barulho — continuou o Sr. Giles, — É ilusão, disse eu ao princípio. — E ia continuar a dormir, quando ouvi outra vez o barulho, e de uma maneira distinta.

— Que rumor era? — perguntou a cozinheira.

— Uma espécie de rumor surdo respondeu o Sr. Giles olhando para todo o auditório.

— Ou antes o som de alguma coisa em uma barra de ferro — disse Brittles.

— Talvez, no momento em que você ouviu — disse o Sr. Giles. —Mas quando eu ouvi era um rumor surdo; lancei de mim os lençóis (e o Sr. Giles empurrou a toalha), sentei-me na cama e prestei ouvidos.

A cozinheira e a criada exclamaram ao mesmo tempo:

— Meu Deus! E aproximaram as suas cadeiras.

— Então ouvi a ponto de não poder duvidar — continuou o Sr. Giles. — Disse comigo que estavam forçando alguma porta ou janela; que fazer? Fui prevenir aquele pobre Brittles para que ele não se deixasse assassinar na cama; e se não o avisar, disse eu comigo, podem cortar-lhe o pescoço sem que ele o perceba.

Aqui todos os olhos se voltaram para Brittles, que tinha os seus pregados no narrador e o contemplava boquiaberto e espantado.

— Empurrei os lençóis, disse Giles, olhando para a cozinheira e a criada, pulei da cama, calcei um par de...

— Aqui há senhoras — murmurou o caldeireiro.

— Um par de sapatos, disse Giles voltando-se para o caldeireiro e apoiando na palavra. — Lancei mão da pistola carregada que está sempre na escada perto da porta e dirigi-me para o quarto de Brittles. — “Brittles”, disse-lhe eu, depois de o acordar, “não tenha medo.”

— É exato — observou Brittles à meia-voz.

— Estamos todos mortos, pelo que me parece, Brittles, mas não tenha medo.

— Ele teve medo? — perguntou a cozinheira.

— Não — disse o Sr. Giles — mostrou-se firme... tão firme como eu.

— Pois eu cá morrerei imediatamente — disse a criada.

— É que você é mulher — replicou Brittles.

— Brittles tem razão — disse o Sr. Giles, aprovando com um gesto o que ele acabava de dizer. — Da parte de uma mulher não se deve esperar outra coisa; mas nós, que somos homens, pegamos numa lanterna surda que estava na chaminé de Brittles e descemos a escada às apalpadelas, no escuro, assim.

O Sr. Giles levantou-se e começou a dar alguns passos para juntar o gesto à palavra, quando de repente estremeceu, como todos, e voltou depressa para a cadeira. A cozinheira e a criada soltaram um grito.

— Bateram na porta — disse o Sr. Giles afetando uma perfeita serenidade. — Vá abrir alguém.

Ninguém se mexeu.

— É singular que venham bater à porta tão cedo — disse o Sr. Giles considerando as caras pálidas das pessoas que o cercavam e empalidecendo também. — Mas é preciso abrir a porta; alguém deve ir abrir a porta.

O Sr. Giles disse estas palavras com os olhos em Brittles; mas este mancebo, sendo naturalmente modesto, não pensava que fosse alguém e persuadiu-se que a intimação não era com ele; em todo o caso não respondeu.

O Sr. Giles fez sinal ao caldeireiro, mas este adormecera repentinamente.

As mulheres.... nem pensar nisso.

— Vá ver quem está à porta, Brittles, disse o Sr. Giles após um momento de silêncio, que te acompanho. [2]

FIM

NOTAS

1 A parte final deste capítulo não foi traduzida por Machado.

2 Fim da tradução de Machado de Assis. Segundo J. Galante de Sousa (Bibliografia de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1955, p.452), “Esta tradução figura anônima no periódico. Não há dúvida, porém, de que pertence a Machado de Assis, em vista de uma carta sua, que se encontra em Correspondência ( W.M. Jackson 1938, PP. 403-404) , a destinatário ignorado e que passamos a transcrever:”

14 de junho de 1870.

Exmo. Sr. — Era resolução minha, de acordo com o recado que de V. Ex. recebi, por intermédio de nosso amigo comum o dr. França, esperar a chegada do sr. Oliveira para nos entendermos todos três a respeito do trabalho que faço para o Jornal da Tarde como tradutor do folhetim. Nisto atendia eu à consideração devida para com os dignos proprietários do Jornal da Tarde. — Sobreveio, porém, uma circunstância que me obriga a modificar aquela resolução, e a dizer a V. ex. que não posso continuar a traduzir o folhetim, como até agora fazia. Não querendo pôr embaraços ao Jornal da Tarde, continuarei a tradução até sábado, 18. Não me demorarei em dizer a V. ex. com que pesar sou obrigado a a interrromper este trabalho que eu fazia com maior vontade que aptidão; temo que se possa confundir um sentimento verdadeiro com uma fórmula de ocasião. — Qualquer que seja porém este meu pesar, não pode influir nas circunstâncias que me determinam. Considere-me V. Ex. como sempre — Affo. am o. e obrg o. cro. —

Machado de Assis


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